domingo, 30 de agosto de 2009

Amores desmedidos.

Sexta-feira foi uma noite especial. O evento organizado de última hora, serviu para marcar um encontro intuido...
Faz pouco tempo que eu, Warat e Albano nos conhecemos virtualmente, na sexta materializamos este encontro, que ainda estou aqui metabolizado.
Sou lenta para elaborar em palavras, intensidades.
A conversa transcorreu vibrante até o momento do Café Surrealista.
Nosso tema ?
Amores desmedidos.
Eu adorei este tema, achei empolgante pensar sobre. Porque sentir, se você tiver sorte, já sentiu. Mas pensar e falar sobre um tema assim é difícil, escapa a razão. Então falar sobre esse tema é empolgante,e não poderia ser diferente do que foi. A noite foi uma construção, dialogando, eu, Albano e Warat, junto com o grupo que estava lá reunido tecemos uma apresentação sobre o amor e a paixão.
O que fica rico neste tipo de evento é que tanto quem vai falar sobre, quanto aqueles que vão ouvir e dialogar não chegam com idéias prontas e fechadas. Quanto mais entramos no assunto, mais possibilidades se abrem, interrogações,descobertas.

Sai de Santa Maria cheia de idéias para pensar, possibilidades,caminhos.
Especial poder conhecer,ver e ouvir essa dupla, Warat e Albano.
Eles são ótimos juntos, são ótimos separados.
Mentes vibrantes.
E eu uma privilegiada, ouvindo, aprendendo,construindo com ricos interlocutores.
Afetos intuidos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Paris ou New Orleans?


Telhados De Paris

Nei Lisboa

Venta
Ali se vê
Onde o arvoredo inventa um ballet
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado e mais parece outro país
Que me estranha mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
O tempo se foi

Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
E de versos retos, corretos
O resto da paixão, reguei
Vai servir pra nós
O doce da loucura é teu, é meu
Pra usar à sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, são doidos por ti

Alerta.



E isso é o pior que você pode fazer
É o pior, pode acreditar.
Despertar esse meu lado, o mais escuro, essa face de raiva que você não reconheceria.
Acredite, muitas vezes você chegou bem perto de conhecer.
Depois respiro e penso que você não vale a pena. Não vale muito.Quase nada.
É porque todo dia dou polimento as minhas lanças, brilho ao meu escudo, e tudo fica exatamente ali.
E quando eu mostro, quando abaixo as armas e deixo entrar, surge junto do mais bonito que mostro essa ira profunda e todo meu ressentimento.
E vou mostrando devagar, deixo sempre ao lado minha raiva de prontidão.
Veja, toque, cheire, tudo com muito cuidado. Esse é o meu melhor.
E se meu melhor nada te disser, e se meu melhor não te tocar, recue com cuidado, pois minha raiva avança.
Vai descobrir, quando puder ver, que não preciso de você. E que se você entrou foi por escolha e não por desespero.
E tudo que guardo sob meu escudo e armas são cristais delicados e frágeis.
Mantenho a lança sobre tua cabeça,ande devagar com as mãos para cima e toque com cuidado que isso, quando quebra, fere fundo.

Garganta.


Eu falei, eu falei tudo que estava aqui trancado na garganta, havia tempo.
E falei, falei bem alto, gritei.
E você que estava indo, voltou.
E quando vi teus olhos sérios
Tapei os ouvidos com força, com medo, com dor.
E me encolhi.
E me fechei todinha, me fechei inteira
De medo, de angustia, temor.


Pra não ouvir o que sabia.
Para não materializar meu desespero
Nas palavras duras que vi nascer da tua língua, da tua boca, da tua ira.
E teu ódio foi tão alto que me atingiu inteira.
E minha dor foi tão grande que quebrei pra sempre.

Beheregaray.

domingo, 23 de agosto de 2009

ÓH GABRIEL.

O teu fica bem longe da porta...e, por ordem, não se fala mais nisso.

O mundo está ao contrário e ninguém reparou.

