Amores, livros e alternativas para uma morte feliz.



Livros, livros, livros, meu único descontrole de consumo. Amo livros.

Lembro bem quando essa paixão começou. No início um namorico despretensioso pelas estreitas passagens da feira do livro. Meu pai permitiu, a mim e a minha irmã, a compra de um livro para cada. Engraçado como lembro deste passeio. Eu não era muito maior que a prateleira, e escolhi pela capa colorida, um livro chamado "Férias em um orfanato".
Depois minha mãe, que fazia parte do "Círculo do livro", todo mês recebia a visita da representante e seu fascinante catálogo de livros. Minha mãe começou a comprar a coleção do Monteiro Lobato. Não completou, foi até o "Monte". Entendi a pista e segui montando prateleiras vida a fora. Meu primeiro grande livro foi "Reinações de Narizinho". Grudei nele, ele deveria ter uma 200 paginas e lembro que fiquei perplexa ao perceber que o lerá tão rápido.
Com essa perplexidade de criança descobri que, pela primeira vez, estava apaixonada. O mágico mundo de Monteiro Lobato e as estripulias da Emília. Menina-boneca, muito bagunceira como aquela que a lia.




Tinha o apelido de bicho carpinteiro, e esse bichinho que morava dentro de mim só parava quando via um livro, deitava ao meu lado, para juntos, embarcarmos nas mais diversas viagens.

Aos 11 anos descobri a poesia na biblioteca do colégio, Cecília Meireles. E quando não estava envolvida em alguma rebelião na escola é por que estava lendo.

"Pus me sonho em um navio
e o navio botei no mar
depois abri o mar com as mãos
para me sonho naufragar".

Tinha o hábito criminoso (?) de não devolver os livros da biblioteca, ou de intencionalmente roubá-los. Roubá-los não por que, como aprendi com o povo do Direito, roubo é quando se tira algo de alguém, o que e fazia era furtar, pois nunca cheguei a ameaçar a tia da biblioteca.


Aliás, autores com"C" sempre forma responsáveis por abrir para mim novos mundos, novas formas de sentir e ver a vida. Primeiro Cecília Meirelles, depois, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Carl Gustav Jung.


Pequeno hábito obssessivo, que desenvolvi na infância, o de encontrar coincidências insignificantes nas coisas. Novinha, todos os meus amores começavam com "L", depois todos eram leoninos (signo aposto ao meu, aquário), na medida que crescia e me apaixonava essas "coincidências" não se sustentaram, já que isso diminuía muito minhas possibilidade afetivas.

Depois, adulta, veio "novembro". Meus três filhos nasceram em novembro, o filho da empregada nasce em novembro, e quando a secretária engravidou, adivinhem, nasceu em novembro. Ande comigo, e filho nascerá em novembro. Fato. Conclusão: fevereiro é um mês fértil.

Bom, mas voltando aos livros...


Compro muito e estou sempre falida. Meu sonho era morar em uma biblioteca. A Cultura já servia. Compro, acumulo e tenho nas prateleiras vários que ainda não li.

Quer que eu goste de você? Me dê um livro, vou lembrar para sempre. Mesmo que e não goste do livro que você me deu, não tem problema. Vou guardar e lembrar sempre. Para mim, dar livros é sempre um ato de amor.

Como toda quarta tenho ido para Florianópolis estudar, neste dia separo sempre dois livros para levar comigo. Livros que ainda não li, ou que estão pela metade. Semana passada levei Clarice ( Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres) e Foucault (Segurança, território e população). Ganho a Clarice, disparado.

Ontem levei Rubem Alves "O amor acende a lua". Leio muito bem em aeroporto, impressionante. Fui lendo e adorando. O texto da escutatória, da pipoca, muito bom. Entre um texto e outro fazia a leitura obrigatória da aula, chata pra caramba. Enfim...

Na volta, com tempo de sobra, mais Rubem Alves. Li,li,li e quando o avião foi pousar, coloquei o livro ao me lado, no banco do meio. Fiquei lá no escuro observando as luzes da cidade e pensando. Olhei para o livro e pensei "melhor guardar, eu ando com tanta coisa na mão e volto tão cansada, capaz de perde-lo." Não guardei. Regida pelo princípio do prazer como sou, preferi curtir o escurinho do avião a fazer qualquer tipo de movimento. O avião pousou com uma grande freiada. Reverso funcionando, ufa, olho para o lado e...

