Roubando essências - o gozo perverso.





"Sabem que há pessoas, pessoas lindíssimas, que gostaríamos que pudessem nos ver numa situação diferente, num lugar diferente, em vez de nos verem como somos, no que nos tornamos. Mas acima de tudo, gostaríamos de não ser tão covardes por desejar coisas que nunca vão mudar."


Filme Wanted.

Quando aquilo que se vê no espelho não é o que gostaríamos, é chegado o momento de mudanças. Mudar o rumo, virar o lado do disco, tocar uma nova canção. Uma metamorfose diferente e consciente que só é possível por que, em algum momento, tivemos a coragem de ter decido baixo, raso e rente no humano, demasiado humano. Por que só após o mergulho nas sombras podemos fazer uma escolha. Nem todos podem, alguns não suportam o que encontram e sucumbem, permanecem presos pelas algemas da loucura. 

Caso você negue, por ingenuidade ou defesa, a sombra vem ao seu encontro no corpo de Dionísio.  Todos os que se opuseram a ele sofreram sua vingança que sempre se manifesta pela dilaceração, morte e loucura. Dionísio exige reconhecimento e integração da psique, do contrário irá destruir toda a ordem e racionalidade. A visão de mundo como um lugar paradisíaco, ingênuo, feliz e romântico tem hora para acabar. É o processo de amadurecimento, natural. É impossível permanecer no útero para sempre sob pena de morte psíquica. 

Cada um tem seu tempo. Alguns se deparam com a sombra humana mais cedo que outros e, reconhecendo-a, integram a personalidade. Outros ainda querem crer que toda visão pessimista da vida é resultado de mentes frustradas e ressentidas, estes se irritam com todos os que ameaçam sua visão romantica. Tem gente que, no entanto, tem um lado sombrio acentuado e, diferente do romântico, não consegue ver nenhuma beleza, sua visão de mundo é profundamente corrompida e pervetida - geralmente em função de suas primeiras experiências.   

Estas pessoas, por nunca conseguirem sair desse lado escuro e perverso, ou por optarem lá ficar, tentam convencer os outros de que tudo é uma grande sacanagem e de que você é um otário, caso tente preservar alguma coisa nobre dentro de você. É o discurso perverso, o gozo também . Todo aquele com uma estrutura perversa, vai tentar convencer você de que vocês são iguais. E até certo ponto eles estão com a razão. Todos nós temos o potencial para a maldade, para o ruim, coisas terríveis vivem adormecidas na alma humana. Mas existe um outro lado, que pode ser pensando como o extremo desse. O lado bom, bonito, humano, solidário. O lado da ética e do amor. Que não se engane, não é "natural", é exercício e escolha. 
Toda potência de vida contem em si milhares de possibilidades, de lados e extremos. E nos somos artífices da nossa história. Cada um, com aquilo que pode e possui, terá que trabalhar seu material interno e moldá-lo, incessantemente.

Talvez a maior perversão humana venha do sujeito marcado, desiludido, aquele que está mergulhado na podridão do humano e, que lá, por opção, desilusão ou fraqueza, resolva tocar para o fundo todos aqueles que ainda não desceram, na sua trajetória, não fizeram a descida ao encontro do que é torpe dentro de si mesmo. E então, estes seres marcados, tentam arrancar à força, macular, machucar, impor dor e sofrimento. Reconhecem o ingênuo, ou aquele que se nega a ver a sombra humana, e então, ardilosamente, jogam com o outro. É o ressentimento secreto daquele que viu sua esperança ser tragada pelos caminhos da vida e então, vai em busca da ingenuidade perdida. Não para recuperá-la, mas para destruir a do outro. A tentativa secreta de não ficar só em um lugar escuro e frio, do qual ele não consegue sair, por que é incapaz de voltar a acreditar.

Como o personagem do filme, "O perfume", aquele ser com a marca da dor e da destruição, sai pelo mundo roubando essências de moças virgens e imaculadas. De mulheres que ainda guardam sonhos de amor em sua alma, mulheres que ainda não conheceram à face da traição. E como cada um tem seu processo, de sair da ingenuidade ao desencanto, para então optar em como caminhar entre esses dois lados que se completam e nos fazem humanos, então aquele roubado e violado antes da hora, morre. Tem sua essência roubada, sua alma. É disso que fala o filme.

E por isso, tantas vezes, vemos esses seres, com a marca da desilusão, caírem de amores e de encantos por almas ingênuas e leves. Essa também é uma forma de resgate. Quando encontram alguém que os faz acreditar outra vez, que nem tudo está perdido, que nem tudo é dor e desilusão, sacanagem, jogo e destruição. E gente assim os faz respirar outra vez. Acordam esperanças adormecidas, delicadezas roubadas, coisas belas perdidas. E o perverso pode, apesar de tudo o que sabe e tudo o que viu, retornar e acariciar suave o rosto da ternura.

No entanto não pode fazer uso da essência, por que é um ser ressentido e quer tirar do outro o que não possui, não para usar - o que é impossível já que cada perfume, o cheiro da pele é sempre único e intransferível, como a alma- por não poder "usar" o perverso quer destruir.

O perverso coleciona histórias de destruição por que ele só conhece essa possibilidade. É um ser devastado internamente e seu processo nada tem a ver com a do sujeito que integra sua sombra na personalidade consciente.

Conhecer para integrar faz o homem. Conhecer para destruir, faz o perverso.         

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