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DE HOMEM A ZEUS: UMA ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS OPERADORES DO DIREITO.
BEHEREGARAY, A. P. . De homem a Zeus: uma análise psicológica dos operadores do Direito. 2007. (Apresentação de Trabalho/Simpósio).

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BREVE ENSAIO SOBRE A FUNÇÃO PSIQUICA DA LOUCURA E  DA VIOLÊNCIA
O OUTRO NECESSÁRIO: PARTÍCIPES DA ESCURIDÃO

O ser humano não encontrou ainda possibilidade de existir sem que, para isso, precise criar o outro – estrangeiro. Para se constituir como sujeito é necessário não só que o ego busque modelos de identificação, para com isso construir uma identidade, mas também que encontre modelos de oposição, que vai lhe oferecer aquilo que ele não deseja “ser”.

O modelo judaico-cristão criou uma profunda cisão psíquica, regida pela marcada separação entre o bem e o mal, e a constante ameaça de punição para aqueles que ousarem transpor esta linha.

Sob influencia deste modelo percebemos a intensificação desta cisão, o mundo ocidental dividido entre pessoas do bem e pessoas do mal, santos e pecadores, virgens e prostitutas, mocinhos e bandidos. Nada coexiste – céu e inferno não se misturam.

Por mais de 2000 anos foi possível ouvir os ecos desta divisão nas ciências, nas artes, nas leis. Sons que acentuados, podem ser fatais.

O reflexo deste modelo na clinica, como bem identifica Thomaz Szasz, em a Fabricação da Loucura. O autor traça um paralelo significativo entre a caça as bruxas e a crença em feitiçaria e a descriminalização e exclusão aos doentes mentais hoje. Para Szasz, a criação do conceito de doença mental, portanto do louco, serve para que os demais membros da sociedade possam, através desta categorização, lidar com o outro da forma como lhes aprouver. Estando este movimento não apenas do exercício do poder, mas de uma necessidade psíquica do grupo. Bruxas e loucos ocupam a mesma função em tempos históricos diferentes, e um substituiu o outro. A caça as bruxas é abandonada na medida em que a psiquiatria nasce como disciplina médica.

A função psiquica, a que estão a serviço bruxas e loucos, e ampla e estruturante para o grupo social. A função de carregar a sombra humana. Um breve olhar para a história nos mostra que sempre existiram figuras sociais suscetíveis a quem atribuir a sombra humana. Elege-se, por óbvio, quem menos possa se defender:

“Esse que se faz de outro – ou seja, ali onde projetamos e fazemos partícipes de algo desconhecido – é comumente situado como alienado, a quem não é imputado responsabilidade social. É aquele que socialmente não faz classe e que, por essa razão mesma, é sempre falado por outro estrangeiro a sua situação” Ana Costa

A substituição do discurso mágico e seus feitiços, pelo mágico discurso social está a serviço da identificação do bode expiatório social. A transição do discurso, que se movimenta para no mesmo lugar manter o bode expiatório, ganha força com o argumento da razão cientifica.

A história tem demonstrado que a função psiquica, a que serve bruxas e loucos, não precisa de lógica para existir. Ela é inconsciente e já está, é anterior a qualquer discurso e encontra neste, apenas a forma de se legitimar.

A imagem do louco serve aos membros “sadios” da sociedade para extirpar de si a sua parte “louca”. É ainda a forma encontrada de salvar todo resto. O sujeito precisa identificar o que é ser louco, para que com isso possa identificar o que é ser normal. Se não sei o que é doença mental, não saberei dizer o que é saúde mental e identificar a que grupo pertenço. Quando encontro no outro as marcas da loucura, estou salvo.

Surge na arena outro grande aliado para demarcação do bode expiatório, o discurso jurídico. Se o saber cientifico tem sido lentamente minado pela ausência de certezas, o discurso jurídico, ao contrario, parece ganhar cada vez mais força com o clamor social por mais segurança.

Integração da sombra no processo de autoconhecimento

É ainda com profundo espanto que, na clinica, o paciente percebe perplexo a sombra que lhe acompanha. Muitos passam a vida tentando escapar dela, atribuindo ao outro sua tirania, loucura e perversão. E quanto mais empenhados estão em fugir deste escuro desconhecido, mas projetam a sombra. Normalmente, quem não integra essa parte importante da psique acaba se tornando um severo moralista. Perseguem a diferença fora por que são incapazes de integrar sua parte mais obscura. É aquele que empenhar-se-á em punir no outro aquilo que não admite em si mesmo.

