Des-construções de uma professora novata.




Existem os sem-teto
Existem os sem-terra
os sem-lugar, os sem-amor e existem os sem referencial intelectual.
Os sem-teoria.
Pois é, este é o meu drama.
Fiz toda faculdade estudando Psicanálise, durante o curso vi muito pouco das outras teorias psicológicas, de Jung, 15 dias. No último semestre nada me agradava, deixei tudo de lado e fui investigar melhor a psicologia analítica.
Quando me formei optei por fazer pós graduação no Direito. Depois de passar 6 meses aprendendo, apenas a falar a língua dos caras, essa língua que o Direito fala e ninguém entende,talvez nem eles, escolhi o mestrado.
O mestrado no Direito, em Ciências Criminais, tive a oportunidade de passear pela História, Antropologia, Sociologia, Criminologia, muitas "gias", e a minha pequena psicologia foi diminuindo cada vez mais.
Recentemente estive em um evento em Florianópolis "intercultural", isto é, cultura de todos e de ninguém.Muito rico, foi possível discutir a função-missão do ser professor com profissionais da física, administração, antropologia de vários lugares do mundo. Um professor da UFSC disse algo que a muito vinha pensando. Falou sobre a interdisciplinariedade. Disse ele que o profissional que deseja dialogar com outros saberes precisa horizontalizar seu conhecimento para depois verticalizar. Adorei isso, pois é verdade, precisamos aprofundar o conhecimento na nossa área para então abrir. Um "núcleo duro" de conhecimento. Disse então meio aborrecida,meio desesperada " a questão da psicologia é que quanto mais dialogamos,menos sobra deste núcleo duro". Fato que a psicologia possui um núcleo frágil.
Sou toda descontrução teórica...o que é um drama, sei de tudo um pouco e nada me serve o suficiente. A vantagem que tenho encontrado em ser uma sem-teoria é que a psicologia não me quer e o direito não me entende.
Explico: não sendo mestre em psicologia fica difícil dar aula nesta faculdade, o Direito me acolhe,sou uma novidade engraçada e obrigatória, pois assim quer o MEC.
No meio disso, tentando decidir meu doutorado excludente, tenho tido prazeres na docência.
Dou aula de " Psicologia aplicada ao direito" e no segundo momento "Antropologia aplicada ao Direito" , então depois de construir minimamente algo na psi desconstruo metade quando começo a falar de Antropologia.
No final da primeira aula de Antropologia uma aluna chegou e disse "achava que os psicólogos eram loucos, agora acho que os antropólogos são muito mais!".
Baita elogio! Baita,pensei, as aulas estão funcionando.
Disse para eles, com a delicadeza de uma estranha recem chegada "O Direito é esquizofrenico e um tanto narcisista, mas temos muito o que conversar..."
Talvez seja isso, tenha como missão desconstruir. Lançar sobre os alunos do Direito a maldição da dúvida, ou a bênção. Qual será a missão do professor? O des-construir constante.

Comentários

  1. PSicologia e Direito são áreas prontinhas para a desconstrução.

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  2. Querida colega de angústia!!
    Estou escrevendo (ou tentando) sobre Jung na minha dissertação de mestrado em Direito aqui na Unisinos e creio que comungamos da mesma angústia.
    Assim, deixo meu email para que entre em contato e, assim, possamos conversar melhor e dividir essa tensão que é não ser ouvido e ao mesmo tempo perceber um pouco mais.

    ferrarezefilho@yahoo.com.br

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  3. El domingo 26 voy a estar todo el día en el Puerto de Puerto Alegre, porque llego a las 9 de la mañana y reembarco , podríamos combinar para encontrarnos.
    Un abrazo.
    Me gusta mucho tu blog, para mi es uno de los mejores con los que estoy conectado y estoy sensibilizado por tu sensibilidad.

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  4. Cheguei aqui por intermédio do Warat e gostei muito.
    Mas vc pensa que "desconstruir" é facil?
    Vou te acompanhar.
    Gerivaldo.

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  5. Adorei teu blog.
    E temos coisas em comum, sou professora do curso de Direito, mas tenho também formação em artes e tento mesclar tudo, porque não vejo a vida em caixinhas separadas.
    Então montei um grupo de pesquisa de direito e arte com meus alunos e quem dá a liga? Warat!
    Beijos.

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