O fato é que trabalhar, mesmo que pouco tempo, nos presídios me marcou.
Depois de comunicar minha saída, sai correndo de lá e estou correndo até hoje.
Acho que captei e acumulei o desejo de liberdade daquela gente. Aquele ambiente, aquela vida e aqueles muros geram uma angustia louca, falta de ar.Um desejo de liberdade.
Eu adoeci, três semanas com a imunidade baixa. Deixei no meio da rua minha mala,com todas as minhas roupas dentro e meu laptop novinho. Esqueci, assim, sem explicação. Bati meu carro. Tudo isso em uma semana. No dia em que deixei a mala no meio da rua, no momento em que constatei isso tomei a decisão de não ir mais ao presídio.
Recapitulando, no dia em que todas essas coisas aconteceram eu tinha assistido uma cena no lugar que eu estava trabalhando. Entrei em um pavilhão no momento em que três presos também entravam. Dois estavam visivelmente com dor, muita dor e o outro oferecia o ombro para amparar-los. Na entrada os agentes atarefados indicaram o local para os presos aguardar. Uma van aguardava na porta para conduzi-los ao hospital. Eu meio aquilo, perplexa, perguntei o que havia acontecido, um agente respondeu alto já comentando com o motorista:
_Um está com dor para respirar e o outro apanhou. Tiroteou com os homens (policia) e os caras disseram que pegaram e deram, deram mesmo.
_Tem que dar mesmo, filhas da puta, não tinha nem que levar no hospital. O cara que ele matou não vai poder ir para o hospital.
E seguiram nessa linha.Quando estou assustada arregalo meus olhos.Meus olhos que já são grandes ficam enormes. O cara que havia apanhado da policia, passou por mim emitindo sons baixos de dor e me olhava. O preso que não pode falar tem nos olhos um grande instrumento de comunicação. E ele me olhava.
E o que tocou foi todos aqueles homens que estavam em volta alheios a violência e a dor daquele homem. A normatização daquilo. Normalização! Existe essa palavra?Eu não sei se existe, mas o que me choca é essa calma, e acreditar que isso é natural e necessário.
Não tem discurso ou explicação que me faça ficar imune e achar simples ver alguém naquele estado. Não interessa o que ele fez,ele está ali preso, pagando e ponto. Se eu acredito que posso agredir e violar o outro porque ele é um criminoso, um vagabundo então eu também sou. Porque em termos psíquicos a violência é a mesma. E isso eu não tolero eu não tenho estômago, adoeço.
E neste dia sai de lá direto para Santa Cruz. Levei comigo aquele olhar. E tudo o que escrevi aconteceu.
Aquela música do Nando Reis "O mundo está ao contrário e ninguém reparou..."
As pessoas são burras, muito burras. Ela acreditam e autorizam, através do discurso social que os presos sejam mantidos e tratados de forma absurda. Porque afinal é tudo vagabundo e tem que morrer. Burras porque essas pessoas não morrem e depois de terem sua violência incrementada, depois de serem brutalizados eles acabam saindo, fato. A sociedade carrega a arma da violência e aponta para si. A prisão é isso, potencializar a embrutecer homens. O que temem é o que acabam gerando. A prisão é esse grande lugar autorizado socialmente para o exercício da perversão.
Toda violência me choca, seja de que lado venha.

O RETRATO DA MULHER MODERNA.


sábado, 22 de agosto de 2009

Eros feiticeiro.



Eros feiticeiro, usa muito disfarces
flechas coloridas que atingem o centro
de vítimas distraídas.

Eros fascinante
não conhecia o seu veneno
até ser por ele tocado

E Eros vem dar sentido
Vaga o amor e o Pathos, perdidos
Em busca de Psiquê.

É longa e densa a jornada
Eros e Psiquê em diferentes estradas.
Não podem se encontrar

É preciso cumprir a promessa
A prova de Afrodite
Seguem guiados, sozinhos,na certeza do encontro.

As dúvidas, irmãs traiçoeiras
fazem tremer a Alma
Invejam o raro enlace
perturbam a caminhada.

Mas Eros tão poderoso
Sozinho não pode vagar
Pois com o tempo esvazia, deprime
Psiquê precisa encontrar.

Não deixem Eros sozinho-
Reza Psiquê em sua solidão-
Que Eros é o caminho
dos segredos do coração

Psiquê já tão esquecida
Sem Eros não pode viver
é terra, é ar, é vida
Sem ele,não pode mais Ser.

Humanos, tolos, ignorantes
Exaltam um Eros vazio
Que Eros sem Psiquê não sente
é lembrança, é sonho, solidão

Não tema o feitiço de Eros
Não tema a riqueza da Alma
Não tema, que Pathos se vinga

Assuma o risco desta viagem
Que Eros sem Psiquê é tristeza
E a Alma sem amor não pode ficar.

