Reportagem Zero Hora

12 de agosto de 2010 N°

Memória: vende-se ou aluga-se

As crônicas que Caio Fernando Abreu escreveu durante os quase dois anos em que viveu em Porto Alegre, após ser diagnosticado com o vírus da aids, dão testemunho de um reencontro com a cidade da qual havia partido ainda muito jovem para fazer carreira como jornalista no centro do país. São textos que traduzem uma difícil aceitação da própria finitude – oscilam entre o sereno e o passional – e fazem um balanço de sua relação com a Capital (“Manaus no verão e Moscou no inverno”, como definiu certa vez).
Muitos desses textos têm por cenário a casa dos pais, onde o autor foi acolhido depois de voltar ao Estado após anos morando primeiro no Rio e depois em São Paulo. São crônicas nas quais Caio, como o equivalente arrebatado de um mestre zen, reflete sobre o que estava descobrindo a respeito da própria vida e da vizinhança do Menino Deus, para onde havia retornado em 1994. Como escreveu em crônica publicada em Zero Hora em 1995, na qual falava dos girassóis de sua casa e, elipticamente, de si mesmo: “Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?”.
Por recomendação médica, Caio fazia longas caminhadas pelo bairro. Ali ele começou sua reconciliação com Porto Alegre, cidade à qual ele sempre teve muitas críticas – lembra a professora da UFRGS Márcia Ivana de Lima e Silva, coordenadora do acervo do autor.
É essa casa, na Rua Oscar Bittencourt, no Menino Deus, que agora está à venda. Devido a questões judiciais, o imóvel, construído em 1941, foi posto em leilão após a morte dos pais do escritor e foi arrematado pelo corretor gaúcho Alexandre Hartmann em 2006. Agora está sendo oferecido para venda ou aluguel.
– Eu estava procurando um imóvel para me estabelecer, mas questões judiciais do inventário se arrastaram por anos, e, quando ela finalmente ficou à disposição, eu já estava instalado com a família em outro lugar – conta Hartmann.
Ao ver a placa, em uma visita recente a Porto Alegre, o escritor Fábio Fabrício Fabretti começou, com amigas leitoras da obra do Caio, um movimento para tentar dar uma nova destinação à casa – a instalação de um memorial ou centro de cultura ligado ao nome do autor.
– Tenho 36 anos e me tornei escritor em grande parte pelo impacto que a leitura do Caio me provocou. Acho uma pena que um de seus vestígios na cidade esteja ameaçado – diz Fábio.
Uma das participantes do movimento, a psicóloga Andrea Behegaray lançou um apelo em seu blog na internet (leia em www.wunschelrute.blogspot.com/2010/08/salve-casa-do-caio-fernando-abreu.html) e montou uma corrente de e-mails enviados a intelectuais e artistas do Estado.
A campanha, ainda incipiente, já começou a ter suas primeiras adesões, reproduzida em outros blogs e comentada no serviço de microblogs Twitter. Diz Andrea:– O Menino Deus está transformado em um campo de obras, e estamos divulgando essa ideia para que chame a atenção de alguém. O trabalho do Caio tem várias referências àquele espaço. Talvez uma entidade privada qualquer pudesse instalar ali um espaço cultural.
Hartmann, o proprietário, não se opõe:– Se houver uma ideia nesse sentido, eu locaria ou venderia a casa para esse fim, sem problema. Minha intenção é mesmo preferencialmente alugar.

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