domingo, 3 de junho de 2018

Tinha uma pedra sobre a caixa de recordações.






Guardo tudo. Cartas, e-mails, mensagens, sms, papéis, recuerdos, imagens, fotografias. Guardo tudo, entende? Eu guardo, mas não mexo. E, às vezes, passado um tempo, que pode ser um ano ou dez, pouco importa, eu esbarro nessas recordações intencionalmente ou por acidente. Recordações cuidadosamente esquecidas. O dia então se eleva silencioso e quente sobre a minha cabeça. O tempo suspenso é invadido por sentimentos e sensações desconhecidas, há muito descoladas de suas imagens originais.

Lentas, às palavras guardadas vão tocando a pele. Vou manejando a faca, revirando às palavras, enfrentando as linhas trocadas. Dando novos sentidos, agora, tanto tempo depois. Às imagens são um choque, ou não. O passado é um mar revolto, inundado de vida. Adentro cuidadosa, vou testando os limites. A memória é seletiva, caprichosa, bem elege o que se deve esquecer.  

Guardo tudo, por que às vezes, é preciso enfiar a faca na ferida para saber se ainda sangra. Guardo para não deixar que o mar engula fragmentos desconhecidos. Guardo para aprender a ver com outros olhos. Guardo para confrontar-me. Guardo por que aquilo também sou eu. Guardo como parte da estrutura. Do que me funda. Da mulher que sou. Guardo por que aquilo também sou eu. Guardo por que é preciso.

                                               Andréa Beheregaray      

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