Necessária tristeza.



Sigo pulando meus abismos.
É preciso aprender a ser triste.
A tristeza é bonita. Bonita para quem pode ver.
É lá que se encontram tesouros, no silêncio dos dias tristes.

Nosso tempo comete muitas injustiças contra os homens tristes.
Não falo da tristeza extrema, falo da tristeza necessária.
Você não consegue perceber a tristeza dos outros até descobrí-la dentro de você.

Mas não se engane, os tristes não andam cabisbaixos, chorando, com olhar perdido, arrastando-se e se lamentando pela vida. Esse é mais um dos erros que cometemos com os tristes.

Apesar de terem olhos com maior propensão a vagar, os tristes, muitas vezes, são aqueles de quem você menos suspeita. Os aparentemente felizes, os que obtiveram sucesso na vida, os que sorriem, os que não param nunca, os que você tem como modelo.

Uma alma triste pode manifestar sua profunda tristeza através de grande agitação.
Vemos nascer uma geração triste. Nossas crianças hiperativas. As crianças denunciam os homens e esse tempo doente.
O movimento externo é a tentativa desesperada de camuflar o movimento interno da alma.
A alma chora de muitas maneiras. A agitação pode ser uma lágrima motora, a doença do corpo pode expressar a dor da alma, o comer em excesso pode ser seu desejo de tamponar a angústia, a busca pelo corpo perfeito pode ser apenas a forma que você encontrou para se distrair da tristeza que habita todo corpo.

E tudo isso nos diz que passamos tempo demais tentando escapar do sofrimento ao invés de encará-lo. E encarar a angústia existencial é essencial, não só para o processo de auto conhecimento, como para o processo amoroso.

Só os tristes sabem amar de verdade. O amor dos que não entraram em contato ainda com sua tristeza é que nem verniz, brilha um tempo mas não se sustenta. Amar exige tanta coragem quanto exige o sofrer. Os tristes amam melhor porque são capazes de reconhecer e acolher no ser amado a tristeza. Ama sem muito fiasco pois reconhece a falta como constituinte e por isso sabe que o outro não está ali para tapar buracos mas, talvez, para segurar a sua mão quando o buraco for muito grande. O triste sabe fazer poemas e sabe dizê-los também. Mas o triste não apenas fala o poema, ele sente o poema. O abraço dos tristes é acolhe(dor) e profundo, diferente do abraço dos alegres que é superficial e rápido.

Amar um triste pode ser uma experiência reveladora. Existe uma dimensão amorosa e sexual que só os tristes conhecem. Se você nunca viveu isso, com certeza não vai entender o que falo. Os tristes, quando amam, atingem o que eu chamo de terceira dimensão no amor. A terceira dimensão só pode ser atingida a dois, nunca sozinho.

Ocorre quando o corpo está em paz com o prazer e essa paz liga o corpo a alma através do desejo sexual. Não é o sexo culpado e vulgar tão presente na nossa cultura, é de outra ordem. É o sexo sagrado. Mas não confunda sagrado com religião e seu puritanismo pecaminoso. Sagrado no sentido de mergulho de alma, existência. Então, quando isso ocorre o sexo não se esgota na carne, e também não vai residir no que há de platônico em você. Ele será o encontro disso, carne e alma que juntos criam um terceiro espaço de prazer. Espaço que só os tristes conhecem.

A tristeza é valiosa. A arte e todas as suas manifestações nascem da alma que chora. A tinta da caneta ou do pincel é lágrima com cor.
Assumir a dor é demonstração de grande força e não fragilidade como o senso comum acredita.

Não é simples conviver com a tristeza da alma, é aprendizado. É difícil, mas a vida é difícil o que não quer dizer que não seja bela.
É possível ser alegre, mesmo sendo triste. É possível ser feliz mesmo em sofrimento.
Existe beleza na tristeza.

A tristeza torna sua alma sensível aos outros. O respeito as diferenças nasce da alma sensível a dor. A alma que sofre e não camufla isso, cresce em silêncio e respeito a dor do outro. O respeito, que nada mais é que capacidade empática, nasce do reconhecimento da dor em si mesmo, para então ser vista e respeitada na dor do outro.

A luta pelos direitos humanos é uma luta por respeito a dor. Se não respeitamos a dor dentro da gente somos incapazes de respeitar a dor alheia. Porque quando reconheço o sofrimento da alma e aceito essa dimensão existencial eu me torno um guardião do outro. Não vou violar o outro. A violência, que se manifesta pela violação do outro, é o profundo ressentimento de alguém que, por não saber sofrer, atua sua dor. E em um mundo que nega profundamente a dor, aqueles que sofrem e denunciam isso, se tornam alvo da raiva daqueles que não querem ver.
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Eu acredito na felicidade que é regada na consciência da angústia.
Eu acolho o desespero que mora em mim, por isso posso abraçar você nas noites de sofrimento.
Eu respeito sua dor, porque em silêncio tenho me esforçado para lidar com a minha e sei o quanto é difícil.
O desespero de estar viva tem me ensinado a amar a vida e as pessoas.
Eu amo os tristes. Eu os reconheço de olhos fechados.
Eu sei da sua tristeza.
Saiba de meu amor por você.

Comentários

  1. 1. Ama sem muito fiasco pois reconhece a falta como constituinte e por isso sabe que o outro não está ali para tapar buracos mas, talvez, para segurar a sua mão quando o buraco for muito grande. O triste sabe fazer poemas e sabe dizê-los também. Mas o triste não apenas fala o poema, ele sente o poema. O abraço dos tristes é acolhe(dor) e profundo, diferente do abraço dos alegres que é superficial e rápido.

    :~

    Perfeito.

    2. Sexo sagrado! É o que eu sempre chamei de ato divino e poucas pessoas entenderam.
    É o que tenho dito [4], ora bolas [4]!

    :~

    Perfeito.

    3. Perfeito. Tudo.

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  2. Lindo, Andréa!
    É difícil mesmo...
    Beijo!

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  3. Bah,...o reconheço pela alma, olhos nos olhos.
    Abraço demorado, uma energia nos rodeando, luz azul,carne e alma - poesia pura.
    Lindo Déia!
    bjos

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  4. "Beleza e tristeza". lembrei de um livro que li há um tempo, do japonês Kawabata.
    Lindo e sensível, Andréa.
    Grata pelo presente.

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  5. Lindo... lindo.. lindo...
    "É possível ser alegre, mesmo sendo triste. É possível ser feliz mesmo em sofrimento.
    Existe beleza na tristeza."

    Abraço Déia (posso chamar assim??)

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  6. Muito bonito mesmo!
    Tão respeitoso, tão sensível, tão acolhedor!...
    Beijos querida!
    Mariana Schorn

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