Destino,sentido, amor e êxtase,
É na jornada de Eros e Psiquê que você vai encontrar.

Andréa Beheregaray

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

La flor de mi deseo está muerta


La flor de mi deseo está muerta


Mi mujer idealizada,la flor de mi deseo la mujer que por tantos anos habito mi reserva salvaje ,hoy esta muerta en un sofa ,con esa serenidad de lo inaxcesible y de lo hinabitable ,solo con una flor en la mano,que alguno de mis deseos persistentes deposito en su cuerpo desnudo de amor ya sin vida


Postado por Luis Alberto Warat às 07:00

Doente entre as delícias


"De todos os males o meu é diferente;

porque me agrada;

me faz alegrar-me;

o meu mal é o que eu quero e a minha dor é a minha salvação.

Não vejo portanto, de que me deveria queixar, pois meu mal decorre da minha vontade.

é o meu querer que se torna o meu mal;

mas experimento tanto prazer em querer deste modo, que sofro com gosto,

e há tanta alegria na minha dor que estou doente entre as delícias."


Chrétien de Troyes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Cabeça de Ovo.




Seu maior desejo é subir na vida, Cabeça de ovo?

Não, realmente não me surpreende. Me surpreenderia se você me dissesse que gostaria de expandir,colorir, descobrir, reinventar, de SER vida.
Mas claro, sujeitos como você enchem o peito de orgulho e escancaram os dentes tortos para dizer que batalham muito para subir na vida.
Louvável.
Curiosidade, subir pra onde Cabeça de Ovo?
Pra onde você pensa em subir?
Você já experimentou descer na vida?
Esses, que você tenta imitar, os privilegiados cognitivamente, adoram descer na vida. Porque as vezes o melhor é mais embaixo.
Não chego a ficar decepcionada com seu grande objetivo de vida. Afinal, você é o retrato do homem médio, suburbano e medíocre, que lê jornais e fornica aos finais de semana.
Você lê jornais e fornica nos finais de semana, não é mesmo?
Você não sabe como eu sei? Previsível.
Você e sua patroa.Patroa essa que você considera uma mulher de “valores”, e tem escondido nas ancas todas as frustrações pelas suas infidelidades.
Pois, obviamente, homem médio que valha tem que ter, além do desejo de subir na vida, uma senhora de valor e uma amante despudorada. Despudorada, mas não a ponto de ameaçar seus planos de sucesso e de sua patroa.
Enquanto uma lhe enche de valores e comida, a outra lhe enche de prazeres. Satisfeito, você acredita que está perto da felicidade.
Bom churrasco com a família, limpe o nariz das crianças e proteja-se da perigosa gripe que nos ronda.

Eu não vou mais lhe escrever.
Você me enjoa.


Imagem: Marina Faria

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cabeça de Ovo.


Cabeça de ovo.


Você diz que não sabe o motivo de tanto silêncio. Fica repetindo isso sem parar, como se a repetição pudesse lhe trazer conhecimento. Não traz.

Você não entende isso porque é burro. Notei isso desde o início. Melhor seria lhe chamar de cabeça de alfinete.

Esse silêncio, que só quebro quando te escrevo, vem do profundo espanto que tua ignorância me causa. Mas o que me cala mesmo perplexa, é sua forma desesperada de mascarar sua falta de inteligência, com essa soberba infantil. Diante disto só me resta o silêncio.

Ignorância não é defeito, é condição. Você é que na sua rala comunicação de neurônios, confunde falta de inteligência com origem.

Como se sua origem humilde também fosse um defeito.
Definitivamente você é a pessoa mais tosca que conheço.
Talvez meu silêncio seja símbolo desta falta infinita que tua ausência me causa...
Não entendeu? Claro, sempre esqueço que sua capacidade de abstração é nula.
Mas não vou falar de uma forma que você entenda, afinal adoro ver você com aquela cara confusa, tentando disfarçar sua burrice.
Sempre faço isso quando quero que você cale a boca.


E você constrangido não ousa continuar o assunto, para não denunciar sua absoluta incompreensão sobre o tema.
Talvez eu leve a vida toda para entender porque eu amo um idiota.
Você é um tremendo idiota Cabeça de ovo!
Queria que você fosse espancado e ficasse caído no chão. eu passaria por você, e tocaria sal nas suas feridas. Talvez assim, de uma forma bem concreta, você mesmo nesta infinita ignorância, entendesse a falta que você me faz.