A sociedade não tem interesse em acabar com os muros e incluir. Desespera-se. Se caírem os muros dos manicômios e as grades das prisões forem abertas, e libertarem as prostitutas de seus guetos e acabarem com os racismo mascarado e silencioso, quem então será partícipe de minha sombra? Ou como definiu Calligaris, cabide de minhas projeções.

De nada servem políticas publicas e movimentos sociais que não possam proporcionar uma profunda reflexão sobre a sombra humana. Se Deus está morto, como proclamou Niet, seu legado está mais vivo do que nunca. Não é possível acabar com a idéia de loucos, nivelando a diferença, e nem eliminar a violência com a crença de que é possível eliminá-la. O trabalho é individual, e a compreensão destas questões deve ocorrer antes dentro do sujeito. Quando corajosamente reconhecemos estes aspectos dentro da gente, assumimos a parte que nos cabe no grupo, com isso diminuímos e muito, a projeção e a necessidade do bode expiatório.

A integração da sombra é um processo difícil e por isso vemos a constante explosão de conflitos entre grupos. Micro e macro, são estes movimentos. Do mais conhecido deles, o nazismo, até os pequenos confrontos saudáveis entre times de futebol, percebemos a necessidade da demarcação da diferença estampada em signos e bandeiras.

O ataque ao outro não visa eliminar o diferente, como pensam alguns, mas antes preservá-las e demarcá-las. Um exemplo disto é o discurso de “reintegração social” do preso. O discurso mascara o desejo real, sabe disso quem conhece uma prisão. Não existe nenhum interesse de reintegração, as prisões antes são feitas e mantidas para intensificar a violência do grupo que lá está. Tudo na prisão funciona para isso. Não é para se recuperar que colocamos o infrator lá, e nem para morrer, como alguns acreditam. Eles estão lá para incrementar a sua violência e serem um dos grupos responsáveis para carregar a sombra coletiva.

Não é possível uma integração completa da sombra, no entanto, uma maior integração individual pode ocorrer e isso ocorre através do autoconhecimento. Parece, no entanto, que caminhamos na direção oposta, do incremento desta cisão. O sintoma social que claramente vemos surgir é do maciço evitamento da frustração. A clinica sempre prenhe de sujeitos em busca de métodos rápidos e fáceis para eliminação do sofrimento é testemunha disto.

Eliminação encontrada nas prateleiras das farmácias. Remédios para ser feliz, remédios para dormir, remédios para conter a agitação da infância, filhos ideais de pais sem tempo, nem disposição afetiva. Existem muitas outras formas de escapar de si mesmo. O evitamento do sofrimento incrementam e ampliam a cisão existente.

Ir na direção da sombra que, apesar de humano, não agrada vai contra o discurso de prazer fácil da modernidade. Entrar em contato com a loucura e violência que todos possuem, é entrar em contato com o desprazer. Ainda não sabemos ver a riqueza deste processo, o prazer da loucura e a força da pulsão de morte.

Querer eliminar isso é a mais profunda negação do humano. Até o gato de Alice sabia disso, e lhe alertou:

_Nesta direção. Disse o gato, girando a pata direita,”mora o Chapeleiro”.



_“E nesta”, apontando a pata esquerda, “mora uma lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos.



_Mas eu não quero encontrar gente louca. Observou Alice.



_ Você não pode evitar isso. Replicou o gato.Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco, você é louca.



_Como sabe que eu sou louca? Indagou Alice.



_Deve ser –disse o gato- se não, não teria vindo aqui.




* ESTE TEXTO NÃO ESTÁ PUBLICADO EM REVISTA OU OUTRO MEIO.




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AS DEMANDAS DO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL E O SABER-FAZER PSICOLÓGICO

CARVALHO, Salo. ; BEHEREGARAY, ANDRÉA. P. . As demandas do Sistema de Justiça Criminal e o saber/fazer psicológico. Entrelinhas (UEL), v. VIII, p. 9-10, 2007.

http://www.crp07.org.br/upload/edicao/arquivo16.pdf


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De homem a Zeus:uma análise psicológica dos operadores do Direito

A teoria dos arquétipos[2] do psicanalista suíço Carl Gustav Jung originou-se da observação das fantasias de seus pacientes esquizofrênicos, as quais eram consideradas algo sem sentido pelos especialistas da época. Jung, porém, percebeu que as imagens contidas nas fantasias possuíam um cerne mítico, também presente nos sonhos de pacientes que não eram esquizofrênicos.
Jung passou sua vida estudando os mitos presentes em diversas culturas, e constatou que as imagens podiam mudar, porém, os movimentos e motivos eram os mesmos. Muitas das suas pesquisas mostraram que as semelhanças dos motivos não haviam ocorrido por transmissão, concluindo que os arquétipos estavam na base da psique, tendo, os seres humanos, um mesmo processo psíquico estruturante, um padrão formativo universal e inato[3].

