sexta-feira, 20 de junho de 2014

Canalha X Mulherengo.





Dizem por ai que mulher gosta de canalha, tirando as sadomasoquistas, mulher não gosta de canalha não, mulher gosta de homem que gosta de mulher (ou de mulher que gosta de mulher, dependendo do tempo, da dose e da temperatura) e existe um tipo em especial que é frequentemente confundido com o canalha, e que deve ter dado origem a essa falsa ideia, o famoso mulherengo. 

Mulherengo: homem que gosta muitoooo de mulher. Outra coisa é homem que gosta de sexo, mas nem tanto de mulher; outra coisa ainda, homem que não gosta muito nem de uma coisa nem de outra também existe e tem o canalha. O canalha pode ser qualquer um das alternativas anteriores, menos ser um canalha-mulherengo. Porque? Por uma diferença básica, mas fundamental, chamada honestidade.

O mulherengo geralmente é solteiro, por que afinal gosta muito de mulher e vai querer estar/sair com o maior número possível delas, não por canalhice, compulsão ou perversão, mas simplesmente porque ele gosta de mulher, assim como gostamos  de sushi, café, churrasco, chocolate, homem, etc, é visceral, natural e ponto final. O mulherengo costuma ser fascinado pelo universo feminino, suas artimanhas e complexidades, nuances e multiplicidade. Já o canalha não se interessa por nada disso, se bobear nem gosta muito de mulher, elas estão ali apenas para satisfazer suas faltas e feridas psíquicas.

Diferente do canalha, o mulherengo faz questão de deixar claro desde o início sua condição de solteiro convicto. Não porque quer magoar, enrolar ou usar você, é sincero exatamente pelo motivo contrário, ele sabe quem ele é, como ele é e o quanto gosta de estar com mulheres, por isso o que ele quer é não te magoar. Até que se apaixone de verdade ele não tem planos de abrir mão da sua liberdade, quem quiser ficar que fique. Já o canalha, provavelmente não quer se envolver também, mas certamente quer que você se envolva. Esse é o truque, vai te chamar de linda, fazer você se sentir especial, insinuar que o relacionamento tem muitas chances de dar certo pra depois pular fora assim que você estiver na dele ou surgir uma conquista mais interessante. 

No quesito sedução, em função do fascínio que tem pelo feminino, o mulherengo é um sedutor nato, não de todas e qualquer mulher, mas daquelas que ele considera interessantes, pelos quais se sentiu atraído. Já o canalha aprende truques básicos de sedução (que ao olho experiente soam clichês e patéticos) e aplica seus truques com todas, não importa quem, o que importa é ele provar pra si mesmo o quanto é bom nisso. Ele é aquele tipo na festa que chamo de homem farol, gira a cabeça num ângulo de 360 graus freneticamente sorrindo e tentando contado visual com qualquer uma que se ofereça. Já o mulherengo, claro, tem foco.   

Sexualmente tem outro ponto fundamental. O mulherengo se interessa pela mulher inteira, já que seu desejo e seu prazer tem a ver com o universo feminino que fascina. Tem tesão pelo corpo, pela história, por aquela mulher em particular, seu universo, sua mística. O canalha nem sabe o que é isso, e se sabe é só de ouvir falar. Na cama tudo isso se reflete de forma explícita, o mulherengo se entrega a experiência como um chocólatra em fábrica de chocolates, se delicia e a mulher percebe na hora o quanto ele gosta daquilo tudo. Já o canalha é pura performance, segue um roteiro para impressionar o eleitorado e depois ficar se gabando que é 'O' cara. Se disseram pra ele que mulher gosta de preliminares ele se dedicará 2 horas à tarefa, não porque gosta, ou porque você gosta, mas apenas para ficar achando que é o cara na cama, que tem desempenho nota dez. Disseram pra ele que mulher gosta de pirueta? Lá estará ele dando dez piruetas para depois contar aos amigos que deu 20, pura performance. Fake, fraco, cena. Um homem nu que visto de perto não passa de um menininho tentando se convencer o tempo todo que é um grande homem. 

O canalha não convence, já o mulherengo pode ser um homem fascinante se você topar correr o risco de se envolver. O envolvimento com o mulherengo, apesar da honestidade de intenções, pode sim ser muito intenso e avançar, já com o canalha no envolvimento a água não passa das canelas, porque ele não está interessado em você, está interessado em contar pontos, vantagem, história para os amigos, sempre se vangloriando muito, claro. O canalha sente prazer quando uma mulher corre atrás dele, sofre por ele , já o mulherengo fica constrangido, chateado, não se sente mais homem por isso, ao contrário do canalha que só se sente homem com isso. 

O que o canalha quer ? Afirmar sua frágil autoestima, escondendo seu ressentimento secreto pelas mulheres, bebezinho mal amamentado, trauma de menininho birrento que no fundo sabe perfeitamente que é uma farsa, livrinho chinfrim que só seduz nas primeiras 3 páginas e não tem condições de manter a mulher interessada no restante da leitura.   

