Casal sem futuro.







O relacionamento dos dois nasceu condenado, fadado ao fracasso. Impedimentos, distâncias, impossibilidades internas, externas. Tinha dias que tudo isso parecia tanto, já em outros esse tanto não parecia fazer sentido algum. O fato é que não era possível criar expectativas ou ter esperança – Como se vive sem isso?! - Pensavam sem querer pensar muito no assunto. As coisas entre eles eram assim, estavam impedidas de crescer, apesar de crescerem. ‘Relacionamento sem futuro’ ficou decretado, não sem lutas ou discordâncias, mas desejo não é coisa de se querer por dois. E tudo isso que parecia ser seco, real e áspero e que afinal era, não impedia que estivessem próximos ou pensassem um no outro. Ausência presente, ausência permanente, solidão de dormir abraçada. Condenados que estavam, eram livres pra falar o que sentiam e assim não sentir demais. Não havia o medo da perda, já estavam perdidos, condenados a clareza de terem encontrado algo importante e ainda assim ser preciso partir.

Sabiam que dariam certo se não fosse tudo o que era. Sabiam que se tudo o que era não fosse de fato, seriam muito felizes juntos. Duas horas deles equivaliam a um mês inteiro de outro casal qualquer. Quanto tempo demorou para perceberem que fariam uma ótima dupla? Não só por fora, mas por dentro também? Daqueles casais que crescem juntos, se incentivam, trocam e admiram um ao outro? Daqueles casais que instigam a mente um do outro a ser mais? Um colorindo a criatividade e convocando a ir além? Um sendo o amor do outro para dar sentido a todo resto que sem amor não vale nada? Desconfio que demoraram muito pouco para perceberem. Entre eles a coisa tudo fluía sem jogos ou entraves, o riso era fácil, o beijo era bom, a cama uma delícia, daquelas onde o desejo amanhece aceso e a memória gosta de relembrar os detalhes. A conversa daquele casal que não seriam dois juntos apenas separados, era rica e não terminava nunca, pedra de toque, ponto de ligação.

Dobravam o dia e as horas pendurados ao telefone, à moda antiga, trocando impressões, contando novidades, amenidades, planos, projetos, temores, de antigos amores talvez presentes ainda, de vez em quando até cantavam, faziam poesia, escovavam os dentes entre uma frase e outra, discutiam a relação que não tinham, ou que tinham, mas não podiam ter. Acumulavam horas e horas de alegria compartilhada e confidências trocadas. Justo ela que não gostava de falar ao telefone. Justo ele sempre tão pé no chão. Houve uma vez em que ele dirigiu três horas pendurado na linha contando a ela sobre tudo o que tinha feito, o mundo que tinha visto, a saudade que sentia das coisas que planejava viver. Na outra ela arrumou a casa, lavou o pátio inteiro, colocou tudo em ordem enquanto segurava a mangueira numa mão e o telefone na outra só para não interromper a conversa, as horas escorriam e ela pensava que era bom ter encontrado alguém como ele, alguém que parecia se importar de verdade, que tinha os olhos claros, cheios de segurança, solidez e amor.

Esse casal que se sabia sem futuro algum, que não podia crescer ou ter esperança, tecia uma história feita de admiração, respeito, e afeto. Esses dois cheios de planos irrealizáveis, de amor desperdiçado e sonhos pela metade eram o casal fracassado mais bonito que ela conhecia. Mas ela sabia e ele também, que de alguma forma, essa dupla sem possibilidades já havia dado certo. Do casal sem futuro, esse foi o presente, a certeza de que terem se conhecido foi sorte, loteria e isso já fazia tudo valer a pena.

Andréa Beheregaray.

Comentários

  1. Vivo uma história assim!... a diferença está no meio de comunicação... é por e-mail e chat... não nos falamos por telefone... (estranho, né?)
    Obrigada pelas palavras... pelo texto... traduziu minha história!

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  2. Belíssimo texto Andréa! Leio, releio, e sempre acho um novo ponto que me toca! Complexo de Walt Disney com Gabito e Marcelo, não me canso de assistir... e concordo "demais" contigo!
    Tu és uma querida pra mim, e fico imensamente feliz em ter sido a Sabrina da canção sem som "Aprendendo a ser Fênix". Um beijão querida!

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