Conversas com Caio F e a Placa da casa dele ficou pronta!!!

Esquizofrenia poética

Eu posso ficar horas dialogando com o Caio F, entre páginas inteiras e frases soltas, ele sempre tem a coisa certa para me dizer. 

As vezes rebato, outras me calo, mas ele quase sempre acerta. Ôh cara sabia das coisas. E continua sabendo, lá do lugar em que está, entre as estrelas maiores. O Caio foi, é e sempre será uma dessas pessoas raras, que já nascem sábias e por isso aparentam ter um ar pesado desde a infância. Por que saber demais pesa e o corpo infantil não sustenta. Escreveu um dia "Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível: pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas — as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá."Em algumas das nossas conversas ele me dá a impressão de não saber que sabe tanto. Mas é que além de enorme sabedoria o Caio nasceu transbordando de sensibilidade e por causa disso primeiro quase afogava, depois volta à tona e tirando da quase morte uma lição especial. 


Ele não gosta muito que eu diga isso, lição especial parece coisa de se aprender nos bancos da escola, o Caio não, ele aprendia a lição, esquecia, ignorava, retomava, ia em frente, cada dia ele se reinventava, ou então só dormia e escrevia e fumava e ficava aliviado quando conseguia passar algum tempo sem pensar ou sentir. Haviam outros períodos também, de pura melancolia, e em dias assim a palavra era seu único bote salva-vidas. 

Ele era lindo, mas, às vezes, não gosta muito de mim, acha que sou loira demais, arrumadinha demais, pé no chão demais. Eu tento argumentar e ele não quer nem saber, acha que devo pintar os cabelos, soltar as amarras e cair no mundo, diz que fui feita para isso. Ignora minha natureza contraditória de mãe aventureira. Responde irônico : _ e isso lá é possível??

Outro dia me disse que se eu continuar assim só vou escrever merda. Brigamos. Voltou no outro dia, pediu desculpas em um tom de voz quase imperceptível, pediu café. Seu jeito de fazer as pazes. Pousou a xícara no braço da poltrona verde, com o olhar perdido me disse que no fundo entendia meu jeito de tentar ficar numa boa com o mundo meu mundo:

_ "Nada é muito terrível. Só viver, não é? A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa." C.F

Mas bom mesmo é falar de amor com o Caio. Mostro pra ele, só pra ele, coisa que nem terapeuta viu. Todas as minhas dúvidas, meus medos, minhas inseguranças, todas as minhas feridas, minha solidão e meu desespero. Ele olha sem nojo ou medo, ele olha e com as palavras vai dando forma ao que não sei dizer. E ninguém tem a palavra mais certa.

_“Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser o nosso segredo (…) Uma cicatriz significa: Eu sobrevivi. ”

Essa manhã ele passou a mão nos meus cabelos e me puxou pra perto dele. Lhe contei as novidades, que precisava ouví-lo, que ele não se afastasse de mim agora pois eu tinha medo de acordar esperanças adormecidas. Então ele me olhou sorrindo. Não um sorriso largo, aberto e feliz, mas um sorriso suave e profundo de quem entende dessas coisas. Eu disse:  

_ Aquilo que você diz...acho tão lindo. É a definição de força e amor mais bonita que já li. Toda vez que leio eu choro. Vou chorar agora outra vez. Já estou chorando antes mesmo de te dizer " Eu enfrentaria o mundo com uma mão, se você segurasse a outra." C.F  

- A placa ficou pronta! Interrompo a melancolia com um grito.

Sei que no fundo não precisamos de uma placa para lembrar da importância de alguém, mas que esse era meu jeito simples e concreto de agradecer a presença dele na minha vida, no meu bairro, na minha cidade, na minha alma. Minha forma de dizer obrigada por ele ter tido a coragem de estar nessa vida de jeito lindo, louco, intenso, inteiro, aos pedaços...de ter feito da sua dor, poesia. Por que ele me ensina tanto, inclusive que podemos amar uma pessoa que nunca vimos, que foi de um outro tempo. 

Digo pra ele que ele não partiu, que ele permanece pois só o amor é capaz de vencer a morte, por que o amor perpetua as pessoas que partiram dentro do coração e o que vive no coração não morre jamais.

Ele sorri, diz que estou começando a entender as coisas da vida.  

_ Mocinha... "Então e assim, somos presente, passado e futuro. Tempo infinito num só, esse é o eterno." C.F

Caio Fernando Abreu

E eu amo você e esse é meu jeito de dizer obrigada.



Comentários

  1. Bacana!
    Parabéns pela homenagem
    Que estimule e venham outras tão bacanas como de Caio

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