Laguna - espaços que nos constituem.


Eu sou filha do sul, cresci em uma cidade chamada Província de Porto Alegre, mas meus verões são catarinos, meu sangue também. Pacheco e Wendhausen. Amo Laguna não sem minhas restrições e implicâncias, claro, por que implico com tudo o que amo, mas Laguna está em mim de um jeito bom.
Os espaços em que crescemos nos constituem. Laguna me tornou fascinada pela História, por histórias de amor, luta e coragem, por tudo o que é arrebatador e transforma. Minha biza morava no centro histórico, centro do centro, ao lado da casa da Anita Garibaldi - vale dizer que a casa que dizem ser de Anita era, na verdade, a casa do seu tio, ela apenas se arrumou ali para o seu casamento com o Manoel dos cachorros. Anita casou na igreja de Santo Antônio e fez sua festa na casa ao lado do cemitério - cemitério ao lado da igreja- casa que hoje é um centro espírita. Pois bem, a casa da minha Biza fica ao lado do centro espirita. Cresci ali, pulando corda, brincando na casa da Anita, correndo na praça, cercada de passado. Eu sempre soube que ali tinha acontecido algo importante. Isso pra mim tem uma mistica, um encantamento, uma força.  
A Anita sempre me impressionou . Tudo bem hoje largar tudo e fugir com um forasteiro que pintou na cidade, hoje em dia não é um grande escândalo, mas no tempo dela? Ela estava 500 na frente do seu tempo, modernérrima.




A República Juliana tem seus defeitos, claro, ainda hoje é provinciana e fofoqueira. Lá todo mundo sabe da vida de todo mundo, de que família se é, como, onde, quando, super preocupados com que os outros vão pensar (o que não percebem é que "os outros" são eles mesmos, prisioneiros do olhar do outro).  E por isso Anita é sensacional. Minha mãe conta que quando eu não queria comer ela dizia que aquela era a comida da Anita Garibaldi, ai eu comia. Tipo os meninos com a comida do Popeye, comer para ficar forte. Eu queria ser forte como Anita. 


Meus fantasmas vivem em Laguna, amores também, dos poucos namorados que tive, quase todos eram de lá. Fui muito feliz em Laguna. 


Encontrei recentemente o trabalho fotográfico do marido de uma prima lá de Laguna, o Marco Bocão. Achei lindo os registros que ele fez da cidade, ele não fotografou Laguna, ele fotografou a minha Laguna. Capturou com muita sensibilidade e competência essa mistica que a cidade tem, essa coisa meio mágica que paira em Laguna.  


Domingo passei a tarde com minha avó que me contou várias histórias de família e da cidade, ri com ela e comentei:

_ Vó Laguna não é provinciana é rodriguiana! 

É, rodriguiana, de Nelson Rodrigues. Aliás ele deve ter conhecido Laguna, quem compôs a canção "é por debaixo dos panos que a gente faz", também. Laguna guarda histórias fantásticas de amores impossíveis, traições, intrigas e outras temperos, mas isso é assunto para outro post.


  

Comentários

  1. Depoimento muito bacana e belíssimas fotografias.

    Beijo

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