Políticas Públicas para o Afeto.



Quando se deseja combater a violência, é só de violência que se fala, fato. Pouco se ouve,, no entanto sobre o afeto, capacidade de vínculo e sensibilidade. A violência manifesta se dá por diversos motivos, porém o que se encontra na base de muitos casos é uma grande atrofia afetiva.

Atrofia esta, que faz com que o Outro fique destituído de características humanas, e estando destituído, o outro deixa de ser sujeito e se torna "coisa" apenas.







A capacidade empática, que é a capacidade de me colocar no lugar do outro e imaginar como ele se sente, é um impeditivo do exercício da violência. Se o outro deixa de ser sujeito e vira "coisa" a empatia não se faz necessária. Eu não preciso ser empático com uma cadeira, me preocupar se ela está cansada de sustentar, ou se eu a estou machucando.


No entanto a preocupação com os "afetos" dos profissionais envolvidos no "combate a violência" é muito pouco discutido. Hoje, e talvez sempre, aqueles que trabalham com violências passam por um processo de DESSENSIBILIÇÂO profunda. Para se combater a violência do outro, ocorre um incremento maciço das violências do combatente.

Porque a violência se retro-alimenta. Ou diria, se RETO-ALIMENTA? Em termos de estrutura psíquica a fase anal diz muito "das violências".

Então, quando vamos falar de afetos?

Claro que quem trabalha diretamente exposto as violências acaba, por uma questão de saúde mental, acionando mecanismos de defesa para proteger o Ego do sofrimento. No entanto, com a total ausência de cuidados aos afetos dos profissionais, acaba ocorrendo uma dessensibilização extrema, que cobra um preço alto do individuo, na vida pessoal e social.

Desde que me formei trabalho com policiais militares que buscaram ajuda por problemas afetivos, problemas com suas companheiras e família.
Dessensibilizados que estavam, foram perdendo a capacidade de envolvimento saudável e prazeroso nas suas vidas pessoais.

O estresse do trabalho foi sendo absorvido, aqueles que não sofriam uma dessensibilização extrema apresentavam síndrome do pânico, alcoolismo e ideações suicidas. A psique sempre cobra um preço.

Mas claro,entrar no quartel falando de afeto é pedir para ser ridicularizada. Ninguém quer doer. Na nossa sociedade se paga muito bem para não doer, muitos remédios para não doer, relações superficiais para não doer. Por que um profissional, que tem que se expor a violência e não recebe nenhum apoio social e institucional, vai querer doer?

Respeitando a demanda do sujeito, é preciso aguardar até que dor seja insuportável e então possamos iniciar, em terapia, um processo de sensibilização, de resgate.

Porque a farda gruda, sempre digo isso para meus pacientes quando eles relatam diálogos com suas mulheres. Fica difícil diferenciar se quem está falando é o homem de uma mulher, discutindo a relação, portanto afetos, ou se aquilo é um policial dando uma batida e fazendo averiguações.

Um policial me disse que é possível saber o tempo de um policial na corporação pela simpatia demonstrada. Os novos sorriem, são simpáticos e atenciosos. Um ano depois isso já não existe, estão endurecidos, a farda grudou.

E alguém sabe o que há embaixo desta farda?
A imagem de um centauro.
Quíron o curador ferido, meio homem, meio cavalo.Fantástico!
A imagem do curador ferido diz muito. O homem que faz a opção por uma profissão de combate a violência, proteção e cuidado. No entanto Quíron tem uma ferida e é por causa dela que ele se torna um cuidador. A ferida lhe dá a capacidade empática. Porém se esta ferida não for cuidada, aos invés de cuidar da ferida dos outros, o Quíron irá produzir feridas.
Observem as viaturas, o Centauro está lá.

É preciso falar de afeto, trabalhar a sensibilidade. A pessoa que se dessensibiliza pela violência irá produzir violência.



Os fortes também precisam de cuidados. Os homens violentos também sofrem.
É preciso criar Políticas Públicas do Afeto.
É preciso falar de amor.

Comentários

  1. Olá Andréa,
    Hoje, primeira vez no teu blog e já estou apaixonadaaa!

    Esse post sobre o afeto e o combate a violência demonstrou-me a complexidade de não ‘coisificar’ pessoas – reduzir o humano e o afeto, ou completamente atrofiarmos a capacidade de sentir com o outro ou minimamente respeitá-lo.

    Já estou sua fã – conheci vc no café filosófico em Santa Maria gostei muito, pois Vino e Sofia foi algo como uma ‘meta-referência’ - muitos significados rsrsrsr – Entrei em contato com Albano e Warat ((que privilégio)) e como disse, hoje cheguei ao teu blog...

    Estarei frequentando mais vezes,
    Um abraço
    Denise

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