Com amor do seu peixinho.

domingo, 16 de agosto de 2009

águas escuras


E eu que nem mesmo sou fascinante
vivo de vésperas
vida suspensa


E eu que sou uma afogada
vejo luzes que não existem
mãos que quase salvam
quase tocam
mas nunca alcançam


E eu que estou cansada
de tantas expectativas
queria muito...desistir
mergulhar no escuro denso destas águas
ouvindo a voz do grande amor que nunca veio.

Urgências


Presa no teu abraço
E essa falta de ar
E essa falta de laço
É difícil seguir em frente quando não se tem mais nada
É difícil amanhecer de mãos vazias
Ausência
Os dias tem sido longos
Não sei como terminar um amor assim,
Tenho urgência do teu corpo
Ele me dá vida
me dá forma.
Que dom é este que esconde teu toque?
Que gosto de infinito é este que carregas no teu beijo?
Sinto tua falta.
Não sei te transformar em passado.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009



Cabeça de ovo,

Você é medíocre, sempre tentando parecer o que não é.

Todas aquelas bobagens sobre vinhos, relógios e carros que você usa para impressionar. Usa tudo de uma só vez e isso diz muito de você, cabeça de ovo. 
Das suas frustrações. Você é sempre tão bobo.

Queria que você caísse em um buraco, você e suas histórias ridículas. Você seus relógios falsificados e seu vinho barato. Fique por lá uns meses e não me aborreça com esse falatório idiota.

Fique por lá e perceba, quando seu relógio inútil parar de contar o tempo e seu vinho estiver azedo, o quanto seu bom gosto é vazio e não pode lhe tirar dos buracos.

Você não gosta que eu lhe diga essas coisas, eu sei, mas você sabe fico feliz se você está triste.

Cabeça de ovo, você me dá muito trabalho e isso me deixa aborrecida.

É sempre trabalhoso odiar quem se ama. Todos os dias acordo e repasso seus infinitos defeitos, e isso eu não te perdoo.

Cabeça de ovo, fique quieto. Você me impressiona muito quando faz silêncio e se mantém despido.

Se você não cair no buraco, espero, sinceramente, que quebre uma perna, ou que uma verruga imensa nasça na sua pálpebra e lhe impeça de abrir completamente o olho. Seria engraçado!

Saudades todos os dias,
Do seu peixinho.

Sartre e Simone de Beauvoir.



Ontem acabei de ler Tête-à-Tête, o livro de Sartre e Beauvoir. Fazia muito tempo que um livro não me "capturava". Achei a história toda bem interessante.

Várias coisas chamaram minha atenção, simpatizei mais com Simone e achei Sartre um pequeno sedutor neurótico, incestuoso. O que não tira seu brilho, claro, mas Simone estava mais congruente com aquilo que escrevia e aquilo que praticava na vida.

Sartre fala abertamente sobre suas fantasias incestuosas com a mãe e o ódio que tinha do padrasto. Sempre se sentiu muito feio e inadequado e passou a vida conquistando as mulheres como uma forma de compensar isto:

"(...)mais tarde na vida, eu ter idiotamente desperdiçado o meu latim dizendo bobagens doces- só para provar a mim mesmo que sabia falar com as mulheres".

Outra frase interessante retrata as consequências disso e de suas fantasias incestuosas:

"Eu voltava de um encontro, a boca seca, os músculos faciais duros de tanto sorrir, a voz ainda pingando mel e o coração cheio de (...)nojo."

Algo que me pareceu extremamente contraditório com o que Sartre pregava, foi o fato de chegar ao fim da vida com nove mulheres. Sim nove! O contraditório nisso é que, tirando Simone, as demais eram todas dependentes financeiramente de Sartre, e emocionalmente também. Normalmente as suas mulheres eram frágeis e, tirando Simone e a russa, nenhuma era brilhante intelectualmente e fracassaram na vida profissional.

O ponto é que Sartre fazia questão de sustenta-las e as mantinha infantilizadas e dependentes, nada livres portanto. Elas eram exatamente o oposto do que Simone acreditava que deveria ser uma mulher livre. Isto talvez ocorresse porque Sartre sentia-se culpado em relação a elas, outra contradição, mas também porque ele necessitava desesperadamente de atenção feminina. Fiquei com a impressão de que ele nunca superou seu complexo de feiura.

