Carta de adeus para um idota.



Querido R.
(apelido amoroso - Cabeça de Ovo).




Olha, quando você realmente se foi, quando a coisa acabou e vi nosso amor desacontecer, eu quase sofri. E digo quase porque sempre soube que nossa história estava fadada ao fracasso. Não porque isso era óbvio para todos que tinham olhos de ver e ouvidos de ouvir, não só por isso, ou pela infinita diferença que nos separa tão clara, tão grande. Eu digo quase sofri porque o tempo todo ao seu lado eu morria um pouco, e ressurgia outra do lado de cá. Mas eu falo no quase, não por ter sido um quase amor, porque não foi, foi amor dos bons, quente e lindo como eu esperava, eu digo quase sofri porque sabia que não era pra ser um tanto mais, porque um tanto mais me aguardava. 

Você entende? Alguma coisa aqui dentro sabia que não era possível, porque logo depois viria algo melhor, algo maior, algo mais doce, mais fundo, mais intenso, mais verdadeiro. Algo de inconfessável, algo de inacreditável. Então eu quase sofri você entende? De forma egoísta te considerei uma espécie de preparação, uma espécie de adubo pra ver algo belo crescer, que não era você. Não, não estou te chamando de merda, mas também poderia, então te chamo de base, a primeira demão dessa parede bacana que tenho pintado.

Mas você foi absolutamente necessário, entende? Eu sei que pareço egoísta, mas não sou. Ou sou se você quiser, porque agora, realmente já não importa. Porque sabe, em nenhum momento eu acreditei nas suas mentiras. Mentira, em algumas eu acreditei, mas por momentos tão breves, bom, você sabe, você mente mal, mas você mente tanto que cria, praticamente uma realidade paralela e causa aquela estranha impressão de que alguém é louco na história. Tem tom de esquizofrenia, de fantasia, de alegoria. Mas no fim das contas a coisa mesma não passa de sacanagem. Daquelas boas e velhas. E eu? Sim eu sempre soube, mas foi uma situação absolutamente necessária para mim. Assim, simples e rasa, mas essencial e reveladora.


Não, porque nem todas as situações transformadoras são resultado de revelações luminosas e profundas, às vezes um pilantra e um belo pé na bunda podem fazer milagres para uma mulher inteligente. E você teve essa função. O tempo todo eu sabia que nada daquilo seria e que depois de você algo muito bom aconteceria.


Essa mania que inventei de confiar no que não vejo, mas sinto que o vento traz. E eu sabia que entre nós dois a coisa sempre foi uma espécie de preparação. E hoje eu só posso agradecer, não sei bem a quem, ao que, enfim, mas o que veio depois de você é tão, tão...? 


Difícil dizer, daquele tipo de coisa que não encontramos palavra exata. Alguma coisa entre o mistério e o sublime, entre o muito e o simples entre tantas coisas que você não entenderia. Foi por isso que quase sofri, porque desde sempre percebi que, fundamentalmente, o que nos separava e sempre foi abismo entre nós é uma questão de força e coragem. A mediocridade sempre fez com que você nunca partisse, mas também nunca viesse. Sua casa foi construída sobre um muro. Mas agora preciso te dizer adeus e te agradecer por ter sido tão miserável, só assim estou tendo hoje o que tenho. Você me preparou para esse novo amor. Mágico.


Obrigada.


Adeus 
Sofia
(apelido amoroso, Josephine.)


Da série 
Cabeça de Ovo
Andréa Beheregaray

Comentários

  1. Quando dor de amor não parece rancor, mas consciência. Beijos, querida!

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  2. Basta mudar o nome do remetente q com certeza poderíamos mandar pra muita gente!

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  3. A base eu já tive, tá me faltando o novo amor agora que ele me preparou. ESTOU PRONTISSÍMA! hahahahahha

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  4. Deveria ser vendida em Livraria, como aqueles "formulários" impressos que vendiam na saudosa Livraria do Globo, onde colocávamos os nomes, dobrávamos num envelope selado e já despachávamos no correio, ali no mesmo prédio...
    Posso imprimir a minha e mandar? :P
    Ótima! Parabéns, Andrea! Bju

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    Respostas
    1. Fique à vontade querida, cartas foram feitas para serem enviadas, idiotas despachados, Rsrsrrss.
      É verdade, Livraria do Globo...
      Tinha uma enorme perto da minha casa, próximo a um antigo cinema de bairro.
      Um beijo!

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  5. "[...] Eu sei que pareço egoísta, mas não sou. Ou sou se você quiser, porque agora, realmente já não importa."
    Como almejamos desesperadamente pelo dia que conseguiremos enfim dizer: " Já não importa...( tua opinião ),Já não importa ( como andas vivendo ), Já não importa ( se lembras de mim e de nós ), Já não importa ( se estás só ou com novo amor ), já não importa ( pois tua existência já não tem mais o poder de me ferir, pois simplesmente não tens mais meu coração).
    Todos os dias quando abro meus olhos digo á mim mesma em pensamento de oração: " Que seja hoje o dia que conseguirei dizer: "JÁ NÃO ME IMPORTA".

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  6. Adorei essa parte:

    "Não, não estou te chamando de merda, mas também poderia, então te chamo de base, a primeira de mão dessa parede bacana que tenho pintado."

    Essa foi forte!!!!

    Muito bom!

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  7. "De forma egoísta te considerei uma espécie de preparação, uma espécie de adubo pra ver algo belo crescer, que não era você. Não, não estou te chamando de merda, mas também poderia, então te chamo de base, a primeira demão dessa parede bacana que tenho pintado."

    hahahahaha, até o "R" você acertou.
    Texto magnífico! Obrigada por escrever minha vida, Andréa.

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