Afetos e possibilidades.


Estava distraída quando encontrou.
Sempre fantasiou encontrar algo importante assim, de repente, sem alarde.
Sentada ao lado dele conversavam formalidades. Palavras que preenchiam o espaço vazio daquele percurso do trabalho para casa. O tempo, os políticos, a violência. Isso que se diz quando não se quer dizer nada.
Distraída não percebeu que estava sentada ao lado de uma possibilidade.
Uma possibilidade de amor, era o que ele era, percebeu de súbito.
Mudando,quase como reflexo a postura do corpo, afinal não se senta corcunda ao lado de uma possibilidade de amor,pensou:
Ele que até aquele instante nada significava, tornou-se então uma possibilidade de calor.
Como uma fruta verde que sem aviso, amadurece diante de olhos perplexos.
Para que a possibilidade não amadurecesse rápido demais até apodrecer inteira no banco ao lado, a moça disfarçou o tom da voz, que fina denunciava que agora, assim sem aviso, as palavras haviam ganho, feito magia, um sentido outro.
Com aquele recato que mantinha até o primeiro beijo, até o segundo copo, comentou suave que o dia estava quente, e ela cansada, nada conhecia da cidade, era nova.
Em que lugar poderia fazer uma boa refeição?
No mesmo ritmo desinteressado em que vinham conversando, a frase não ficou saliente, encaixou. E ele prosseguiu, claro, conhecia. Parecia satisfeito em auxiliá-la, conhecia vários.
Um lugar tranquilo, que pudesse ir sozinha, afinal, explicou, era nova e não conhecia ninguém.
O fim da linha se aproximava, após alguns segundos de pausa ele sugeriu companhia.
Estava combinado então, desinteressados se encontrariam à noite para que ele pudesse lhe mostrar a cidade.
Feliz a moça saltou no seu ponto. Ela tinha um encontro para aquela noite, pensou. O que lhe pareceu estranho. Quando acordou naquela manhã nada indicava que à noite sairia para passear com uma possibilidade.
No horário combinado lá estava ele. Ele, que durante aqueles poucos meses nada representou para moça, sempre escondido em suas roupas de trabalho, estava no ponto arrumado para um encontro. Ela, que distraída nunca havia dado importância para sua postura no ônibus de linha, estava ali arrumada para um encontro.
Surpresos, sorriram. E pelo sorriso, notaram, tinham um encontro.
Estava decidido, a partir daquele instante eles tinham um encontro.
Encontro de um homem com uma mulher.
Foi isso que ela pensou quando, já no fim do encontro,ele lhe beijo.
Um beijo de um homem e uma mulher.
Uma noite inteira de afetos e possibilidades.
Enquanto ela havia se mantido cega aquele homem normal do transporte, estava salva.
No entanto ela viu, e por ter visto agora estava condenada.
Olhando para aquela porta aberta descobriu que não poderia mais sair.
Estava preparada para o que viu?
Nunca tinha visto, e então aconteceu.
Não podendo retornar, soube que a porta não poderia mais ser fechada.
E depois de ver, sentiu.
Sentiu todo um mundo novo que se abriu. Tudo que sempre esteve ali e ela não viu.
E agora a salvação lhe seria negada. A possibilidade repentina se apresentou como um algo novo.
Abraçou com força sua possibilidade. E todas as palavras ganharam sentido, mas nada mais precisava ser dito.
Comunicação outra, eles sabiam.
Ela que nunca foi menina, naquela noite, ao encontrar o homem, sorriu para vida com um grande sorriso de mulher.
Desinteressados que estavam, descobriram, que é preciso saber ver, o amor pode estar ao seu lado.

Comentários

  1. A possibilidade de amor está mesmo mais próximo do que imaginamos, mais próximo do que os olhos podem ver, mas que só o coração pode sentir!
    Usando uma frase do livro O Pequeno Príncipe: "... só se pode ver bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos!"

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

É a vida!

Ser.

Árvores Floridas