Já Simone lutava contra suas contradições de forma mais consciente. No inicio da sua vida fez um grande esforço para viver de acordo com que acreditava. Sobre os tabus sexuais declarou: "eu ainda não me emancipara de todos os tabus sexuais. A promiscuidade da mulher me chocava".

O que eu não gostei muito é que me pareceu que ela fez um grande esforço no relacionamento com Sartre já ele não. Ela gravitava em torno dele, terrível para uma feminista. Já ele gravitava em torno das ideias e ela era seu suporte.

É realmente engraçado como todos precisam de algo FORTE para seguir, muitos buscam DEUS, os intelectuais fazem movimento semelhante, colocam no lugar de Deus uma teoria, ou um autor.Então se fecham, crêem naquilo e não aceitam questionamentos. Tudo que estiver contra é excomungado e afastado,não há espaço para dúvida e para critica.

Foi assim com Sartre, foi assim com Freud, foi assim com Jung. Rebanhos cegos. Pensem como eu ou afastem-se.

Bom,mas não fiquem com a impressão que não gosto do vesguinho (ia escrever Sartre,juro, mas vesguinho saiu tão naturalmente que vou manter).Acho ele genial, e valorizo a crueza com que ele se pensava. Era corajoso, sem dúvida.

Me decepcionei um pouco com a relação aberta deles. Eu acredito nos relacionamentos abertos,acho eles fantásticos pois contém a maior fidelidade que um casal pode ter, a fidelidade na verdade do que são. Mas acredito também que contar detalhes sobre os "relacionamento contingentes" é absolutamente desnecessário, perverso. A não ser claro que faça parte de uma fantasia do casal, que acho, era o caso dos dois. Os relacionamentos contingentes eram quase "experiências" intencionais para depois terem material para suas teorias e livros.

Mas enfim, gostei. Admiro todos aqueles que assumem suas vidas, se queimam por isso e mesmo assim optam por não se esconder. Acho bravo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009


Cabeça de ovo,


há dois dias tenho visto seu rosto nas ruas, e isto tem me deixado cada vez mais ressentida.

Tenho muita raiva de você e desejo que você sofra, muito.


Com saudades e um cheiro.


Simone de Beauvoir


"Eu gostaria muito de ter o direito, eu também, de ser simples e muito fraca, de ser mulher."

"Sou muito inteligente, muito exigente e muito engenhosa para alguém ser capaz de se encarregar completamente de mim. Ninguém me conhece nem me ama completamente. Só tenho a mim."

Simone de Beauvoir, em seu diário.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O TREM DOS 30.


Reclamações, temores, insegurança, pressão.
Tudo isso sofrem as mulheres que embarcam no vagão dos 30 anos.
Todas nós sabemos em que direção vai esse trem sem volta, 30,40,50...
A tensão é tanta que muitas de nós perdemos a oportunidade de apreciar a viagem. Caímos na cilada da perfeição.
A maioria espera que nesta época estejamos encaminhadas profissionalmente. E que afetivamente a gente já tenha algo encaminhado, ou algum bom sujeito em vista.
Afinal, após cruzar a marca dos 30 o trem parece acelerar terrivelmente.
E os filhos? Pânico neste item para aquelas que ainda não deram ao mundo uma contribuição permanente.
Mas onde foi parar o prazer da trajetória?
São muitos, penso.
Nascemos inconscientes do que somos e do nosso corpo.Na medida que crescemos e a vida vai nos lapidando vamos acordando devagar, tomando consciência que nos cerca e do que nos constitui.
Precisamos ir tomando posse do nosso corpo. Os 30 são marcantes nesse sentido. Quando olhamos para a menininha que éramos aos 19,20 anos, percebemos.
Estamos,aos 30, mais conscientes dos nossos desejos,movimentos e prazeres. E isso deveria libertar uma mulher, mas ao contrário, as passageiras deste trem estão cada vez mais aprisionadas. Seguem em busca do corpo perfeito, plástico e moldado para agradar o outro e negligeciam os sentidos, alimento de Eros.
Esse despertar dos sentidos caminha de mãos dadas com o amadurecimento intelectual.
Quando entramos no trem dos 30, profissionalmente as dúvidas diminuíram dramaticamente, se tudo estiver bem temos pelo menos um norte.
Emocionalmente, já caímos em mãos erradas o suficiente. Caímos nas mãos, e no corpo inteiro,de homens bobos, imaturos, cafajestes, perversos, com medo de amar e outros tipos. E isso é fantástico!!
Essas desgraças amorosas (ou desgraçados,hehe), são muito menos frequentes depois dos 30, e tendem a diminuir cada vez mais.
Não porque os homens melhorem, mas porque se tivermos o mínimo de neurônios, ficamos mais espertas, com mais auto-estima(verdadeiro remédio contra esses sujeitos).Já sabemos o que NÃO serve, já abandonamos a fantasia de Cinderela, e descobrimos que tem muito sapo encantado por ai e muito príncipe fajuto.
E os filhos?
Adote, tá cheio de criança precisando de amor neste mundo, inseminação artificial, ou faça um com seu melhor amigo.Quer melhor pai para seu filho que seu melhor amigo?
Deveríamos chegar aos 30 e rumar para os 40 bem menos ansiosas. Deveríamos estar neste trem de cabeça erguida, com menos amarras internas. O trem dos 30 ruma para liberdade.O trem dos 30 é para quem tem coragem.
Mas quem não tem coragem, que vá para o fundo do vagão, que vá para academia, que espere na estação o príncipe, ou faça um filho com o primeiro idiota que encontrar.
Que perca a viagem, mas se embarcar que não sente ao meu lado, pois não gosto de lamurias e quero sentar na janela, curtir a viagem e rumar pela vida de cabeça erguida.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Amor e tirania