O conteúdo do arquétipo é que varia de acordo com a cultura e a psique individual, mantendo, porém, sua forma universal enquanto base. Esse conteúdo pode ser observado nos sonhos, nas artes, na arquitetura, nos contos, nos filmes, sendo o mito uma de suas formas de expressão. O mito é uma espécie de roupagem que o arquétipo assume tornando-se uma rica fonte de informação sobre os processos psíquicos do desenvolvimento humano.

Segundo Hollis[4], o mito pode ser definido como uma dramatização de valores e conflitos conscientes e inconscientes de um grupo ou de um indivíduo, oferecendo, através de padrões impostos, maior ordem ao caos.

Do mesmo modo que os arquétipos existem vários deuses operando na nossa psique. Algumas vezes encontramos mais de um padrão arquetípico regendo um individuo, e, em etapas específicas, podemos perceber claramente a regência de um único deus. Os deuses apresentam-se como predisposições invisíveis que se manifestam na personalidade, nas relações, no trabalho, e nos grupos.

O mito de Zeus

Zeus, o deus mais poderoso do Olimpo, era o filho caçula de Kronos e Réia e neto de Urano e Gaia. Kronos, a pedido de sua mãe, destronou Urano, castrando-o para que seus irmãos pudessem viver, pois Urano os devolvia ao ventre de Gaia assim que nasciam. Ao assumir o poder, Kronos repetiu o destino do pai devorando seus filhos nascidos de Réia. Ao nascer, Réia salvou Zeus de ser devorado pelo pai, do mesmo modo que seus irmãos o foram, colocando em seu lugar uma pedra.

Para que pudesse se desenvolver longe da ameaça que o pai representava, Réia entregou o filho a uma ninfa que o manteve escondido em uma caverna e foi amamentado por uma cabra. Já adulto, Zeus desposou Métis, Deusa da Prudência, e pediu que ela desse a Kronos um emético, o qual fez Kronos vomitar todos os filhos que havia engolido.
Zeus juntou-se aos irmãos, Hades e Posêidon, e os três iniciaram uma guerra pelo poder contra Kronos e os Titãs, que durou dez anos.

Após conseguir ajuda de Métis e engravidá-la, Zeus a devorou por medo de ser destronado. Porém, o feto de Métis continuou a crescer dentro de Zeus e, um dia, após uma forte dor de cabeça, Atená nasceu de suas meninges, e foi ela quem ajudou o pai a vencer a guerra.

Após a vitória, Zeus e seus irmãos tiraram a sorte para dividir o mundo: Zeus ganhou o céu, Posêidon, o mar, e Hades, o mundo inferior. Do monte Olimpo, Zeus mandava em tudo, e depois de reorganizar o cosmos Zeus envolveu-se em inúmeras relações amorosas com deusas, ninfas e mulheres mortais, o que o tornou pai da maioria dos deuses e semideuses do Olimpo.

Entre as suas conquistas estão: Métis (prudência), Têmis (justiça e sabedoria), Demeter (Deusa da Terra ), Mnemósine ( memória ), Leto e Hera ( casamento).

Hera tornou-se esposa legítima de Zeus à qual ele nunca foi fiel. Teve muitos filhos em suas diversas ligações, entre os quais: Apolo, Deus do Sol (filho favorito), Hermes, Deus mensageiro (filho favorito), Ares, Deus da Guerra (filho rejeitado), Hefesto, Deus da Forja (filho rejeitado), Dionísio, Deus do êxtase e do vinho (filho cuidado), Atena, Deusa da justiça (filha preferida), Ártemis, Deusa da Caça (filha preferida).

Zeus desprezava Hefesto, por sua imperfeição, e Ares, por gostar de conflitos e o derramamento de sangue. Seus filhos preferidos eram Apolo, que representa a força consciente, conhecimento e clareza de idéias, Atená, que representa a inteligência, a estratégia, o julgamento reflexivo e a racionalização.


O arquétipo do pai.