Onde foi parar meu Rubem Alves??? Estava sem cinto, voou.

Luzes acesas e eu de quatro pé em busca do amor que acende a lua. Todos desembarcaram, menos eu. Avião vazio, eu e aeromoças procurando o Rubem. Nada. Mistério, o livro desapareceu. Ninguém entregou na saída, ele simplesmente sumiu entre os bancos.

Teria batido no pé de alguém e esse alguém levado?

Que tipo de pessoa "furta" um livro em avião?

Eu furtava de biblioteca, livros de bibliotecas são amores coletivos, eu não tirava ele de ninguém em particular. Nunca vi o rosto das vitimas. Ao contrário, no avião, você sabe que o dono daquele livro deve estar logo ali. Eu jamais pegaria o livro de alguém.

Nem empresto os meus, e quando alguém insiste em pegar algum dos meus livros eu aviso "se você não entregar em tanto tempo eu irei perseguir você, até que me devolva". É impressionante como as pessoas não devolvem livros! Que diga-se de passagem, são muito caros.

Voltando ao desaparecimento do Rubem Alves. Conformada com a perda, pensei em rogar uma maldição para a pessoa que levou me livro. Depois, refletindo, disse para aeromoça "Que idiota leva um livro de outra pessoa? Que faça bom uso, se é um idiota, talvez a leitura de Rubem Alves lhe ajude a deixar de ser um cretino".

Sai de lá triste, mas ao mesmo tempo, pensando que livros deveriam ser compartilhado (não os meus, claro!). Deveriam existir mais espaços de leitura pela cidade, um acesso mais fácil aos livros. Por isso não considero a perda do meu livro muito triste. Terei que comprar outro igual, é verdade, e é verdade que quem levou continua sendo um safado. Se bem que isso deve ser coisa de mulher, roubar Rubem Alves em avião, com esse título "O amor acende a lua", deve ser coisa de mulher apaixonada que se sentiu atingida por uma feliz coincidência -uma pena que bateu no pé e não na cabeça. Se foi um homem, ele era um idiota até ontem, se ele realmente for ler, com certeza nesta semana estaremos vendo nascer um homem menos idiota, um pouco menos.

Acho mesmo, que furtar livros, não deveria ser considerado crime, é quase crime. É crime pequeno. Bem pequeninho. Eu não faço mais essas coisas, estou curada, nem CD pirata, nem xerox, meus livros são todos originais. Participei do grupo FLA- Furtadores de livros Anônimos. Hoje em dia só furto citações da Revista Caras em sala de espera de consultório médico. Furto mesmo, dobro e ponho na bolsa, sem culpa.

Tem pena pra isso?

Não acredito que "um amor e uma cabana" funcionem. Não acredito mesmo. Coisa de gente romântica. Para mim só funciona, "Um amor e livros". Receita de felicidade.

De herança para meus filhos deixo o amor pelos livros e o amor pelo amor.
Estou montando uma biblioteca, já lhes disse, "será de vocês, cuidem, o resto, bens, dinheiro e imóveis, esses detalhes falem com o pai de vocês".
Eu amo meus filhos, nas festas da escola, no dia das mães, eles sempre escolhiam um objeto para representar a mãe, e claro, meus filhos me representam com livros!
Um dia, toda faceira, comento orgulhosa com as outras mães
"
Olha lá, eu sou aquele livro! E vocês?
Eu sou aquele pano de prato, diz uma triste,
E eu aquele batom...
Ahn, tá...respondo eu. Com tanta coisa para ser e a pessoa é vista como um "pano de prato". Se fosse me filho, ganhava logo um mês de castigo para aprender quem é o pano de prato!

