sábado, 30 de maio de 2015

Reflexos partidos.



Diários Revelados.
Posso te dizer uma coisa? Antes que você entre na brincadeira equivocada do gozo do "não"? Não sei bem em que ponto interno nos encontramos, antes tínhamos um lugar bacana, no que eu entendo como de um encontro real, áspero e sincero, o que gerava entre nós uma certa verdade. Saber o que és e poder rir contigo disso sem me ferir é bom, se não for assim, não serve. Verdade tem dia e hora marcada. Amanhã ela muda, amanhã já não sei. O que era verdade ontem, hoje pode amanhecer engano, erro, equivoco. Esse é o preço de quem não se esconde atrás de certezas, padrões e estigmas. A verdade nunca é estanque para quem se arrisca a pensar.
Reflexo no espelho. Tua de língua afiada, os beijos, Invade minha boca com tua sede tão antiga; da perversão escancarada, desejo. Nosso estranho amor. Amor sapiência, indecente, incandescente. Pergunto, mas qual seria o jeito certo? Os cegos, tantos, aos trancos tão metades quanto nós que já não podemos fingir diante do espelho. Eu e você, frente a frente outra vez, me pergunto se em realmente chegaste a partir. Reflexos partidos. Estás em mim, como eu em você.
Andréa Beheregaray


Opostos







"És meu oposto, 
mas se por amor confundes e libertas 
o caos de tudo e de todos, 
por amor eu tento tocar mais fundo, 
procurando um vôo 
que não conseguiria jamais num amor menor".

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Carta a D. - André Gorz


Amanhecendo apaixonada pelo pequeno livro de André Gorz, Carta a D. Este comovente relato sobre um grande amor repleto de estórias e reflexões filosóficas sobre esse fenômeno incansável a explicação racional, O amor. 

'André Gorz, jornalista austríaco radicado na França, reconhecido por seus trabalhos nas áreas da filosofia e sociologia, surpreendeu o mundo ao escrever Carta a D., uma pungente declaração de amor a Dorine, sua companheira por quase sessenta anos. Dirigindo-se à mulher doente, Gorz relata a história de paixão, cumplicidade e militância (com propostas inovadoras no setor trabalhista e uma atuação pioneira em ecologia política) que os uniu para sempre desde que se conheceram em Lausanne, na Suíça, em outubro de 1947. Com o agravamento irremediável da doença de Dorine, os dois se suicidaram e seus corpos foram encontrados lado a lado em 24 de setembro de 2007.'


Trecho - 'é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras. Na época, não procurei a resposta para tal questão na experiência que estava vivendo. Não descobri, como faço agora, qual era o alicerce do nosso amor. Nem o fato de estar dolorosamente obcecado pela coincidência sempre prometida e evanescente do gosto que temos por nossos corpos - e quando digo corpo, não esqueço que 'a alma é corpo' (...) nos remete a experiências fundadoras cujas raízes estão mergulhadas na infância; na descoberta primeira, originária, das emoções que uma voz, um cheiro, uma cor de pele, um jeito de se mover e de ser, que serão para sempre a norma ideal, tem ressonância em mim. É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia. 

André Gorz

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Tempos difíceis, tempos de escuridão, tempos de travessia e os anjos que encontramos no caminho.



A vida é cheia de momentos assim, sabemos. Ela não é, como querem crer alguns, a felicidade diária e patética estampadas nas páginas das redes sociais. Esses momentos sombrios atravessam nosso caminho muitas vezes por motivos externos e aleatórios, e outros somos nós mesmos os responsáveis por eles. Nós e nossas contradições e ambivalência, nossa inconsciência do que somos e desejamos, nós e nossa famosa tendência em nos boicotarmos.
Tempos assim são passiveis de serem superados, acredito nisso, mas não sem dor. Atravessar tempos assim significa atravessar a solidão, o medo, o desamparo. É vencer o cansaço e a desesperança na certeza de que somos capazes. Lutar é a condição primeira da superação.
Tempos assim, de caos e desorientação podem consumir você. No meio dessa escuridão muita gente se perde, cegos de medo, cegos de raiva, cegos de orgulho não conseguem atravessar a escuridão. Vendem a alma ao diabo, alucinam e deixam o caráter escorrer pelas sombra.
Os tempos difíceis e a escuridão esclarecem nossas dúvidas e os cantos escuros do nosso caminhar. Apaga o que é falso e não tem força, ilumina tudo o que for verdadeiro e traz consigo a surpresa de gente que não tem nada a ver com isso, mas se importa - gente assim eu chamo de anjo. Os anjos também são encontrados nas trevas. São eles que nos estendem a mão.
Acredito que quem tem força, sentido, motivo, fé e amor é capaz de passar por tudo isso e sair inteiro, melhor e mais forte.
As armas são sempre invisíveis percebe? Força, amor, fé. Não se pode tocá-los, apenas sentir e é com aquilo que não podemos ver que vencemos as maiores batalhas
Situações difíceis nos fazem descobrir forças naquilo que é invisível, e no fim, descobrimos, o invisível é o que realmente importa.


Andréa Beheregaray.

Sobre o medo da perda.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Individuação Feminina.



'Para ser completa, para experimentar a totalidade da sua sexualidade, competência, crescimento intelectual e perícia profissional, que constituem a natureza humana própria, ela corre o risco de ser punida e marginalizada (...) A jovem mulher que completa a busca é, por definição, uma pária da sociedade e sua busca social é por definição associal.'

Annis Pratt
Analista Junguiana.