Memórias literárias.



Menina, muito menina ainda, eu já era uma afixonada em histórinhas. Ouvia repetidamente, na vitrolinha vermelha, Lps das minhas fábulas prediletas. Chapeuzinho Vermelho, Os três porquinhos e a coleção completa dos discos de Roberto Carlos. 

Mas foi aos 9 anos que descobri a magia dos livros. Meu pai levou a mim e minha irmã para passear na Feira do Livro de Porto Alegre. Em frente a banca de livros, não muito maior que ela, observava aquele aquele novo universo que se abria, quando ele disse que cada uma de nós poderia escolher um livro. Ali, diante da escolha, senti pela  senti pela primeira vez o delicioso prazer de comprar um livro. O livro escolhido foi 'Férias em um orfanato'.  Com ele descobri que ler também é VER. Ler era mágico, uma aventura possível do sofá da sala. A cada página eu consegui visualizar aquelas crianças e eu estive com elas quando conheceram o mar pela primeira vez.

Mas foi através do Círculo do Livro que fui definitivamente fisgada. Minha mãe era assinate e recebia a visita da representante e seu catálogo. Novamente me foi data a oportunidade de escolher o melhor presente que poderia receber, um livro. Escolhi Monteiro Lobato. Uma coleção linda e colorida composta pelas letras do nome do autor. Acho que não chegamos a completar seu primeiro nome, ficamos em MONTE e eu já estava completamente apaixonada pela leitura. Mergulhei nas aventuras de Emília, através do livro em 'Reinações de Narizanho', meu Deus como eu amava aquelas aventuras! Quando terminei o livro senti, e me lembro claramente, um misto de orgulho por ter lido meu primeiro livro grande ( grande em todos os sentidos) e um sentimento de vazio, pois agora, por tê-lo acabado, acabei também com o prazer de lê-lo. 

Deve ser nesse momento que adquira o hábito de comprar muitos livros e não concluir a leitura, só para depois ter o prazer de retornar à eles de novo e realizar assim novas e prazerozas descobertas. 

Na 6 série descobri a poesia. Alugava livros constantemente, um deles gostei tanto que nunca devolvi, tenho ele até hoje. Eu sei, é errado, mas quem pode me condenar por roubar poesia? Foi na biblioteca da escola João XXIII que conheci Cecília Meírelles, inspirada por ela e pelo professor de português Ricardo Silvestrin comecei a escrever poesias. Lembro da aula dele sobre a composição de Haikai ou Haicai, a poesia em 3 linhas. Aqui nascia o prazer de brincar com as palavras. As aulas de crase e vírgula eu pulei, desculpe professor, mas estas, estas eu trago viva nas minha memória afetiva literária. Muito obrigada.

E com Cecília aprendei a navegar. Li, reli e declamei Naufrágio, que hoje esbarrei sem querer nas redes sociais e descandearam todas essas memórias que vos relato. 

Cecília, te sei até hoje! Cecília quanto beleza!

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,

com as mão para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul, do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe ,

a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso, 

para fazer com que o mar cresça 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas
(Cecília Meireles).



Ler para mim é puro deleite. Quanto prazer encontro nas palavras! Que sorte a minha ter
tido a oportunidade de descobrir os livros. Fonte de prazer e possibilidade de conhecimento. O livro nos aproxima de universos distantes e diversos, nos faz melhores diluindo nossa cegueira e ignorância. Ler é uma porta aberta para um mundo. Escrever é alquimia, ler é mágico. E eu sou apaixonada por magia.        

Andréa Beheregaray   

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