Gaúcho Tri Grosso.


Gaúcho tem uma linguagem tão, tão, "faca no osso". Não, não é faca na bota, é faca no osso mesmo. Porque tem som de faca no osso, osso da perna. Oco, duro, áspero e forte. Som de faca que raspa, no osso.
Porque por aqui o outro é TU, o que é diferente de ser VOCÊ.
Porque VOCÊ quando dito faz a volta no corpo do outro e só ai toca. TU não, TU é na cara, um cuspi no olho do outro, um tapa na testa. "Óh, tu, tu mesmo."
TU chega junto, de frente. Por aqui, TU, pega no tranco.
Como falar de amor com TU? Tu tem cheiro de mato, amor de capim.
Falar de amor, exige VOCÊ. VOCÊ que enquanto se pronuncia abraça a cintura do outro. O braço vai, faceiro, dando a volta na guria enquanto o interessado diz VO....estica,estica...CÊ. Tá feito o laço suave no CÊ. Que pode também fechar no duplo: SE??
Vai lá, abraça o outro enquanto diz VOCÊ.
Tá, agora tenta no TU...
Conseguiu? Não, claro (tem o não escuro também, mas nesse caso ele é bem claro).
TU é uma ejaculação precoce da palavra, que não consegue abraçar pois empurra.
Para falar de amor a melhor língua mesmo é o espanhol. Língua feita para falar no ouvido.
O sujeito pode ser um estranho, você lá passando, distraída, e ele fala em espanhol com aquela voz rouca - sim espanhol é para ser falado com voz rouca. Você nem entendeu o que ele disse, mas já está capturada, envolvida pela sedução da língua. O bom uso da língua.
Depois vem o francês, falar de amor em francês também rende. Antes do sujeito verbalizar já faz biquinho. E quem resisti a biquinho de quem se ama? Fora que se alguém faz um biquinho para você de surpresa, é involuntário, fazemos biquinho de volta. Quase como um aperto de mão.
Agora a última língua para falar de amor é o gaúches. Não dá, escute o sujeito demonstrando interesse:
"Bah guria, tri afim de ti"; "eu te amo"; "Tu me ama?".
Tu, te, tri - baita empurra-empurra!
Bem diferente do doce e suave VOCÊ.
"Eu amo você"...aiai, tem cheiro doce, suave, textura de pano de seda, escorrega na pele.
E essa rudeza começa na infância. De pequeno. Todo mundo aqui já nasce GURI ou GURIA, nada da meiguice de um MENINO E MENINA. Desde cedo acostumamos nossas crias a aridez da palavra. Nossas crianças são piralhos, piás, piás de merda. Tudo dito com muito amor e orgulho "nossos piás", "o piá é bom", "minha piá". Que som de piá é som de cascudo na cabeça.
Além de piá, são também maloqueiras. Que é quando bixo pega, a mãe grita logo "o guri, deixa de ser maloqueiro!". Palavra essa que tem cheiro de terra, nariz escorrendo e piá fedorento de calça puída. Mas não qualquer calça, calça de maloqueiro é feita de tecido ruim e tem cheiro, fedorentos.
Nossas crianças tem cheiro de chão, que jogam bolita e dão canelada. A briga de guri por aqui é tri agressiva. E se o guri não revida o pai logo diz "se não revidar, te capo em casa" . O complexo de castração nasceu nos pampas gaúchos. Gurizada traumatizada, se pelam de medo de perder o tico (aqui tudo com T), "Te Tiro o Tico Tchê!".
Tri grosso esse povo. Tu não acha??
Mas nem tudo está perdido. TU também tem tom de pegada, coisa firme. Laça a guria e diz no tranco "É tu que eu quero. Quer ser minha guria?", no alvo! Flechada direto no coração que só gaúcho sabe dar.

Comentários

  1. Esqueceste dos italianos, amiga! Dito ao pé do ouvido tb pode provocar frouxuras!!! hahah
    Mas concordo contigo em gênero, número e grau... implico com os gaúchos mas eles têm um jeitinho! É de uma objetividade que não te deixa escapatória... aiai...
    Depois, com mais calma, venho fazer minhas considerações orgásmicas... ;o)
    Beijo!

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  2. Luiza!

    Rsrsrs, esse post te provocou algum tipo de calorão??

    Sim, sim, os italianos...mas eles parecem mais representar a coisa toda do que sentir. Mas sem dúvida nenhuma são os homens mais sedutores que já ví! Charmoserrímos!!

    Fico no aguardo das tuas considerações orgásmicas.
    Bjs!

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  3. Estão lá no blog... especialmente pra ti! rs
    Beijo!

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  4. Bah, que ando sofrendo com esse jeitinho gaúcho nada caloroso.
    Defini os gaúchos em amáveis ou tapa na cara.
    O lado bom que vc relata será complicado experimentar...rs
    bjo pra ti menina linda

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  5. Érica, não te assusta, somos grosseiros muito amáveis, rsrs.
    É o lado bom, pela tua condição fica impedido..rsrs

    Beijos e seja bem vinda pelas bandas do sul.

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  6. Dia desses eu escutei um vivente tocar na viola umas 14 músicas gauchescas enfileiradas. Eu GOSTO de música campeira, mas acho que nunca na vida tinha escutado 14 enfileiradas. SÃO TODAS IGUAIS.

    O melhor de tudo esta no fato de que os gauchos em geral se julgam mais cultos/politizados/honestos e tudo mais. Mas quando tem que fazer uso de uma insuspeita GROSSURA, ela vira artefato "fashion" e motivo de ORGULHO.

    aham...

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  7. Gabrielzinho,

    já estava eu a sentir falta da tua delicadeza de gaúcho.

    :)

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  8. ah, amo o meu TU, que tem um sotaque de gaúcho inexplicável (já que sou catarina e nem de perto tenho parente dos pampas - isso, nenhum édipo explica).

    e, sério: nada como um TU masculino do teu lado :~

    não necessariamente um TU gaúcho, mas um TU de pegada forte e de decisão intensa, coisa rara, minha cara, coisa cara...

    Adorei o post :D
    Bjão ^^

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