Amores imperfeitos.



Acordei invocada hoje...Conversava com minha mana sobre relações humanas, relações ideiais, possíveis e tal. No amor, na amizade, nas relações familiares, idealizamos todas elas. 

Tenho poucas certezas, mudo de opinião tranquilamente e tudo o que escrevo aqui é uma hipótese. No mundo tudo é hipótese, apenas a nossa forma de ver as coisas e mais nada. Eu não tentarei te convencer de que estou certa, por que certezas não existem, e você também não tente fazer isso, mas estou aberta a trocar ideias e se a sua for boa, ótimo, reformulo a minha. A diferença trocada nos leva um pouco mais além no nosso processo reflexivo, por isso penso, só os idiotas não mudam de opinião, por que quem não muda de opinião não pensa e quem não pensa é um imbecil.

Mas voltando a única certeza que tenho é que relacionamentos perfeitos não existem. Desejar se relacionar com alguém que não tenha falhas, faltas, que nunca te decepcione é desejar a não-relação por que esta pessoa não existe e se ela não existe você vai passar o resto da vida procurando, nunca vai ficar satisfeito com ninguém, ninguém ira servir, ou pior, só servirá enquanto suprir suas demandas e necessidades. 

Veja, o sonho de demandas e necessidades supridas o tempo inteiro é coisa de mãe e bebê - fale com meu amigo Freud, ele te explica. Houve uma época em que se a pessoa me decepcionasse a relação era abalada e eu entrava naquele papo de adolescente de " quebrou não conserta mais". Papo furado. Se não foi algo grave e essencial isso é papo furado. Por que quem pensa assim deve achar que nunca falha, que é perfeito, que atende a todas as necessidades do outro e isso é de um narcisismo mortal.

Sim Narciso, aquele cara que viu seu reflexo no espelho e se apaixonou por ele mesmo e de tanto se achar perfeito tentou agarrar sua imagem refletida, caiu o lago e morreu afogado. Essa é a cilada do narciso a solidão e a morte. Ele anseia se relacionar mas busca uma perfeição impossível e quem não se relaciona morre, só.

Freud trabalhou muito sobre o mito de Narciso. Esse movimento dos primeiros estágios do desenvolvimento infantil que muita gente não supera. Acreditar-se perfeito e exigir perfeição é uma algema mortal. Quem não aceita ser contrariado, contestado, decepcionado, frustrado quer no fundo ser atendido e ser satisfeito o tempo todo. E o mais grave que não aceita isso não reconhece em si mesmo sua sombra e seus defeitos (Narciso só se apaixona pelo que for espelho já disse a canção).

Precisamos estar redimidos de nosso narcisismo para nos relacionarmos. As relações mais fortes e verdadeiras sustentam as falhas e os conflitos, por que o afeto verdadeiro, aquele que ama o belo e o feio do outro, constrói uma teia invisível e resistente que não rompe quando os conflitos surgem. Já as relações idealizadas não suportam isso e arrebentam na primeira dificuldade.

Eu e Gisele, por exemplo, antes de virarmos grandes amigas tivemos um conflito sério. Mas como eu e Gisele nos reconhecemos como seres falíveis e por isso não acreditamos em gente perfeita, nos unimos muito depois disso. Ela é lindamente forte, mas sua força não exclui seus defeitos, ao contrário, seus defeitos a tornam mais forte e bela. Linda Gisele, ôh mulher difícil! 

Já minha outra grande amiga Lisia... áh como nos sabemos, de olhos fechados nos sabemos. E de tanto nos enxergarmos vemos nossos defeitos claramente. Como amar uma pessoa apesar dos defeitos que vemos? Essa é a grande questão! O verdadeiro amor é inteiro e não metade. Eu a amo por inteiro e amo tanto por que ela me ama apesar de tudo o que já viu em mim. Ela conhece minha sombra e me ama e eu me sinto profundamente acolhida e amada por ela e a amo de todo o coração e sinto falta dela como se ela fosse um pedaço de mim, e ela é.         

