Alice no país dos Farroupilhas.


Escorregou pelo buraco e acabou presa entre dois "se" e isto a angustiava. No chão deitada entre cogumelos e trevos de quatro folhas, tremia.
O dia estava cinza, e chovia. Quantidade infinita de pequenas gotas de chuva fria preenchiam o silêncio. Alice sentiu então uma tristeza profunda, que nem o vento forte levava, e percebeu ali, imóvel, entre lá e cá, que nada amenizaria.
Olhando para o céu cinza, Alice pensava no quanto, as vezes, sentia-se grande demais. Principalmente quando crescia de súbito e ameaçava romper as formas daqueles espaços limitados.
Outras vezes percebia-se tão pequena, que sentia que a qualquer momento, as circunstâncias lhe esmagariam.
Cansada de enfrentar valetes e discutir com rainhas loucas, começava a acreditar que bom mesmo seria se ela, definitivamente, perdesse a cabeça. Era difícil para Alice ser sempre o exército de um farrapo só.
E só sentou-se próxima a lamina d`agua que escoava seu sentido. Naquele percurso em espiral, a água escoava determinada a levar de Alice tudo o que ela tinha, que era pouco, Alice sabia, mas era dela e lhe dava sentido.
Aquele sentido que não estava nas funções ou confusões de seu caminho, e que Alice descobriu, esteve desde sempre, e ela distraída nunca viu.
Sentido com textura particular e um céu da boca carregado de estrelas que Alice deitada passava horas a contar. Imagens futuras cortavam o céu na cauda de cometinhas vagabundos e brilhantes. Alice sabia, o tempo estava se esgotando.
Esgotando junto com a agua que escorria lenta, mas determinada a não parar.
Mas desta vez por um buraquinho tão pequeno, que Alice não conseguia achar e por não achar, nada impediria seu sentido de desaparecer.
Alice começou a chorar. De olhos fechados, como sempre fazia desde os cinco anos de idade, chorou sem parar. E só parou quando,de súbito, engasgou.
Olhos arregalados, Alice engasgou na sua tristeza, e ela era salgada. Alice percebeu que de tanto chorar, por medo de perder seu sentido, as lágrimas encheram o lugar, e o buraquinho, por ser tão pequeno, não conseguiu escoar.
Parou, de susto, a água baixou. Ela aliviada, por não morrer afogada, viu de novo o sentido que escapava.
Começou outra vez a chorar, desta vez mais forte, porque agora, aos prantos sabia, que se não parasse de chorar lhe mataria, se não chorasse também morria, pois o sentido lhe escaparia.
Presa entre aqueles "se" Alice sabia, já não tinha escolha. Sua tristeza, misturada no sentido, fez a água subir. Subiu e tapou seu nariz e seus ouvidos. Os sons ficaram baixos, a luz mais fraca e o ar faltou.
Maltrapilha, Alice, a menina que morava no país dos bravos farroupilhas, morreu aos poucos, mergulhada no sentido, e a tristeza deu lugar a calma.
Alice não sabia, mas agora descobria, que ela podia respirar embaixo d`agua.

Comentários

  1. SEM PALAVRAS...tento de novo quando parar de chorar....só fica o registro que fizeste muita falta nesses dias e que sinto muito pela perda de vocês. Um abraço beeem grande!

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  2. "... a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita..."

    Que lindo!!!

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