Quando casar sara.

 
 
 
 
Eu fui uma menina muito bagunceira, tinhosa mesmo, aprontava muito, me divertia muito também. Da minha infância trago as marcas nos joelhos, memórias de muitas aventuras, amizades que me acompanham, algumas vítimas de mordidas, escaladas em janelas, fugas de vizinhos e muita alegria. Me diverti muito na infância, é de lá que vem esse gosto pela liberdade e essa capacidade de não me preocupar muito com o que os outros vão pensar. Porque já naquela época, por aprontar tanto eu já era assunto da vizinhança. Resumindo, eu fui uma criança arteira, arteira e feliz. E o que é uma criança arteira se não uma pequena especialista na arte de ser feliz? Foi o que aprendi de melhor nos meus primeiros anos de vida.
 
Minha mãe teve trabalho, verdade, mas eu também sofri na pele as consequências das minhas estripulias, trago no corpo as marcas das minhas aventuras. Especialmente nos joelhos carregos as cicatrizes como prova de que fui feliz, mas não sem dor.
 
Hoje eu sei, depois de tanto tempo, que não há felicidade sem dor, aventura sem risco, sorriso sem lágrimas, mas naquela época eu não sabia. Quando eu me machucava e ia chorar para minha mãe ela me atendia e às vezes colocava Metiolate - aquela coisa horrorosa, pânico de qualquer criança. Parênteses,  quem inventou o Metiolate deve ter sido algum farmacêutico ressentido por ter sido proibido de brincar na infância. Com o Metiolate aprendi que tem dores que é melhor calar, porque dependendo para quem falamos, vai doer dobrado. E no final de tudo isso minha mãe dizia uma frase que me intrigava: quando casar sara.
 
Do alto da minha pequenez eu ficava espantadíssima com mil perguntas rodando na minha cabecinha - E se eu não casar? Vai parar de doer só quando eu casar? E se demorar pra casar vou ficar doendo um tempão? Porque o casamento cura dores? Não pode ser noivado, namoro, namorico? E se o Chiquinho não me quiser? E se eu não quiser o Chiquinho? E se eu levasse a sério meu plano de virar freira, como ficaria minha dor? Teria que doer até o fim, até meu último dia?    
 
Eu não entendia aquilo, mas ela repetia tão convicta e serena que mal percebia minha perplexidade e indignação com o que eu considerava uma tremenda injustiça, ter que esperar tanto tempo para conseguir me livrar da minha dor! 
 
Carreguei comigo essa frase, das dores que levam tempo para curar. É dessa ideia que tiro meus ensinamentos. É verdade que quase tudo passa, mas nem tudo passa rápido como gostaríamos. Tem dores que vão doer pra sempre, como a perda de um filho por exemplo; já outras são dores agudas e inflamadas, doem intensamente mas um dia sem percebermos passa, como a perda de um amor; outras ainda doem quase nada, são aquelas que a gente chora de susto e depois sorri aliviada quando percebe que foi melhor assim. Há dores que curam sozinhas, já outras precisam do cuidado de alguém. Na vida tem coisas que vão doer sempre que lembramos delas e outras que só vão parar de doer quando finalmente tivermos a coragem de encara-las e as tirarmos definitivamente do fundo do baú de nossas memórias. Tem dor que exige tempo, muito tempo,  o luto, a lágrima, o grito para curar, algumas no entanto requerem silêncio. 
 
Pra mim é isso que a frase conta através da imagem da "cura pelo casamento", - não esse casamento formal, dado, estipulado, estrangulado, mas esse novo casamento que vemos despontar por ai, o casamento por amor, negociado, criativo, como projeto em comum, de livre desejo. Esse casamento que representa o AMOR,  que cura e fortalece, que abastece, que é encontro, pouso, alívio e acolhida, que é escolha, escolta, suporte. Porque é através do amor, e apenas através dele, que nossas dores podem ser amenizadas, curadas, elaboradas, apaziguadas. Porque o amor é balsamo, sentido. É só o amor que faz a vida, a luta as dores valerem a pena. Porque na vida a dor é inevitável, mas aquele que vive sem amor, sofre dobrado. 
 
 
 

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