Uma vez eu disse, quem amar o o bom, o belo, o bacana do outro é fácil, difícil é amar a sombra com todas as suas tensões e defeitos. Amar o mais bonito qualquer idiota faz, amar a pessoa na sua luz e na sua sombra é tarefa para poucos.  

Deixemos os perfeitos para pessoas sem imaginação!






Da série
Espelho, espelho meu.


Comentários

  1. Maravilha uma verdadeira psicoterapia.

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  2. ótimo texto! "quem não muda de opinião não pensa e quem não pensa é um imbecil" o pior é que tem gente que sabe que está errada e não muda só de birra.

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  3. DIRETO DO FACE:
    Lendo o blog TPM, da incomparável Andréa Beheregaray (Ponto G e Escritos Malditos), deparei-me com a questão: relacionamentos perfeitos existem?

    A partir daí, outras perguntas inundaram minha cabeça. Um relacionamento entre pessoas, imperfeitas, pode ser perfeito? O perfeito habita este mundo sob a forma de perfeição? A dimensão ou o conceito de perfeição altera a resposta? O amor determina ou c...ondiciona o perfeito e o imperfeito de um relacionamento?

    Paro de perguntar, porém, sem qualquer pretensão de começar a responder. Intuo, apenas, que uma fenomenologia dos relacionamentos talvez afastasse a necessidade de buscarmos uma qualidade estática para o que nunca cessa de ser, de estar sendo, de dar-se como sentido, como revelação e esquecimento, aparência e encobrimento, neste eterno "ter que" no qual estamos sempre jogados, seres mergulhados que somos, não por opção, no mundo que nos munda!

    Na aplicação do verbo ser, prefiro as construções que privilegiam a idéia de contingência. Hoje sim? Amanhã talvez! Um relacionamento pode ser perfeito? Que o diga o Chico:

    O meu amor tem um jeito manso que é só seu
    E que me deixa louca quando me beija a boca
    A minha pele toda fica arrepiada
    E me beija com calma e fundo
    Até minh'alma se sentir beijada
    O meu amor tem um jeito manso que é só seu
    Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
    Com tantos segredos lindos e indecentes
    Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
    E me crava os dentes
    Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
    Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
    O meu amor tem um jeito manso que é só seu
    Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
    E quase me machuca com a barba mal feita
    E de pousar as coxas entre as minhas coxas
    Quando ele se deita
    O meu amor tem um jeito manso que é só seu
    De me fazer rodeios, de me beijar os seios
    Me beijar o ventre e me deixar em brasa
    Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
    Fosse a sua casa
    Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
    Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

    Quem tem a alma imoral, vive uma traição de cada vez e a cada uma, morrendo depois delas, renasce sempre melhor! Um beijo Andréia, JM

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  4. Olá, Andrea, acompanho seu blog faz pouco tempo mas alguns textos seus já foram motivo de conversa por aqui, e isso é mágico!Nunca me senti muito a vontade para comentários, realmente, sou uma leitora timida... mas este seu texto sobre amores imperfeitos me deixou inquieta ( o que também é bom)pois eu sempre defendi essa idéia, principalmente no que se diz respeito ao amor de amizade,amizade é como vc exemplificou sobre suas amigas, costumo dizer: amizade também é amor! E amor é foda, né?Troço complicado,manhoso,profundo, delicado, cheio de aspas e entrelinhas, mas delicioso e viciante para sentir-se vivo.A vida não tem me presenteado com muitas amizades deste tipo até por que sou também bem dificil, mas defendo os defeitos dos que amo como suas qualidades, defendo as vezes mais os defeitos por sinal e não me sinto idiota com isso e compreensiva como costumam dizer, porra não é compreensão é amor!Talvez seja somente uma maneira de dizer as pessoas, ou pedir, que elas também me amem com meus defeitos e dificil como sou,pode ser, mas concordo com vc: os perfeitos que morram na sua mesmice.Abraços.

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