Quase-amor.


Parada embaixo da marquise cinza, observava Alfredo que lento caminhava pela chuva fina, daquela tarde que terminava.

A cada passo de Alfredo, aquela distância antiga, tão presente entre eles, ficava cada vez mais alta. Mesmo que retornasse, mesmo que desistisse e voltasse na direção de Amélia, ela sabia, aquela distância nunca mais desapareceria.

Agora, olhando Alfredo partir na direção oposta de seu coração, Amélia percebia que ele nunca se aproximara tanto. Muito próximo ele estava daquela solidão antiga que, desde sempre, impedia Amélia de ter bons sonhos. Fazendo a curva, Alfredo tocava sem saber na sua escuridão. A pouca luz daquele fim de tarde não impediu Amélia de ver o quanto ele se parecia com ela. Ela e sua ruidosa solidão.
Aquela selvagem solidão que Alfredo nunca pode ouvir.
Nos longos anos que dormiu ao lado dela, Alfredo nunca percebeu a dor de Amélia em tempestade.

Amélia deu um passo a frente, para que a chuva apagasse suave a tristeza de seu rosto.
É que Amélia estava triste, não pela partida de Alfredo que não lhe doeu em nada, estava triste porque não sentir era o que atormentava.

Atormentava não doer de amor.

Era essa sua cruel realidade.

Baixinho perguntava, seria capaz um dia de não sentir alívio quando um quase amor partisse?

Pois era alívio que sentia.

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