Zeus, junto com seus irmãos, Posêidon e Hades, representam os três aspectos do arquétipo de pai. São padrões separados que, no entanto, ao considerá-los juntos, encontramos Posêidon e Hades como aspectos da sombra[5] de Zeus[6].

Na mitologia, os três deuses representam a divisão da psique masculina. No reino de Zeus, encontra-se o reino mental da consciência do poder, da vontade e do pensamento; o reino de Posêidon é o reino das emoções e dos instintos; a Hades pertence o reino do indistinto, dos padrões invisíveis e dos arquétipos impessoais.

Zeus é o arquétipo dominante na cultura patriarcal, o principal Deus e o mais poderoso. Suas características são atribuídas ao pai, reis e rainhas, generais e homens bem-sucedidos, e podem ser percebidas e vivenciadas tanto em homens quanto em mulheres. Já, no conceito psicológico, Zeus é a imagem da experiência da paternidade, que incorpora os ideais espirituais, códigos de ética e auto-suficiência. Representa a autoridade e a ambição. É o principio masculino da personalidade[7].

Zeus podia ser piedoso e protetor com os mais fracos, mas quando tinha sua autoridade desafiada ou suas leis desrespeitadas, mostrava sua face má e vingativa, como descobriu Prometeu após dar aos mortais o Fogo dos Deuses e receber de Zeus a punição de permanecer amarrado por trinta anos, tendo seu fígado devorado diariamente por uma águia.

O Direito: a escolha pelo Pai

O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai. (Nietzsche). O mito de Zeus expressa três instâncias psíquicas do arquétipo de pai, essencialmente do pai devorador. Urano, Kronos e Zeus são deuses dominadores, reais, governantes indiscutíveis, pais devoradores, com dinâmicas diferenciadas de funcionamento[8].

Urano (céu) é o mais antigo e feroz dos três deuses. Não devorou os filhos diretamente, mas os forçava a retornarem ao seio de Gaia (terra) e os aprisionava. É o pai que mantém seus filhos muito próximos, em uma condição infantil, que no trabalho se manifesta nas repetições inquestionáveis de condutas, sentenças, convenções, etc. É a assimilação e reprodução inconsciente dos valores coletivos do ambiente jurídico. É aquele que Amilton Bueno de Carvalho[9] denominou juiz da infância, mas que se estende aos outros profissionais, e que tem o tribunal como um pai, um ídolo e que por aderir ao seu saber acaba despersonalizado, reprodutor e dependente.
Kronos é o pai que, após castrar o próprio pai, toma-lhe o poder. No entanto, diferente de Urano, ele devora os seus filhos. A diferença é que Urano manteve seus filhos infantilizados, ligados à mãe. Já, Kronos tira de Réia estes filhos, mas os incorpora. Embora estejam, ainda, em estado primitivo e pouco desenvolvidos, os filhos podem, agora, incorporar os princípios paternos. Porém, isto ocorre de forma incompleta por que deste estágio não podem passar.

O arquétipo de Kronos pode ser percebido naqueles homens que elegem um modelo a ser seguido e que, posteriormente, não conseguem se desvincular dele, permanecendo presos à figura modelo, do mesmo modo que os filhos de Kronos. Em contrapartida, o homem regido por Kronos não irá estimular o outro a buscar uma identidade própria, sentindo-se orgulhoso de seus seguidores. Semelhante a Narciso, Kronos busca espelhos. Os que não o seguem são rejeitados. Esta disputa ocorre de forma mais clara através das linhas teóricas que os profissionais adotam, em que é comum serem identificados como abolicionistas, garantistas, etc. Muitos realmente ficam presos as teorias – mais uma vez, presos ao pai - não conseguindo a saudável circulação e discussão de idéias, mas, de forma geral, o tratamento que lhes é conferido é reducionista e parte do jogo pelo poder.
Os três deuses manifestam-se através de reinados hereditários. Porém, Zeus foi o único dos deuses que teve muitos filhos, apesar de mantê-los sob controle. Arquétipo de Zeus, em especial, é o pai de dinastia, é aquele que funda uma família e quer muitos filhos e netos que levem adiante seu trabalho[10], por isso costuma influenciar bastante seus descendentes na escolha profissional.
No ambiente do Direito é comum o exercício da profissão por gerações. Nesse jogo de identificações[11], ou do mito, os filhos precisam empreender grandes esforços para se diferenciarem de seus pais em busca de uma identidade autêntica.

