Ponto G.



As coisas todas estão do lado avesso.

Nos dias de hoje amar está fora de moda , bonito mesmo a sexualidade escancarada, estampada, exposta. Hoje em dia ser romântico é cafona; jurar amor é brega; serenata não está com nada; amar é coisa de gente careta.

Se no passado pecado era gozar, hoje em dia pecado é não ter orgasmos múltiplos!
A coisa inverteu de tal forma que nada mais pode ser adiado, velado ou construído. O gozo, que para ser gozo tem que ser explícito, já pode ser comprado em prateleiras de farmácia.

Alias, a porta da farmácia virou praticamente a porta do paraíso. Lá é possível adquirir felicidade permanente em pequenas cápsulas, assim como o gozo eterno.

Para os homens, potência perpétua. O sujeito pode ter quase 100 anos, cego, surdo, desdentado, já não saber bem onde está, e nem em que ano, pode mesmo já estar recebendo alimentação por sonda, mas sua ereção estará garantida, gagá mas viril! E para as mulheres, já que ninguém descobriu mesmo onde fica esse tal de ponto G, é possível adquirir orgasmos múltiplos em cápsulas.
Claro que no meio disso tudo, o sujeito mais ativo da relação é, obviamente, o farmacêutico que goza com o gozo alheio.
Investimento hoje só na bolsa de valores. Investir na intimidade não está com nada. Levar para jantar, curtir uma boa música ao lado de alguém interessante, conversar, ir tecendo lentamente uma relação, tudo isso está fora de moda.
Devagar e lento inclusive são palavras praticamente desconhecidas. O negócio agora é não perder tempo. Tempo é gozo e gozo é pop.
Afinal, porque alguém que, pode sair por ai beijando todas e terminar a noite com um desconhecido(a), sexo prático de gozo fácil, trocaria tudo isso por "relacionamentos"?

Hoje o sujeito paga para não se incomodar, acredita. O que não percebe é que depois paga igual, ou a conta da farmácia ou a conta do analista, mas cedo ou tarde a vida manda a conta.

Gozo também é construção, e a incomodação também pode ser gozo. O prazer de turbulências amorosas e fascinantes incomodações ambulantes, só sabe quem já teve.
As pessoas não sabem mais gozar! Reduziram o gozo, ao gozo final do ato sexual. Gozo não se encontra no fim do processo, no gozo em si, o gozo está em todo o processo.
Está no prazer de descobrir o outro e de se descobrir nesse novo outro que se apresenta. Está no prazer de, ao invés de buscar muitas bocas diferentes, encontrar muitas formas diferentes de beijar.
A geração que chega, parece desconhecer o prazer de adiar um toque, para com isso perceber que um toque adiado se transforma em mil sensações diferentes, e com isso descobrir que as zonas erógenas estão espalhadas pelo corpo inteiro.

E quando se descobre isso, aprendemos também a usar o corpo inteiro. Um amor de corpo inteiro.

Porque no frenesi da noite que avança, embalados por sons tecnos disformes e muitas luzes que não permitem perceber o outro, enxergar o outro, o outro deixa de Ser (se em algum momento chegou a ser), e vira peito, bunda, coxa e balanço.
Em tempos de império virtual, menos o outro existe, é sempre o sujeito consigo mesmo, mais ninguém. O gozo de hoje é egoísta. Não se quer dividir gozo, construir gozo. Ele deve ser rápido, já, sem frustrações.
A redução do gozo é a redução do outro. Se não há reconhecimento do outro não há outro para me frustrar. Narcisicamente invisto e reinvisto em mim.

O ponto G não existe, é mais uma mentira que algum cientista contou. Mas acho bacana os meninos continuarem procurando. O que não perceberam ainda é que o ponto da questão não está no ponto, mas na procura. Procurem, procurem e procurem...

Meninas não se deixem reduzir. Contem aos meninos que, o ponto G é muito mais uma questão de fé que de ciência. O ponto G é como Deus, nunca ninguém viu, mas quase todo mundo acredita nele, tirando o Niet, e passam a vida procurando. Assim como Deus o Ponto G está em todos os lugares, está em você, está no outro. Da cabeça aos pés. Amplie seu ponto de vista.

Não desanime se Papai Noel não existe, nem o o Ponto G, ainda temos os farmacêuticos, o maior gozador de todos os tempos.

Comentários

  1. Nossa! Texto perfeito!

    Esse desprezo pela construção de relacionamentos é resultado desse momento imediatista em que vivemos: é só apertar "enter" e voilà!

    E o farmacêutico ri da vida, hein?
    Hehe

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  2. "Está no prazer de descobrir o outro e de se descobrir nesse novo outro que se apresenta. Está no prazer de, ao invés de buscar muitas bocas diferentes, encontrar muitas formas diferentes de beijar.
    A geração que chega, parece desconhecer o prazer de adiar um toque, para com isso perceber que um toque adiado se transforma em mil sensações diferentes..."
    Todo o texto é maravilhoso, mas foram nas frases acima que acredito que está a chave...
    Perdeu-se o sentido do toque, do beijo, do carinho... o sentido do real prazer transformou-se no gozo quase que imediato, instantâneo.. como se as sensações de um prazer verdadeiro, intenso pudesse mesmo ser comprado na farmácia!

    Parabéns mais uma vez!!!

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  3. Adorei. Sei que o tema é sério, mas confesso que ri um bocado. Muito bom. Parabéns!

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