Aniquilamento e desejo.


Unh...acabado, tudo acabado.
Corpo ereto. Mãos fechadas. Garras recolhidas.

Resta agora, apenas teu rosto, todo ele dilacerado e o gosto amargo do silêncio.

Teu sangue escorre, mas não me comovo.

Nenhuma pena teu sangue me provoca.

Porque quando tenho uma raiva assim, dessas bem grandes, e que quanto mais a gente pensa, maior fica, o melhor mesmo é rasgar.

Porque , você sabe, quando a raiva nasce ela vai gelando o sangue da gente.

O sangue gela, é raiva pura.

Gela e paralisa.

Quando a temperatura atinge níveis baixissímos, da ponto dos meus dedos saltam garras afiadas, que mais parecem navalhas.

Do extremo da mão, surgem, apontadas para o alto.

E antes que possas perceber as garras puxam em grande velocidade todo o corpo que, arqueado obedece a velocidade imposta pela ira, que voa.

Na direção do teu rosto amor, a mão que nada mais pode contra o ódio, movimenta com destreza rasgando a pele. As primeiras e mais violentas navalhadas atigem a parte mais macia e exposta do rosto do outro, as bochechas. Os olhos arregalados, na supresa do assalto, não esboçam reação. Então a testa, um enorme rasgo nos lábios contraídos, daquele nada que te tornas, apavorado.

Quando mais nada restar reconhecível, a não ser os olhos, perversamente poupados para que testemunhem perplexos as consequencias do meu ódio, o outro será deixado lá, estirado.

Sangrando, dilacerado e em choque, o outro levará as mãos ao rosto e sentirá, antes que os olhos concluam, todo estrago que minha ira é capaz de fazer.

Pronto, tudo resolvido, digo para mim mesma orgulhosa. Teve o que mereceu. Provocou, levou digo firme empurrando qualquer culpa para longe. Não há mais nada a ser feito e nem como voltar atrás, não posso mais reconhecer teu rosto entre todos os outros que circulam, você não significa nada mais.

E tudo isso que penso, no espaço de um segundo enquanto olho para você. Você não percebe, talvez nunca venha a saber, já dilacerei teu rosto muitas vezes. Muitas.

O que significa isso?

Não nada, nada sério. É só desejo, desejo e fantasia.

É o que acontece quando sinto saudades. Navalhadas de puro ressentimento.

Comentários

  1. Pega a pena e escreve.

    "quero escrever o borrão vermelho de sangue..."

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Árvores Floridas

Ser.

É a vida!