Amor, sexo luxúria e outros venenos.





 
Ando livre, leve e solta, mas bem inteirinha por dentro e hoje na mesma energia daquela agitação que de vez em quando aparece. Insana, debochada, libertina. 

Já desisti de entender de onde vem essa compreensão, essa capacidade de ver tão dentro de você. Só consigo pensar que te quero. O desejo me guia na tua direção enquanto teus olhos de predador sorriem manso na certeza do abate.

Aquela tarde, nu em pé no marco da porta, você me perguntou se eu havia sentido teu cheiro a distância. Sorri fazendo graça, intuição é coisa de fêmea no cio. Há quanto tempo não nos falávamos? Um, dois anos? Um ano e meio você respondeu. Pois é, um ano e meio de silêncio e esquecimento. Distrações, eu e você, não sentimos um a falta do outro, mas ter ficado assim, tanto tempo distante rendeu um reencontro da melhor qualidade. Desejo puro escorrendo em favos.

Possessão. Fantasias intercaladas de posse e submissão. Truques do desejo. Quero te dedicar palavras mais doces e poder acariciar os teus cabelos, mas não o farei. Tu visão distorcida me impede. Fiz isso, você nota, mas não diz. Eu sei que fiz. Fomos pegos de surpresa pelo encontro súbito e pelo desejo ávido, não tive tempo de colocar a armadura, recostado no meu corpo, pouso, pode sentir a pele macia e frágil que sempre te escondi. A pequena agitação que atravessou o quarto denunciou os riscos. Recuas e me invades outras vez com teus olhos confusos e astuciosos. Quantas vezes dancei no reflexo deste olhar? Você me olha fixamente e repete que estou linda. Não diz isso para mim, diz isso de um lugar tão profundo em ti que percebo, um pensamento que escapa em voz alta.

Era arrebatador, e sabia disso. Tinha nascido equipado com todos os instrumentos para moer corações de mocinhas ingênuas e sonhadoras. Andava no limite com seus olhos de solidão. Fio de navalha embaixo dos meus pés descalços. Gostávamos do jogo, o jogo de não fazer jogo, puro gozo. Jogadores experientes do prazer parcial, deliciosas jogatinas no ir e vir do desejo. Estrategistas natos, não tivemos outra saída a não ser o jogo aberto. Vaidoso demais para te fazer de tolo, inteligente demais para te desmentir. Mantínhamos a corda esticada sobre o abismo do prazer puro. O amor era um luxo que não nos permitiríamos. Jogar foi o jeito que encontramos de nos distrair da ensurdecedora clareza do que somos nós. Te digo convicta fazendo ecoar a frase da poeta “Não temos mais a tranquilidade da ignorância”, tivemos um dia?

Você não vale nada. Eu estou valendo um pouco mais. Em mim restam partes, partes maiores que tuas partes deterioradas. São elas que te fazem partir e não o medo, como supõe tuas tolas amantes. Não é medo, é incapacidade.

Estou perdendo o jeito, perdendo a forma, ando muito transparente. Quem ensina a disfarçar uma louca vontade? Onde se aprende?

Você me mostra a verdade sobre você pra me proteger. Você me mostra a verdade sobre você para não me perder. Teu gesto de amor. Quando me esqueço e a falta de memória desagua em entrega, você atento injeta mais uma dose do seu veneno para que eu desperte e você possa permanecer um pouco mais. Enquanto não partimos, devoramos um ao outro um pouco mais.





Do livro
Diários de uma sedutora
ou
Amor, sexo e luxúria e outros venenos.

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