Conversas triangulares.





"Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente,


Que a morte não me encontre um dia, solitário sem ter feito o que eu queria."

Albano e Warat.

Enquanto lia teus textos esse trecho da música da Mercedez Sosa ficou girando na minha cabeça.

Confesso que tuas discussões com o Warat sobre o rito de despedida gradual me angustiam um pouco. Não havia me dado conta do porquê, mas no teu último texto, quando essa música veio, descobri.
Poder se defrontar com a finitude assim, com essa clareza e de cabeça erguida é tarefa para poucos. Por que poucos vivem a vida assim, de frente, conscientes. E quando sabemos que ao longo da nossa vida tivemos a coragem de vive-la de forma plena, então podemos realizar a caminhada do elefante com a alma tranquila.
E foi esse ponto que me pegou, "que a morte não me encontre um dia, solitária sem ter feito o que eu queria".
O fim é agora, a todo instante.
E tocou, talvez por isso tenha demorado tanto a te responder, tocou nestas minhas questões, pessoais e muito importantes.
Será que é esse o caminho?
Será que estou sendo corajosa ou me acovardo em desculpas articuladas?
Terei eu coragem de viver e me tornar o que sou?

E outras tantas que não cabem aqui no texto, que ficam para nossas conversas triangulares. Porque só nestas conversas é que quero mostrar isso. Porque é lá, tu sabes, o lugar.
E fora o amor de vocês dois, que adoro assistir.

Um beijo carinhoso.
Continuamos isso em Santa Maria.

Comentários

  1. As coisas, não as palavras

    Que tal pensarmos as coisas sem nomea-las? Sem batiza-las de isto ou aquilo? Deixando apenas que a Palavra aurática manifeste-se em nós, em nossos corpos como suaves ou bruscas vibrações.
    Que tal deixarmos aos sentidos a função de nos revelar o nosso entorno? E, ao mesmo tempo, nos revelar ao entorno, como num desnudamento onde o vestuário dos enunciados, das frases de efeito, das definições prévias, dos neologismos, simplesmente vá se esvaindo, se esmaecendo até que a nudez aconteça sem alardes, como um acontecimento qualquer, banal e previsível?
    Que tal abrirmos nossos corpos sensíveis (normalmente impedidos de sê-los) aos movimentos gestados pelo Cosmos e que o anunciam enquanto luz, enquanto som, enquanto imagens, enquanto sensações térmicas, enquanto cheiros, enquanto sabores? Sem nada nomear, apenas sentir.
    Que tal escancararmos as portas e as janelas de nossas moradas, para que assim possamos nos ver sem as restrições habituais que costumamos antepor ao olhar, ao escutar, ao sentir? Que tal abandonarmos os nossos “voyerismos”, plenos de apreensões clandestinas das intimidades do outro, para tão somente olharmos e nos deixarmos olhar? Diria o poeta Roberto Carlos: “janelas e portas vão se abrir, pra ver você chegar”, pensando no exílio de Caetano Veloso. Não precisamos tão somente abrir portas e janelas para quando o exilado chegar, pois exilados somos todos nós, de nós próprios e dos outros, trancafiados que estamos nas quatro paredes de nossos egos.
    Que tal reaprendermos o uso da Palavra que é elaborada “poieticamente”, num fazer-se que envolva cada momento do existir, quando o gesto aconteceria como se fosse único e derradeiro e irrepetível?
    Que tal elaborarmos as perguntas sem a angústia das respostas esperadas ansiosamente? Lembremo-nos que as perguntas já trazem consigo as respostas previsíveis.
    Que tal perguntarmos tão somente? Porque viver já é por si mesmo um permanente espantar-se. Recuperemos nossa capacidade do encantamento. Perguntas prenhes de respostas gestam des-encantamentos.

    ResponderExcluir
  2. Usando o espaço amigo da Andréa:
    Marjorie,
    Sempre uma espiadinha, desde que da primeira descoberta (a espiadinha), aconteça a segunda: expor-se, desnudar-se, entregar-se.
    bjos

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Árvores Floridas

Ser.

É a vida!