Cada um de nós leva um tirano dentro de si.
Somos feito de tirania e amor. Essas coisas todas que nos compõe, irão se manifestar, ou não, ao longo da vida.
No processo de auto-conhecimento os confrontos com lados obscuros são inevitáveis. E esse confronto não se dá só com coisas, aparentemente ruins. Há alguns anos atendendo policiais percebi que eles, por terem seu lado sombrio estampado, sem possibilidade de negação, traçam um processo terapêutico interessante. Lentamente resgatamos partes luminosas e positivas que eles viram ser soterrados pelo exercício do ofício.
Na grande maioria das vezes ocorre ao contrário, o paciente chega acreditando que tudo de ruim está fora dele, que os outros são os grandes tiranos. Chegam colados na velha máxima de Sartre, "O inferno são os outros".
A conscientização dos nossos aspectos sombrios e inconsciente tem profundo impacto pessoal e social.
Quando comecei esse confronto, de forma consciente e muitas vezes, na maioria, contra minha vontade, fui descobrindo a grande tirana que se escondia dentro de mim.
Não é fácil, sempre digo e repito que se não fosse meu lado bom, estaria "ralada", pois meu lado mau é bem feio.
Tento clareza disto, mas nem tanta a ponto de enlouquecer, já que o extremo da consciência é a loucura, da mesma forma que seu oposto, a conscientização do que Carl G. Jung chamou de sombra pode ser libertador.
Libertador porque nos redimimos do nosso narcisismo, fazendo isso ficamos mais humildes, entendemos e sentimos a frase do "sei que nada sei". Outra conquista nesta libertação é parar de falar da vida do outro, de se preocupar com ela.
O que o outro faz já não é tão espantoso, porque no fundo já sabemos que, talvez, no lugar do outro também fizéssemos. A velha história de tocar pedra no telhado do vizinho quando o nosso é de vidro.
Faz tempo me espanto cada vez menos, outra frase "Nada que é humano me surpreende", vem dai, do confronto com as sombras. Só não se surpreende quem já fez a descida aos seus abismos. E isso é muito libertador! Não ter condições de julgar alguém é libertador, nos libera para sermos o que somos.
Isso não quer dizer que vale tudo. Se o sujeito quiser, vale, claro.
Quer dizer apenas que somos seres imorais, que precisamos construir nossas posições diante da vida e que não existe um certo e um errado. Que fazemos opções morais, fruto de grande esforço mental e emocional, e ao fazer a escolha descobrimos que dentro de nós existem opções. Eu não sou o "bem", eu escolho fazê-lo porque sei que dentro de mim existe algo que poderia cair do outro lado.
As vezes é assustador encontrar dentro de si o mal, a perversão, a inveja, o desejo de morte. Mas isso nos diz que somos apenas humanos.
Hoje eu não acredito em gente feliz, fato. E o mal extremo, assim como o bem extremo são raros. Não acredito em gente BEM resolvida, até porque os BEM resolvidos são um saco. Morram então, já se resolveram, acabou. Os do topo, com sucesso, os generosos e idolatrados...aiaiai. Tenho o péssimo hábito de procurar a falha, o defeito.
Não porque eu seja uma pessimista, ao contrário o grande efeito vem do DEFEITO. Quando a minha vida está linear, rosa e redonda é um horror, não produzo nada que preste. Trato logo de causar tumulto.
E busco o "d-efeito" pois só consigo me relacionar com pessoas em que acredite, e eu acredito no que tem problemas, que são mal resolvidos, nos infiéis, nos que sofrem. Estes, para mim, são REAIS.
Não quero me relacionar com semi-deuses.
Nessa caminhada de auto-conhecimento, coragem e confrontos vamos criando laços reais, com pessoas falhas e, por isso ricas.
Não precisamos alardear nossa sombra, mostramos para alguns poucos, aqueles que no encontro, reconhecemos.
Posso não concordar com suas falhas, posso escolher não exerce-las, mas admiro profundamente todos aqueles que tem coragem de assumir o que são.
Tornar-te quem tu és (está escrito na entrada do templo de Apolo) é a grande jornada da vida.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Memórias de algum janeiro.


