KZ Bereich des Hasses.




Apenas uma passagem. Estreita, escura e úmida.
As escolhas me levam lá. Todos os caminhos convergem. 
Muitos movimentos, uma só saída.
Prisioneira do ódio.
Eu me tornei um cancêr e tenho me consumido. Violenta, me multiplico em ódios, milhares deles, que se reproduzem silenciosos em lugares enredados que não alcanço.
Multiplicam-se e transbordam.
Tenho pela vida uma ingratidão cega, e a vida, soberana, retribui.
Crava lenta no meu corpo em carne viva, suas garras afiadas.
A dor me corta, ajoelho, mas não lhe peço perdão.
Temo ter nascido ingrata.
Preciso de um grande acontecimento para me salvar. Que venha de frente, com fúria. Que se choque contra meu corpo, que me faça cair. E que no chão eu possa me contrair em dores. Que este grande evento provoque em mim as dores do parto. Que eu me contraia inteira para que então eu possa me parir de novo. Só assim estarei salva.
Mas a salvação não vem, e talvez nunca chegue. Tenho medo das poucas saídas que restam e dos úmidos lugares em que vive a liberdade.
Sou prisioneira de mim mesma. Sigo solitária nesta prisão a céu aberto. Estou cansada e lentamente me abandono. Talvez fique aqui, caída, e neste chão seco e apodreça.
Preciso desesperadamente voltar a acreditar. Preciso desesperadamente que alguém me escute e me abrace, de um jeito quente e firme. Preciso muito, mas talvez isso não aconteça.
Carrego comigo dezenas de talvez. Carrego junto ao peito. São eles que me mantém viva.
Eu não posso escutar o vento.
Ele não sopra aonde moro.
A maioria dos homens não nasceu. Eu também não.
Mas não ter nascido não alivia minha alma.
Meu corpo grita em contrações que nunca param.
Estou presa e não me expulso.
Minha carne é grossa e densa. E por não conseguir me libertar comecei a comer as paredes que me cercam.
É preciso ter coragem para nascer pelo único lugar possível. Forjada na dor, guardo secreta a esperança de ver à luz.
A sina que carrego é ter passado do tempo certo, estar na posição errada e para nascer terei que sair ao contrário.
Primeiro os pés que guardam todo o impulso dos meus músculos frágeis, então as pernas que se contorcendo pela passagem estreita, irão quebrar-se. Então o corpo será expulso, escorregadio e rápido, até parar preso pela cabeça que se nega...Mas eu não terei ajuda, ninguém irá me puxar do outro lado. Não há nada.
Restam apenas minhas mãos, e com elas me arranco neste último esforço. A vida me recepciona, e eu lhe respondo com um grito, um grito de dor.

Andréa Beheregaray

Comentários

  1. Gostei da fertilidade literária do seu texto e vi-me nele, inteira, por compartilhar tantos sentimentos. A maturidade trouxe-me estabilidade, mas não a estagnação. Ainda chafurdo em lugares úmidos e sombrios, tentando sair de mim. Parabéns!

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  2. Sueli, gostei da sua visita e do teu parecer. Me gratifica, de alguma forma, traduzir e trazer um pouco de luz a estes lugares úmidos e sombrios. É com a escrita que consigo circular por lá.
    Obrigada.

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