No mito, a família patriarcal de Zeus funciona como impeditiva do desenvolvimento, inclusive das figuras femininas. Tanto Kronos quanto Zeus sofrem a ameaça de serem aniquilados pelo pai. Zeus é o filho escolhido para derrotar Kronos, o pai ameaçador, mas só poderá fazê-lo após completar a primeira etapa de seu desenvolvimento.

No ambiente profissional, o processo de desenvolvimento e individuação ocorre quando um profissional elege um modelo a seguir, e só após muito copiar seu objeto de admiração começa a ensaiar um estilo próprio.

Tanto no ambiente profissional quanto no familiar o homem regido por Zeus não gosta de ser contestado. É autoritário, e, mesmo mantendo o canal de comunicação aberto com seus subalternos e filhos, estimula a reprodução de papéis, pois o que deseja é sempre ser dono da palavra final e, com isso, perpetuar-se através dos seus. Uma frase de Winston Churchill ilustra bem esta postura:“ O que eu espero, senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo[12].”

Muitos problemas surgem no ambiente familiar quando Zeus tem que lidar com filhos adolescentes que questionam[13] suas decisões. Se o filho não preenche as expectativas paternas, não se encaixando no modelo de Apolo ou Atena, ele terá muitos problemas. A questão é ter poder sobre a dimensão psíquica dos filhos, o que oferece ao pai um importante papel, lhe confere importância, atitude típica de Zeus. Quando o filho continua sendo aquele filho (Apolo), ele garante a sobrevivência dos pais sem muitos conflitos[14].
No mito, o feminino que se apresenta é um feminino muito conservador (Hera), pois, Géia, avó de Zeus, envia Tifão para lutar contra o neto e é este monstro que acaba mutilando Zeus. O monstro tenta impedir que Kronos, seu filho, seja destronado. Simboliza o feminino conservador o único capaz de derrotar Zeus. Um feminino ameaçador, portanto, impeditivo do desenvolvimento, crescimento e transformação criativa da libido e da liberdade de pensamento.
O desafio é duplo para aqueles que pertencem a famílias que façam parte do meio jurídico. É duplo, pois o processo de individuação[15], o tornar-se quem se é realmente exige a separação psíquica da família, e o separar-se das expectativas dos outros já é, em si, tarefa árdua e muitos não conseguem fazê-lo; correm o risco de permanecerem na condição de filho dependente, tanto em relação à família quanto em relação ao funcionamento do ambiente jurídico. Essa condição não tem relação com a idade cronológica, como lembra Carotenuto[16], um filho pode ser dependente aos setenta anos, quando seus pais fisicamente já não existem, mas permanecem vivos em seu psiquismo.

O direito é uma escolha em nome de um pai, seja por sua ausência ou por sua poderosa presença e quanto mais inconsciente a influência da figura paterna for para o sujeito, mais influenciará suas ações e escolhas.

O processo de individuação é encenado, muitas vezes, no mito, através da luta dos filhos contra o pai. E como aponta o mito, esse processo não ocorre sem sofrimento e os confrontos são sempre violentos. Tanto Kronos quanto Zeus mutilaram seu pai para poderem viver.

O processo de individuação é uma luta por um Eu autêntico. Buscar nossa verdadeira essência, aquilo que realmente somos implica trair nossos pais nas expectativas que eles possuem em relação a nós. Os deuses traíram seus pais, mutilaram e foram mutilados. Alguns têm sucesso na experiência, outros não, nunca se afastando destas expectativas, ou retornando a elas após desistirem, como expressa André Gibe[17]:

Aqui o retorno do filho pródigo é uma admissão de malogro; procurou a independência pelos caminhos do mundo, mas não foi capaz de suportar o conflito, a ansiedade e a frustração inseparáveis da liberdade, por isso volta para casa ‘por preguiça’ incapaz de suportar a ‘traição’ da família, preferiu trair a si próprio...

O sentir

O indivíduo, segundo Jung, possui, em geral, uma atitude introvertida ou extrovertida que são duas categorias de funcionamento da personalidade. Estas categorias estão combinadas com quatro funções psicológicas básicas: pensamento, sentimento, sensação e intuição, sendo as duas primeiras funções racionais e as outras duas, funções irracionais[18].