Na vida tudo pode ser tirado de nós, menos aquilo que sentimos pelas pessoas que amamos e aquilo que lemos. Fica para sempre dentro da gente. Quando e morrer, vai estar escrito na minha lápide:




" Aqui jaz uma mulher que teve amores e livros,
Aqui vive para eternidade uma pessoa que aprendeu a ser gente através dos amores que teve e dos livros pode tocar.
Que só encontrou sentido e felicidade nos amores que viveu e nos livros que leu.
Que descobriu que os livros, assim como os amores, passam por nós, ficam em nós, mas devem ser deixados livres, pois na liberdade multiplicam-se.
Aqui encontra-se alguém que alimentou sua alma de afetos e leituras.
Que sempre soube que esses mesmos alimentos poderiam condenar-lhe as trevas ou, apesar delas, dar-lhe a vida.
E ela escolheu a vida, permanecendo sempre de frente para a escuridão da qual, sabia, era impossível livra-se.
Dos amores que teve, dos livros que leu, aqui está uma mulher que viveu.
Seus livros e seus amores estão aqui ao se lado, para toda eternidade, ecoando no espaço.
E por isso ela foi feliz"

Se bem que não quero ter lápide, a não ser que me enterrem no jardim de uma biblioteca. Nem ficar lá no caixão com algodão no nariz e sem meias, tenho muito frio nos pés. E em enterros as pessoas ficam falando dos mortos e os mortos não podem nem se defender, injusto, e nem participar. E também não quero ser cremada, tenho medo de acordar bem na hora que o fogo começa, credo! Sei lá, acho que fiquei sem alternativa.
Mas também nem quero morrer agora. É que viver dá muito trabalho, e só de teimosa, quero permanecer viva o máximo que eu puder. De birra com Deus. Já que me botou aqui, agora vou até o final, lutando sempre o bom combate. De birra, vou viver. Mas quando eu morrer...

Sabe o que eu queria mesmo?
Eu queria virar um poema.

Comentários

  1. Que bonita descrição Andrea. Lembrei da minha infância... da mãe lendo para minha irmã e eu... da minha primeira coleção de leitura: série Vaga-Lume (hehehe)...


    Agora, essa coincidente fertilidade de fevereiro está com cara de carnaval (hahahaha).

    Bjs querida

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  2. Tu viu?? Por isso que abandonei o carnaval faz tempo!!

    Rsrrsrs,

    Beijos querida.

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  3. "Compro muito e estou sempre falida. Meu sonho era morar em uma biblioteca. A Cultura já servia. Compro, acumulo e tenho nas prateleiras vários que ainda não li."

    Adorei o texto e me identifiquei com ele... também sou viciada e amo livros...
    E que nossa loucura seja perdoada, porque metade de nós é amor e a outra também...rsrs

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  4. Coisa mais linda de texto!
    bjos minha querida

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  5. Lindo, lindo.. mais uma vez transbordando sensibilidade!

    Também sou maluca, viciada, apaixonada por livros e morro de ciúmes dos meus.. até empresto, mas se não me devolvem ou não tomam o devido cuidado, viro inimiga mortal da pessoa...

    Entendi bem o tipo de tristeza que deves ter sentido ao procurar seu livro do Rubem Alves e não ter o encontrado, pois passei por situação parecida na minha sala de aula, onde por breves minutinhos sai da sala e deixei meu livro: Dos delitos e das penas, embaixo da classe e quando voltei não o encontrei mais... sofri tanto que comprei um igual, mesma capa, mesma edição... só não tinha o carinho daquele, que foi presente de um professor de outra instituição! "Quer que eu goste de você? Me dê um livro, vou lembrar para sempre. Mesmo que e não goste do livro que você me deu, não tem problema. Vou guardar e lembrar sempre. Para mim, dar livros é sempre um ato de amor."

    Como comentou a Mônica, "que nossa loucura seja perdoada, porque metade de nós é amor e a outra também..."

    Grande abraço e como sempre PARABÉNS pelas belas e singelas palavras.

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  6. Filha três sentimentos afloraram em mim ao ler esse texto,aliás,lindíssimo.Primeiro sentimento:orgulho de ter uma filha com essa sensibilidade;segundo sentimento:ódio mortal de quem te roubou o Rubem Alves,sacanagem,sacanaaaa,ordinário.O alívio veio no teu consolo..."faça bom proveito"...coisas de mãe,logo pensei:vou fazer uma surpresa e dar outro (putz,lá se foi a surpresa):3º sentimento (se bem que agora já acho que são infinitos sentimentos)compensação-acho que essa é a palavra-pois valeu a pena ser associada ao círculo do livro.Lembro bem a excitação nossa quando chegava o catálogo e agora reconheço a tua....Parabéns,meu amor.

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