A pergunta que não quer calar...afetos e moitas da vida.


Está semana levei meus filhos ao colégio. Eles estudam na mesma escola que eu estudei na 5a série, quando tinha 11 anos. Naquela época arrumei meu primeiro namoradinho, ele chamava Leonardo. Meu filho, que também se chama Leonardo está na 5a série, também arrumou uma namoradinha na escola. No início do ano, quando troquei o Leo de escola, contava para meus pequenos sobre esse meu primeiro namorado. Namoramos um bom tempo, mas nunca, absolutamente nunca,nos falávamos na escola, mas quando chegávamos em casa nos telefonávamos e ficávamos horas conversando. Eu gostava muito do Leonardo, mas tinha vergonha dele, sentávamos lado a lado na escola, ,mudos.
Neste dia em que fui levar as crianças vi uns arbustos que ficam ao lado da passarela da escola, não sou eu quem leva as crianças então nunca tinha revisto as tais "moitas".
O fato é que revê-las me fez lembrar do motivo do fim do meu namoro com o Leonardo. Em uma tarde de sol, durante o recreio, o Leonardo passou por mim e eu peguei o Leonardo no colo e ATIREI dentro da moita!!!!!!!! O Leonado, após sair da moita, terminou o namoro comigo.
Esta semana, quando olhei para a moita, que ainda está lá inteira, testemunha do que fiz, surgiu a grande pergunta que não quer calar: POR QUE ATIREI MEU AFETO NA MOITA???
Se para picologia tudo tem razão de ser, e não fazemos nada sem que exista um sentido, afinal por que atirei o Leonardo na moita? Não encontro respostas. Talvez essa seja uma das perguntas que eu carregue comigo para o túmulo sem saber porque fiz aquilo.
Eu gostava do Leonardo, não queria machuca-lo, fiz aquilo por impulso, sem consciência nenhuma. Eu realmente queria me desculpar com o Leonardo. Acabei com nosso afeto assim, sem explicação.
A idade, experiências amorosas, auto-conhecimento, tudo isso ajudam a entender as razões de nossas atitudes e sentimentos, porém muita coisa ainda nos escapa. Natural, o inconsciente é vasto e não se deixa capturar facilmente. Mas algumas posturas e relações nos marcam, capturam e fazem com que façamos coisas que nos deixam perplexos com nós mesmos.
O que aprendi com o Leonardo, é que as vezes, posso tocar fora uma coisa boa da minha vida, talvez por medo. O Caio Fernando Abreu tem uma frase que fala deste impulso terrível de destruir tudo que é novo e ameaça ficar bonito ou crescer demais.
Talvez ninguém tenha me dito na época que não se joga namorados nas moitas, que na verdade se entra na moita com o namorado! Sim, é preciso ensinar seus filhos a escolher e viver seus amores, pelo menos no início.
Por um longo tempo seguimos atirando pessoas significativos nas moitas da vida, e também somos seguidamente lançados lá, solitários, machucados e tristes. Sozinhos na moita, quando o que mais queríamos, na verdade, é que aquele que nos lançou neste espaço espinhoso de solidão, tivesse tido a necessária coragem de pular junto com a gente.
Com o tempo vamos aprendendo que não podemos andar tão distraídos ao lado de moitas, mesmo quando quem está ao nosso lado é alguém que nos ama. Andar entre moitas ao lado do afeto, ai reside o risco. A vida é uma estradinha sinuosa cheia de moitas espreitando. Podemos cair nelas sozinhos, sermos lançados, traiçoeiramente atirados lá e vamos ficar muito tempo machucados e desnorteados com isso. Outras vezes no entanto, encontramos uma moita convidativa, podemos entrar sozinhos lá e dar um tempo refletindo no caminho, outras vezes encontramos moitas ocupadas por um viajante sozinho ou um casal que chegou primeiro e temos que escolher em entrar ou não ali. Moita em dupla ou trio? Bom tem moita de quatro, mas o Freud já alertou, se mais de dois, um sempre sobra e a moita vai ficar apertada, falta de ar e pouco espaço de movimento e crescimento, mas fica a critério do viajante,cada um sabe o tipo de moita que lhe agrada.
Tudo isso, eu escrevi, para pedir desculpas ao Leonardo e dizer que, enfim, não entendi meus motivos mas vou sempre lembrar dele, e do dia que toquei meu afeto juvenil nas moitas da vida .

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