Puta devota, puritana convicta...


Sabe que eu gosto do nome do seu blog? "Mil faces de Luiza".
É que quando escrevo, me sinto assim, mil faces disputando.
Cada dia escreve uma, cada dia um enredo.
É quase um funcionamento esquizofrenico, ou medium em Centro Espirita, cada dia uma entidade, cada dia baixa uma.
E quem escreve, quem se arrisca a escrever, tem que ser um pouco fragmentaria.
Diria mais, quem escreve precisa ter coragem.
Coragem para circular naquilo que somos, imaginar o que poderíamos ter sido, e não fomos.
Ser também observador, ladrão, pescador.
Olhar a vida do outro; roubar frases, gestos, estórias; pescar sentidos, ilusões.
Depois bater tudo isso, liquidificar em mil pedaços e aos poucos, com todos esses retalhos ir compondo.
Cacos, pedaços, todos eles contam verdades, minhas verdades. Tuas verdades espelhadas.
É por que a verdade nunca é única, reside em várias moradas.
Se cada um possui a sua, eu possuo várias.
E assim, no susto de ser tantas, viver se tornou uma surpresa.
Vivo aos pulos, na ansiedade de quem não se sabe.
Tenho dias de calmaria, e outros de turbulência.
Acordo uma, durmo outra.
Quantas sou? Não sei dizer.
A vida é tão rica, tão cheia de possibilidades que, ser uma só sempre me pareceu falta de imaginação. Meu destino se esconde no mistério.
Mil fragmentos, combinações.
É na palavra que encontro o ponto de equilíbrio que internamente não possuo.
Tecendo inconsciente, fio de letra, calmaria.
Fio de outro, possibilidades, construções.
Tenho dias de senhora, moça pura, pudica, carola, desvairada.
Dias de santa louca e meretriz abandonada.
Dias de bem resolvida, dona de casa, mãe coragem, compreensão.
Em outros sou carente, mulher demente, dias de ataque, devassidão.
Na corda bamba, vivo dentro da palavra,
Posso ser muitas
Minhas faces, todas elas, entre meus extremos ,
Sou puta devota, puritana convicta.
Quem de mim você já viu?
Linha da vida, palma da mão.
Entre a razão e o coração.
Cambaleando, estou viva, mil faces de emoção.

Comentários

  1. Andréa, fiquei muito durpresa ao ler teu texto, porque andava muito longe daqui... E foi como se tivesses acabado de resgatar uma das minhas faces... Talvez nunca conseguisse verbalizar com tanta propriedade - e com essa sensibilidade que te é tão peculiar - o que vai dentro de mim... Obrigada! A generosidade é uma grande virtude! E é sempre uma delícia te ler... Beijos, Lúcia.

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  2. Amiga, não podias traduzir melhor a nossa alma do que nessas lindas palavras em forma de ensaio/poesia. És uma escultora de letras que sente a alma feminina e a traduz de forma magnífica! Também me sinto exatamente assim, ora puta devassa, ora puritana convicta. Ando mais inclinada para a segunda opção, ou algo parecido, ultimamente.. Mas é só uma das facetas das mil mulheres que habitam em mim.

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