A fuga do Desejo.


Acordou tarde, meu Desejo
Fez as malas, se alimentou e partiu.
Deixou para trás muitas coisas pelo chão
Um lençol de afeto vibrante, que usava na sua última noite
estava caído ao lado da cadeira.

Quando acordei, o sol já estava alto.
Do meu Desejo encontrei só vestígios.
Migalhas de amor estavam sobre a mesa.
Um copo de vida fresca que ele deixou pela metade.


Abri meus armários e fui conferir o que o Desejo me levara, depois da noite que vivi.
Cansada, naquele dia claro e calmo, percebi, que o Desejo ao partir, deixou vazio meu armário de vestir.


Levou com ele aquele sorriso rosa largo que eu usava nas manhas de domingo.
Um toque delicado, acessório discreto para usar nas noites de festa? Também levou.
O brilho intenso, dos meus olhos escuros, levou todos, não restou nenhum.


Meus beijos coloridos, que guardava em uma caixinha perto das meias dançarinas, levou quase todos, deixou dois apenas.
O beijo noturno das crianças, e o beijo dos cachorrinhos.
As meias? Levou também, agora sei que não poderei mais dançar.


Meus pesados casacos, que usava diariamente nestes dias frios de inverno, o Desejo não deixou nenhum.
De um manto de arrepio brilhoso, que eu usava nas noites de festa, só restou um pouco de brilho no fundo do armário.


Deixou, porém, um longo cobertor de esperança, velho, que eu quase nunca usava, soberana que era até aquele dia.
Um cobertor bonito que cheirava a futuro, e que passei a usar todas as noites antes de dormir.

Depois de abrir todas as portas e janelas da grande casa e ascender todas as luzes, me tapava inteira com meu velho cobertor, e adormecia na esperança, que meu Desejo, traiçoeiro devolvesse o que era meu.

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