O mulherengo não é canalha, é apenas um homem solteiro, que gosta de mulher e liberdade e que não quer magoar você. Já o canalha, em função dessa autoestima do tamanho de um milho (vai saber o que a mãe desse garoto fez com ele), faz questão de contabilizar o maior números, pontos, desempenho, conquistas e mentiras possíveis para no fim ter o prazer de magoar você, porque gente assim só se sente grande quando diminui os outros.            

Enfim, tudo isso só pra dizer que nós mulheres não gostamos de canalhas, porque não gostamos de crianças. Gostamos sim de homens que gostam de mulheres e que porque gostam, respeitam. De homens que não precisam mentir, nem denegrir ninguém para se sentirem homens. Gostamos de homens que tem a coragem de dizer o que pensam e o que desejam das relações nos dando a oportunidade e o direito de escolher se queremos permanecer na história. E tenho certeza que os homens também gostam disso, de verdade, coragem e autenticidade nos relacionamentos.  E os canalhas pegadores? Sinceramente? Não passam de uma mistura patética de Peter Pans com machões, patéticos por excelência. 


Andréa Beheregaray.      

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Casal sem futuro.







O relacionamento dos dois nasceu condenado, fadado ao fracasso. Impedimentos, distâncias, impossibilidades internas, externas. Tinha dias que tudo isso parecia tanto, já em outros esse tanto não parecia fazer sentido algum. O fato é que não era possível criar expectativas ou ter esperança – Como se vive sem isso?! - Pensavam sem querer pensar muito no assunto. As coisas entre eles eram assim, estavam impedidas de crescer, apesar de crescerem. ‘Relacionamento sem futuro’ ficou decretado, não sem lutas ou discordâncias, mas desejo não é coisa de se querer por dois. E tudo isso que parecia ser seco, real e áspero e que afinal era, não impedia que estivessem próximos ou pensassem um no outro. Ausência presente, ausência permanente, solidão de dormir abraçada. Condenados que estavam, eram livres pra falar o que sentiam e assim não sentir demais. Não havia o medo da perda, já estavam perdidos, condenados a clareza de terem encontrado algo importante e ainda assim ser preciso partir.

Sabiam que dariam certo se não fosse tudo o que era. Sabiam que se tudo o que era não fosse de fato, seriam muito felizes juntos. Duas horas deles equivaliam a um mês inteiro de outro casal qualquer. Quanto tempo demorou para perceberem que fariam uma ótima dupla? Não só por fora, mas por dentro também? Daqueles casais que crescem juntos, se incentivam, trocam e admiram um ao outro? Daqueles casais que instigam a mente um do outro a ser mais? Um colorindo a criatividade e convocando a ir além? Um sendo o amor do outro para dar sentido a todo resto que sem amor não vale nada? Desconfio que demoraram muito pouco para perceberem. Entre eles a coisa tudo fluía sem jogos ou entraves, o riso era fácil, o beijo era bom, a cama uma delícia, daquelas onde o desejo amanhece aceso e a memória gosta de relembrar os detalhes. A conversa daquele casal que não seriam dois juntos apenas separados, era rica e não terminava nunca, pedra de toque, ponto de ligação.

Dobravam o dia e as horas pendurados ao telefone, à moda antiga, trocando impressões, contando novidades, amenidades, planos, projetos, temores, de antigos amores talvez presentes ainda, de vez em quando até cantavam, faziam poesia, escovavam os dentes entre uma frase e outra, discutiam a relação que não tinham, ou que tinham, mas não podiam ter. Acumulavam horas e horas de alegria compartilhada e confidências trocadas. Justo ela que não gostava de falar ao telefone. Justo ele sempre tão pé no chão. Houve uma vez em que ele dirigiu três horas pendurado na linha contando a ela sobre tudo o que tinha feito, o mundo que tinha visto, a saudade que sentia das coisas que planejava viver. Na outra ela arrumou a casa, lavou o pátio inteiro, colocou tudo em ordem enquanto segurava a mangueira numa mão e o telefone na outra só para não interromper a conversa, as horas escorriam e ela pensava que era bom ter encontrado alguém como ele, alguém que parecia se importar de verdade, que tinha os olhos claros, cheios de segurança, solidez e amor.

Esse casal que se sabia sem futuro algum, que não podia crescer ou ter esperança, tecia uma história feita de admiração, respeito, e afeto. Esses dois cheios de planos irrealizáveis, de amor desperdiçado e sonhos pela metade eram o casal fracassado mais bonito que ela conhecia. Mas ela sabia e ele também, que de alguma forma, essa dupla sem possibilidades já havia dado certo. Do casal sem futuro, esse foi o presente, a certeza de que terem se conhecido foi sorte, loteria e isso já fazia tudo valer a pena.

Andréa Beheregaray.