Andrea, o Warat é um medium


Andréa, me vejo diante de inimagináveis passagens de nível que se recortam e entrecruzam em vias enigmáticas e muitas vezes sedutoras. Nesta tranqüila solidão serrana do planalto gaucho, estou sendo levado a construir minha Argo com a matéria onírica que o Warat me remete todos os dias. E, tal argonauta, ouso, me apropriando de uma passagem ofertada pelo bruxo porteño-baiano, aproximar-me de ti, através dos textos que tens postado ao léu. Tua linguagem, conforme a recepciono, repousa no solo fértil da narrativa, constituindo-se em “um pensamento estético (que)assume o traçado e a tarefa de um pensamento narrativo”, como afirma Luis Inácio de Oliveira, um vate maranhense. Digo isto porque busco também na minha escrita recuperar algo de ancestral da linguagem. E que, se apresenta na tua, em um desnudamento raro e delicado. Mais uma vez me aproprio da fala de Luis Inácio, para me aproximar mais e mais do que quero te dizer. Ele comenta que “trata-se, pois, para essa forma narrativa de pensamento, da tarefa/desistência do articular e redimir pela palavra o sofrido, o silenciado, o esquecido, o não-idêntico, o resíduo do inconciliado (...)”. Pergunto-te, ao mesmo tempo que me pergunto, assim como ao Warat e a tantos outros que cruzam tais vias enigmáticas: será que não estamos praticando ensandecidamente tal forma narrativa de pensamento?


Creio que falamos do real colados no real, em um jogo mimético-poético que sente profundamente o que fala,pensa e vive, deixando espalharem-se pela natureza os elementais que somos no limite da nossa animalidade ancestral, jogada na vala comum do esquecimento em nome do processo civilizatório.


Loba, sereia ou poeta, assim como Warat te pensou, significa para mim o sincretismo da mimesis que se manifesta ao narrares delicados fragmentos do dia-a-dia. Fazes destes relatos a consagração da Vida, visto que os mesmos são pele, sensualidade. Dimensões estéticas de teus momentos-loba, de teus momentos-sereia, de teus momentos-poeta, que recuperam incansavelmente do esquecimento a experiência em sua finitude, em seu devir histórico.
Solto esta página para que ela voe como as folhas do plátano o fazem no outono, como um “passeio ao léu”, para que assim ela possa cumprir seu desiderato: repousar de forma momentânea e fugidia em teu colo.


Concluo, convidando-os para um brinde com alguém que recentemente, Warat o cronópio, homenageou com muita sutileza e fidelidade: Julio Cortazar. Porque, afinal de contas, foi ele, Cortazar quem nos deu mais uma nominação: Os Argonautas das autopistas.


Albano Pêpe

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