Os tipos psicológicos são resultados do funcionamento dessas funções com uma personalidade introvertida ou extrovertida. Uma dessas funções será privilegiada em detrimento das demais que agirão como funções auxiliares. Dificilmente alguém desenvolverá as quatro funções, podendo, porém, buscar maior equilíbrio entre elas. Para Jung[19], as funções podem ser, assim, compreendidas:

A sensação constata o que realmente está presente. O pensamento nos permite conhecer o que significa este presente; o sentimento, qual o seu valor; a intuição, finalmente, aponta as possibilidades do ‘de onde’ e do ‘para onde’ que estão contidas neste presente.

As principais funções que aqui pretendemos trabalhar são o pensamento e o sentimento, que nos parecem mais claras ao utilizar o mito de Zeus, porém, as demais funções estão presentes, em menor intensidade, tanto na psicologia de Zeus quanto no ambiente jurídico.

Conforme dissemos anteriormente, Zeus é o arquétipo do raciocínio lógico, do pensamento, das decisões imparciais. Se pensássemos Zeus enquanto homem diríamos que sua principal função é o pensamento, sendo o sentimento sua função inferior, função que no processo de diferenciação é a menos desenvolvida.

No funcionamento normal da psique, a função inferior permanece consciente em seus efeitos, porém, na neurose toda a libido é dirigida para a função principal e a função inferior evolui regressivamente voltando a seus estágios iniciais, o que a torna incompatível com a função principal.

O ambiente jurídico privilegia o pensamento claro e o raciocínio lógico, ferramentas valiosas para se obter bons resultados. Existe certo desconforto quando é necessário lidar com as emoções. Muitos autores enfatizam a dificuldade de sentir.

Normalmente, essa dificuldade é projetada na figura do juiz, de qualquer forma é um valor do grupo, reforçado por este. Para Carvalho[20], o exercício desta difícil profissão acaba tornando o juiz um homem só, que não sente, dá ordens. Segundo Aury Lopes Jr[21], o sentir foi excluído da atividade do juiz, tornando-o apenas um burocrata repetidor de sentenças.

Concordamos, em parte, com tais afirmações. O sentimento parece, sim, estar ausente nesse meio, pelo menos das salas de audiência, mas se olharmos atentamente para esse grupo perceberemos o quanto o sentir está presente, porém, de maneira cindida.
O que parece ocorrer é que a atitude consciente, o pensamento, se apresenta de forma unilateral e, portanto, muito afastada do sentimento que se encontra no inconsciente. Acontece, porém, que o fato de reprimirmos uma função não a elimina, ela se mantém apenas mais primitiva e sob o domínio poderoso do inconsciente. Toda a função reprimida busca válvulas de escape para se manifestar.

Mas de que forma, então, os sentimentos se manifestam nos operadores do Direito? Voltemos ao mito: Zeus, o juiz imparcial e racional tinha intensa vida afetiva. Casado com Hera, deusa do casamento e conservadora, teve muitos casos extraconjugais. E nesses múltiplos romances Zeus vivenciou seus sentimentos. Posêidon representa a sombra de Zeus em sua natureza afetiva, passional e indomável. Nas relações afetivas Zeus buscou o que lhe faltava enquanto função pouco desenvolvida, mesmo com os protestos de Hera. E, para viver essas relações extraconjugais, vamos encontrar um deus nada imparcial ou justo. Encontramos, sim, nessa sombra, alguém centrado apenas no seu desejo, e que usou táticas nada éticas para obter as mulheres que desejou.

Retornemos aos homens. Em parte, a cisão entre as funções pensamento/sentimento se manifesta na dinâmica das relações afetivas do grupo. Alguns participam de forma direta e concreta, reproduzindo as múltiplas relações apresentadas pelo mito: homens que possuem sua Hera e que mantêm diversas relações afetivas com as “ninfas dos tribunais”.

De maneira indireta, participam todos aqueles que encontram muito prazer em falar sobre tais relacionamentos. Quanto mais cindida estiver uma pessoa, ou um grupo, mais projetará no Outro o que lhe pertence. A projeção ocorre à base das intrigas pessoais, e o grande interesse sobre os relacionamentos afetivos desses homens indica a enorme quantidade de energia reprimida no inconsciente. A “fofoca” abundante é uma forma que um grupo encontra para vivenciar os conflitos de fragmentação expressos no mito.

A infidelidade, obviamente, não é privilegio do Direito, está em todos os lugares e em todas as profissões. O que muda, porém, é a dinâmica de cada grupo. Nem é vista, aqui, como algo pejorativo, mas enquanto fenômeno de uma psique fragmentada em busca de maior equilíbrio. Tampouco diz respeito apenas ao relacionamento homem/mulher, e a traição, tanto na vida quanto no mito, está presente em todas as relações.

