Quarto de hotel.





Não conseguia dimensionar aquela experiência. Só sabia, que não sabia dizer. Depois do beijo, depois de tudo, atônita, Sofia se recolheu. Naquela noite não conseguiu pronunciar uma única frase a respeito. Seu cérebro não respondia, o corpo estava inerte. Era assim que costumava reagir as grandes experiências, que ela só sabia serem grandes, por intuição. E também por já conhecer a si mesma, um pouco, ao menos, e por isso sabia que quando corpo,alma e coração ficavam em silêncio era por que algo importante estava acontecendo. Sofia, sempre tão esperta, sempre como uma resposta para tudo, como sua mãe dizia, poucas vezes emudecia. E quando isso acontecia, Sofia, por intuição, sabia que aquilo que calava estava repercutindo dentro dela, percorrendo imensidão. E só depois, como uma pequena pedra lançada n`agua, pequenas ondas formadas, suave e larga expansão, ela então, como a pedra acomodada no fundo, saberia.



Naquela noite, no hotel, ela logo dormiu. Incapaz de pensar sobre. Se sabia em processo de digestão. No meio da madrugada perdeu o sono, na cama acompanhando o contorno dos desenhos daquele papel de parede, Sofia era incapaz de formular uma frase se quer, sobre o acontecido. Perder o sono era um sinal de alerta. Sabia. Levantou e foi até o banheiro. Fazia tudo de forma automática. Era assim que reagia sua alma em choque. Olhou no espelho sua cara de soo e susto, cabelos emaranhados, blusa amassada. Não viu no reflexo nenhum vestígios das grandes transformações que se operavam em seu interior. Nenhum sinal escapando pelo seu olhar. Pensou, diante do espelho, que ela, sempre tão cheia de respostas, não sabia naquele instante, nem mesmo quais eram as perguntas. Até aquele momento, previra, agora sabia que estava de mãos vazias. Caminhando às cegas, sem direção.



Lembrou do beijo e de seu sorriso. Sorriu. Não gostava de ir assim, na direção do desconhecido. Desconhecido e grandioso, lembrava-lhe abismo. Como caminhar próxima a um abismo, na escuridão. Mas Sofia não tinha mais escolha. O processo havia se inciado, já não era possível recuar.



Sofia, que sempre tinha respostas para tudo, ficou sem ter o que dizer, sem saber o que pensar.Perdeu o sono, perdeu a língua e o rumo também. Adormeceu aos poucos, no silêncio cinza do quarto. A chuva embalando seus sonhos, seus medos. Sofia voltou a dormir. 




Romã.
A história de uma mulher que não sabia amar.

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