O resgate do invisível.


Para Albano e Warat,


Tenho o hábito de adquirir livros e guarda-los. Acredito que cada livro tem seu tempo certo. Nas minhas prateleiras, permanecem enfileirados esperando o momento exato de serem descobertos. Repousam, meus livros, ao lado das minhas bonecas de porcelana, e do meu bule centenário.
Alguns levo para o consultório, os menos interessantes,confesso. Aqueles que irão preencher meu tempo,entre um consulta e outra, com textos rápidos e fáceis.
Neste sábado resolvi dar uma lida em um livro grande e pesado, que ganhei de aniversário e nunca havia prestado atenção.
Do paciente resistente, que não chegava, fui surpreendida pelo livro esquecido. "Os cem melhores contos brasileiros do século". Os contos estavam divididos por períodos, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu estavam lá, claro. Fiquei pulando entre seus contos, negando os demais autores. Autores também tem seu momento certo, de serem lidos e sentidos. Porque, as vezes, a gente lê, compreende, mas não sente. Leitura vazia.

Um pouco antes de terminar o dia, os apontamentos de Warat e Albano retornaram. Movimento delicado e atento ao tecermos nossa escrita.
A divisão dos contos por períodos, e as semelhanças entre os textos de Clarice e Caio, a fala de Albano sobre a denúncia do "sofrido, o silenciado, o esquecido", o encontro de minha sensibilidade com a sensibilidade de Warat, tudo isso, misturado tocou nos meus desejos e motivações inconscientes da minha escrita.
Afinal, o que busco ao escrever? A serviço de que isto ocorre?
Nesta época agitada, barulhenta e confusa, sinto o frágil e delicado escorrer entre os dedos. Antes isso acabava em ressentimento, hoje escrevo. Mas para isso preciso fechar os olhos, ficar às cegas para o exterior, só então consigo olhar para dentro.
A imagem do velho sábio, então surgiu entre meus pensamentos. Os mitos estão carregados desta imagem. Édipo, talvez o mais famoso deles,ilustra bem este movimento.
Quando escrevo tento resgatar, ou denunciar, o negligenciado. Sons, aromas, toques. Todas essas coisas pequenas e essenciais que compõe nossos dias, e que o barulho da vida moderna acaba silenciando.
Quanto mais escrevo, mais atenta me torno. Estou ficando extremamente sensível a velocidade e ruídos.
Um resgate dos sentidos. Essa natureza rica e colorida que estamos negando as nossas crianças, atoladas de compromissos, remédios e necessidades de eficiência.
Clarice e Caio fazem esse resgate, com urgência e intensidade. Seus textos me acordaram para este mundo invisível, mundo primeiro.
Sentir de olhos fechados, estancando o ruído. Não por acaso, os pescadores de peixinhos roxos fazem a descida, solitários. Mas temos a felicidade, de no caminho encontrar alguns raros e corajosos mergulhadores.
Como diz Caio, "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra".

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