O processo de desenvolvimento de Zeus é pautado na traição. Do início ao fim de sua jornada, a começar pela história familiar, da traição ao pai à sua vida afetiva. A cada traição, Zeus adquire uma característica nova com suas muitas amantes. A busca de múltiplas relações sentimentais demonstra a necessidade de confirmações externas da própria capacidade de relação e de sentir[22].

Um aspecto positivo da infidelidade de Zeus é que através dela ele obtém uma ampliação da consciência. O contato com diversas parceiras lhe possibilita uma ampliação de suas percepções, possibilidades e sentimentos.
O problema acontece quando a posição é unilateral em demasia e o pensamento é supervalorizado. Ocorre, então, o que Jung denominou enantiodromia, quando uma posição unilateral transforma-se em seu oposto. Com isso, o negligenciado reino das emoções emerge com potência total e derruba a razão[23]. Segundo Jung[24],o sentimento inconsciente do intelectual é estranhamente fantástico, muitas vezes em grotesca oposição ao intelectualismo exageradamente racionalista da consciência Em oposição à intencionalidade e soberania do pensamento consciente, o sentimento é impulsivo, incontrolado, caprichoso, irracional, primitivo e arcaico como o sentimento de um selvagem.

Além de poderem tornar o indivíduo vítima de paixões fulminantes, depressão e alcoolismo, as emoções também são escapes da função sentimento. Se não se manifestam no homem em si podem se apresentar nos seus familiares, como um filho dependente químico ou uma esposa depressiva. Em qualquer uma das situações, os homens regidos pelo arquétipo de Zeus se deparam com o assustador reino dos sentimentos de Posêidon.

Hefesto, a criatividade rejeitada

Hefesto, filho de Zeus e Hera, possui uma imperfeição física, e segundo uma das versões do mito, nasceu coxo e foi rejeitado pela mãe. Em outra versão, Zeus teria atirado Hefesto do monte Olimpo, após este ter tentado defender Hera durante uma briga entre ela e o marido, o que lhe causou o problema físico. As duas versões representam o filho rejeitado, símbolo da imperfeição.

Hefesto representa o arquétipo do inválido. Diferente do arquétipo da criança, que é fraca e destituída das qualidades do adulto, mas tem a possibilidade de crescer e se desenvolver, e do arquétipo da enfermidade, que é temporária, o arquétipo da invalidez é permanente[1], pois a deficiência é crônica e duradoura.

A figura de Hefesto é essencial para os operadores do Direito, pois, representa, ao mesmo tempo, a imperfeição e a criatividade banidas. Seu reconhecimento contrabalança com o narcisismo tão comum entre esses homens. Para Guggenbühl-Craig[2], o arquétipo da invalidez, por ser permanente, não permite uma fuga para fantasias de saúde e perfeição.

A quebra do narcisismo nesse grupo é de grande importância pelas transformações que poderia acarretar. Assunto muito debatido é a crença de que o Direito, e apenas este, poderia resolver os problemas sociais. Essa é uma crença do grupo, reforçada pela sociedade em geral, que ao se deparar com tais problemas tem, como primeiro movimento, exigir uma resposta da Lei. Exemplo comum é a dos crimes graves cometidos por adolescentes. Quando ocorrem, a primeira discussão que surge é sobre a maioridade penal. Não se cogita, nesse primeiro momento, nenhum outro tipo de resposta social. E, nesses casos, entram os dois aspectos de Hefesto, a imperfeição não assumida ¾ a incapacidade de reconhecer que sozinha não resolve de forma satisfatória problemas sociais complexos ¾ e a falta de criatividade, por colocar sempre em ação as mesmas e velhas respostas.

Hefesto é o deus da criatividade, o deus da Forja, o artífice serralheiro dos Olímpicos, em cujas forjas era usado o fogo dos vulcões. Seu nome, no sentido geral, é Fogo, e a ele os antigos dirigiam suas preces para que controlasse os vulcões. O vulcão simboliza a libido, e podemos conceituar Hefesto como um Deus que faz uso de sua energia, canalizando sua libido para o trabalho criativo.

Hefesto é o artesão inventivo do Olimpo, foi ele quem imperfeiço e que simboliza do. De qa criou o cetro e os raios de Zeus, a carruagem alada e flechas para Apolo e Ártemis, armas para Atena, entre tantas outras criações. Era o Deus mais humano, pela rejeição sofrida pelos pais, cresceu e se redimiu do seu narcisismo pelo abandono e pela dor. Foi o Deus traído e humilhado por Atena e seu amante Apolo.

