quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Porque ninguém merecia tão pouco.





Não foi só por que tu te foste no pior momento da minha vida quando eu havia perdido todas as referências, todas as certezas, todos os sinais. Não foi apenas por que fiquei parada no meio da rua, no meio da chuva, no meio do nada com meu coração batendo na palma da mão. Nem por que te foste sem aviso, sem olhar pra trás quando estávamos bem, apaixonados e fazendo planos ou por que tu havia me dito com todas as letras, pontos e vírgulas, que eu poderia confiar em ti. Ou ainda   por que tinhas dito que vinhas,  que querias entrar na minha vida e eu arrumei a casa, a cama, a varanda, preparei os filhos, mandei comprar tua comida preferida, a melhor bebida e te esperei, e tu não vieste. Não foi apenas por que enfrentei o mundo sozinha nessa cidade que se tornou tão estranha ao meu sorriso, por que suportei ataques vindos sabe lá de onde, por que te defendi e defendi o que estávamos escolhendo viver por que eu acreditava que isso era amor e por amor valia a pena lutar. 

Não foi apenas por que você largou minha mão ao meio dia para segurar outra mão a meia noite, ou por que na semana seguinte tu já promovias festas com tua nova companheira, ou por que o dia em que te fostes, coincidentemente foi o mesmo em que havíamos nos conhecido dois anos antes ou ainda por que me deixaste tão próximo ao dia dos namorados e foste comemorar esta data  em nova  companhia e eu guardei o presente, os sonhos e meu coração no canto da sala vazia. Não foi apenas por isso, ou por que rompeste comigo em 15 minutos de conversa virtual, por que pediste um tempo e nunca tiveste a coragem, dignidade ou sensibilidade de voltar e dizer adeus olhando nos meus olhos, ou ainda por que não foste tu, mas os outros que vieram contar que já estavas feliz e enamorado outra vez horas depois de te despedir desse amor que disseste ter sido tão ardente e bonito.



Não foi só por isso ou por que só te dei coisas boas, como tu mesmo disseste, que eu merecia um pouco mais, penso mesmo que eu merecia um pouco mais por que ninguém merece tão pouco. Mas desconfio que você não compreenda do que estou falando, dessa necessidade de cuidado e carinho mesmo quando estamos partindo, nessa necessidade de respeito e consideração, de colocar nosso desejo em segundo plano em alguns momentos da nossa vida ou de se ter responsabilidade pelos laços que construímos. 

Não foi apenas por isso tudo que eu me transformei em silêncio e não lembro mais desse amor. Por que essa devastação transformou o sim em não e não sobrou mais nada, nem o vivido nem o ausente. Todo amor foi invalidado e eu nem lembro mais que te conheci um dia. Porque ninguém merecia tão pouco.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Manoel de Barros.






"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."
Manoel de Barros

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Empatia e o amor.


A empatia é o ingrediente essencial do amor. Sua ausência significa que não fomos capazes de desviar o nosso olhar de nós mesmos. Refletidos num espelho d´água, presos nos estágios iniciais do nosso desenvolvimento psicológicos. Reflexos de Narciso, para sempre perdido na imagem ideal - irreal - de si mesmo.
Amar o outro jamais poderá ser um espelho de nós mesmos, espelho é ilusão, olhar inquestionável, negação do real. Amar é, antes de mais nada, uma renúncia de nós mesmos. Renúncia que salva e nos faz levantar o olhar para além do ideal, nos faz avançar na direção da falta, no encontro no desigual. Amar é ser completo na diferença, o diferente que enriquece, agita, questiona certezas, impõe mudanças, exercita o respeito, nos ensina nos colocarmos no lugar do outro sem ser-lo.
Sem empatia só poderemos ver a nós mesmos, sem ver o outro somos incapazes de amar e aceitarmo-nos como incompletos, e falhos. Amar é o que nos faz encontrarmo-nos, não mais refletidos em espelho, mas sim contemplados no olhar real daqueles que amamos.
Andréa Beheregaray.