De tudo restou tão pouco.
E aos poucos vai se apagando.
na névoa espessa da memória,
o prazer de outrora.
*
Do pouco, uma intensa marca.
a lembrança salgada, do teu gosto
a presença doce, do teu cheiro.
o entorpecimento do teu olhar.
*
E este tanto que me deixas-te
É neste pouco que vou buscar-te
lugar de encontro.
*
E deste encontro,
feito de suor e gozo
é que te sinto.
Intensamente.
Beheregaray



Do armário, de 2000 e alguma coisa.


Desculpa,desculpa,desculpa!
Não coloquei expectativas sobre nós dois
Coloquei paixão
E achei que isso bastava.
Achei que tuas mãos eram delicadas
E que não me tornaria um peso para ti.
Porque meu afeto é leve
E sendo leve, pensei que poderia levá-lo contigo.
Mas te assustou
Ao te assustar deixo cair este sentimento delicado,
que te dedico.
Não importa, porque não pedi que o carregasse como um fardo.
Queria que te acompanhasse, apenas,
como o vento.
E que nas noites de solidão uma brisa leve pudesse te envolver.
Te esquentar.
Saberias então, que o que te toca é meu desejo,
que nada vem cobrar.
Que apenas quer estar.
O meu amor.

Uma perda


"Se" tranquilo
Que o que não foi está morto,
E o que morreu não sente.

"Se" feliz
Porque o que partiu tá ido,
E o que ficou, partido.

"Se" vadia
O grito, a boca.
A cabeça louca e o sentimento ausente.

"Se" inteiro
Porque se não for,
Já era!
Beheregaray-2007

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O que querem os juízes?


Nessa passagem relâmpago pelo sistema penitenciário gaúcho, fiquei me perguntando: o que querem os juízes quando solicitam um parecer psicológico???
Não sabem eles que o tratamento penal não existe?
Não sabem eles que a ressocialização é um mito? Palavrinha inventada para fazer de conta que o ESTADO faz algo, que alguém se importa.
Não sabem eles que se alguém sair melhor do que entrou no presídio, esse alguém não é um caso para psicologia? É um caso para Parapsicologia, pois esse sujeito certamente é um fenômeno, ou assunto religioso, pois pode se tratar de um milagre!
O que querem os juízes com este faz de conta?
Recebendo ajuda da psicologia para sustentar esse faz de conta em um sistema falido!
Perguntam se o preso está em condições de retornar para o convívio social. Mas como? Alguém me explique, como um sujeito que comete um delito, poderá sair "melhor" de um lugar onde não trabalha, passa o dia ocioso, socado em um buraco frio e podre, superlotado, como?? Como isso? Porque eu não entendo!!

Mas o que mais me indigna é nesses espaços perversos,
A PSICOLOGIA É A GRANDE PUTINHA BARATA À SERVIÇO DO DIREITO! SE PROSTITUI POR UM TROCADO.

Armas escondidas.



Tinha a natureza de um cavalo indócil.