A quebra do narcisismo, tão necessária para o desenvolvimento do homem, parece não ter ocorrido na maioria dos membros desse grupo. Ao integrar Hefesto ao Direito, será possível abandonar ideais de perfeição, imparcialidade na sentença, etc., pois o aspecto humano será reconhecido. Hefesto precisa ser integrado ao mundo do Direito, não apenas como imperfeição a ser assumida, mas como aspecto criativo a ser desenvolvido. Sem Hefesto estaremos presos a uma reprodução incessante de fórmulas ineficazes de funcionamento. Da reprodução de discursos inflados e narcisistas que só servem a esses homens. Na psique individual, o preço pago pela negação de Hefesto se traduz em sintomas físicos, por exemplo, cansaço, dores nas costas e depressão, pois o fato de se negar um aspecto psíquico não o elimina, faz apenas com que este aspecto encontre outros meios de se manifestar.

O que o mito de Zeus nos conta é que o potencial criativo e renovador só poderá se manifestar quando os homens que escolheram o Direito como caminho, possam assumir Hefesto, na sua imperfeição e fragilidade negadas. Descolar-se da identificação com o divino e retornar ao mundo dos homens, pois, ao que parece, o Direito permanece no Olimpo.

[1] Psicóloga, especialista em Ciências Penais e mestranda em Ciências Criminais pela PUCRS.


[2] Padrões humanos básicos de ser, de se comportar, de perceber e reagir ao mundo. Os padrões arquétipos sofrem influência do ambiente e das expectativas externas e determina o modo com que os arquétipos funcionarão dentro de nós.

[3] HOLLIS, James. Rastreando os deuses: o lugar do mito na vida moderna. São Paulo, SP: Paulus, 1998, p.30.

[4]HOLLIS, James. Ob.cit, p. 18.

[5] Sombra: São todos aqueles aspectos desconhecidos da consciência que podem ser tanto negativos quanto positivos.

[6] BOLEN, Jean Shinoda. Os deuses e o homem: uma nova psicologia da vida e dos amores masculinos. São Paulo: Paulus, 2002 ,p.73.

[7] BURKE, Juliet S. & GREENE, Liz. O tarô mitológico. São Paulo: Arx, 2003, p. 31.

[8]DOWNING, Christine. (org) Espelhos do Self: As imagens arquetipicas que moldam sua vida. In: O pai devorador. São Paulo: Cultrix,1991, p.85.

[9] CARVALHO, Amilton Bueno. Garantias constitucionais e processo penal. p.10.

[10]BOLEN, Jean. Os deuses e o homem. Ob.cit,.p 89.

[11] Quando a identificação com os pais e familiares for um fenômeno normal utilizamos o termo identidade. O termo identificação significa um funcionamento mais primitivo, pois é resultado da repressão da libido que, buscando uma saída, regride a estágios primitivos, sendo a identidade familiar um deles.

[12] http://www.ociocriativo.com.br/frases/pesquisa.cgi.

[13]CARVALHO, Amilton Bueno. Direito alternativo em movimento. Ob. cit,, p 87.

[14] CAROTENUTO, Aldo. Amar e trair: quase uma apologia da traição.p 51.

[15] Individuação: Processo de diferenciação da personalidade individual. Disposição natural do individuo psicológico como ser distinto da coletividade. Após a adaptação, as normas coletivas, a individuação, tornam-se o objetivo em psicoterapia, a busca de um eu autêntico e diferenciado.

[16] CAROTENUTO, Aldo. Amar e trair. Ob.cit p.54.

[17] CAROTENUTO, Aldo. Amar e trair. Ob. cit, p 53.

[18] JUNG, Carl G. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991, p 412.

[19] JUNG, Carl G. Tipos psicológicos Ob. cit p. 497.

[20] CARVALHO, Amilton Bueno. Direito alternativo em movimento.Ob cit, p. 88.

[21] LOPES JR, Aury. Introdução critica ao processo penal: Fundamentos da instrumentalidade constitucional. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2006, p. 80.

[22] CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: Amor e sofrimento.. São Paulo: Paulus , 2005, p.193.

[23] BOLEN, Jean Shinoda. Ob. Cit. P,111.

[24] JUNG, Ob cit, p. 480.



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