Ela que nunca presenciou suas explosões, pressentia sua natureza violenta. Ele não sabia, mas toda vez que um ponto sensível era tocado, seu rosto se transformava de forma sutil, denunciando seus ódios. Possuía um daqueles ódios afiados, que rasgam.
Sempre havia o risco de ser atingida, ela sabia.
A violência era clara, mas de uma forma estranha isso não a perturbava. Ela que sempre foi de uma natureza ácida, de um jeito que não compreendia, nesse encontro, era tocada no seu mais doce.
Ele podia, sem saber, criar níveis altíssimos de tensão, e mesmo assim ela sorria, imperturbável.
Caminhava com ele na linha do medo, mas não caia. E ficava mais calma e doce toda vez que ele lhe dizia. Mas não tão doce a ponto de ser atingida. Não tão doce.
Circulava em sua volta, como quem caminha de véu, no escuro da noite, de olhos abertos.
Talvez porque dentro dela guardava, em silêncio, a mesma violência, que nele escapava. E com essa violência, ao longo dos dias, havia levantado muros altos em sua volta.
Talvez não fosse verdade, talvez tenham sido forjados na mesma dor. E por isso não temia aquela violência antiga, que reconhecia. Essa calma estranha, de estar de frente, sem medo por não precisar. Por não precisarem um do outro, existiam.
A natureza dele se agitava sempre que algo ameaçava tocar, sabia.
A distância segura desdobrava os dias. E calma, mantinha as unhas afiadas. Desmontou os muros, mas nunca se livraria das garras que eram suas armas escondidas. Como um urso, doce.

O resgate do invisível.


Para Albano e Warat,


Tenho o hábito de adquirir livros e guarda-los. Acredito que cada livro tem seu tempo certo. Nas minhas prateleiras, permanecem enfileirados esperando o momento exato de serem descobertos. Repousam, meus livros, ao lado das minhas bonecas de porcelana, e do meu bule centenário.
Alguns levo para o consultório, os menos interessantes,confesso. Aqueles que irão preencher meu tempo,entre um consulta e outra, com textos rápidos e fáceis.
Neste sábado resolvi dar uma lida em um livro grande e pesado, que ganhei de aniversário e nunca havia prestado atenção.
Do paciente resistente, que não chegava, fui surpreendida pelo livro esquecido. "Os cem melhores contos brasileiros do século". Os contos estavam divididos por períodos, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu estavam lá, claro. Fiquei pulando entre seus contos, negando os demais autores. Autores também tem seu momento certo, de serem lidos e sentidos. Porque, as vezes, a gente lê, compreende, mas não sente. Leitura vazia.

Um pouco antes de terminar o dia, os apontamentos de Warat e Albano retornaram. Movimento delicado e atento ao tecermos nossa escrita.
A divisão dos contos por períodos, e as semelhanças entre os textos de Clarice e Caio, a fala de Albano sobre a denúncia do "sofrido, o silenciado, o esquecido", o encontro de minha sensibilidade com a sensibilidade de Warat, tudo isso, misturado tocou nos meus desejos e motivações inconscientes da minha escrita.
Afinal, o que busco ao escrever? A serviço de que isto ocorre?
Nesta época agitada, barulhenta e confusa, sinto o frágil e delicado escorrer entre os dedos. Antes isso acabava em ressentimento, hoje escrevo. Mas para isso preciso fechar os olhos, ficar às cegas para o exterior, só então consigo olhar para dentro.
A imagem do velho sábio, então surgiu entre meus pensamentos. Os mitos estão carregados desta imagem. Édipo, talvez o mais famoso deles,ilustra bem este movimento.
Quando escrevo tento resgatar, ou denunciar, o negligenciado. Sons, aromas, toques. Todas essas coisas pequenas e essenciais que compõe nossos dias, e que o barulho da vida moderna acaba silenciando.
Quanto mais escrevo, mais atenta me torno. Estou ficando extremamente sensível a velocidade e ruídos.
Um resgate dos sentidos. Essa natureza rica e colorida que estamos negando as nossas crianças, atoladas de compromissos, remédios e necessidades de eficiência.
Clarice e Caio fazem esse resgate, com urgência e intensidade. Seus textos me acordaram para este mundo invisível, mundo primeiro.
Sentir de olhos fechados, estancando o ruído. Não por acaso, os pescadores de peixinhos roxos fazem a descida, solitários. Mas temos a felicidade, de no caminho encontrar alguns raros e corajosos mergulhadores.
Como diz Caio, "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra".

sábado, 1 de agosto de 2009

Sugestões para Atravessar Agosto


Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.


Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.


Caio Fernando Abreu


(O Estado de São Paulo, 06/08/95)

Sobre os 40 anos e os pôneis velhos.

Bate os 40, a memória começa a falhar, a visão a nublar; a pele se cansa, descansa e desaba; o cabelo exige dez vezes mais cuida...