Albano e Warat, procurando o peixe roxo?


Albano,

Tua folha-virtual chegou até meu colo, através de Warat, e permaneci com ela por alguns dias para poder refletir sobre tuas palavras.
Nestes dias frios que seguem, só poderia te responder me aproximando do que sou, mais e mais. Os textos a que te referes, são textos muito particulares e que por muito tempo optei por não tentar entende-los, por medo de que se perca.
Explico: sou uma criatura que pensa, demais, sobre tudo e sobre todos, o que por um lado é bom e por outro me atrapalha. Por pensar demais acabo perdendo, ou me afastando, do sentimento que cada situação e pessoa trazem consigo. Sei bem do que se trata, Freud já descreveu faz tempo este mecanismo de defesa poderoso chamado intelectualização.
É através da escrita que me descubro. Com ela tenho acesso a locais escondidos do que sou, locais estes, que quando escrevo descubro estarem carregados de afeto e sensibilidade.
Quando então tocado na tua sensibilidade, pela minha, te questiona sobre se estamos ou não praticando ensandecidamente a forma narrativa de pensamento, te respondo: não sei! Não posso saber, me nego. Tenho medo de, ao tentar refletir sobre o que escrevo acabar perdendo a capacidade da escrita. Quero escrever as cegas. Quero escrever sobre o que sinto, o que sou. Não quero pensar, sob pena de me perder.
Gostei de ouvir o que pensas do que escrevo. Ouvir o que pensam da gente é oportunidade de se conhecer. Sinceramente não sabia que os meus textos eram visto como algo raro e delicado. Achei bonito. Me pareceu uma flor. Tu e Warat tem recebido os meus textos como pequenas flores. Sinto assim, vocês os acolhem. Me acolhem. Sou grata.
Acho que sim, falamos do real, colados no real. Estamos em tudo o que escrevemos, por isso, como diz Clarice, escrever é perigoso, uma denúncia de si mesmo.
Existe uma palavra em grego chamada Kalchaino que possui dois significados. Um destes significados é “procurar o roxo”. Os gregos extraiam uma rara tintura roxa de um molusco que só era encontrado no fundo do mar. Para encontrar este “peixe roxo” era necessário descer a grandes profundezas, eles associaram isto ao mergulho nas profundezas de si mesmos para trazer a superfície (consciência) valiosos tesouros da vida interior. O que nos leva ao segundo significado da palavra: procurar nas profundezas da mente.
O que desejo ao escrever? Desejo o Kalchaino.
E mais uma vez os gregos...Sou fortemente regida pelo árquetipo da Deusa Atena e seus princípios. Atena reina, e nunca deixa Afrodite e seu séquito de deusas permanecerem ao meu lado muito tempo. Uma deusa que acompanha Afrodite, a deusa do amor, é a “Grande Deusa Ananke: a própria Necessidade”. Quando escrevo estes textos cotidianos, que nascem das minhas vivências ou de vivências alheias, de que me apodero, é a Ananke que estou submetida. Através de Ananke, pelas mãos de Afrodite posso ter acesso aos meus tesouros.
Neste caminho, silencioso, de escuridão e calor, tenho encontrado almas afins. O que é rico, muito rico. Estamos eu, você e Warat, através da escrita em busca do peixe roxo?
Acredito que sim. Que os deuses nos guiem nesta busca corajosa
.

Comentários

  1. Andréa, ao ler teu texto-diálogo, me vi ao teu lado, conversando sob a égide de uma convivência ancestral onde nossos lugares arcanos se avisinham, teus, meus, do Warat. Escutei tua voz ao escreveres meu nome. A palavra nomeada guarda seus mistérios na enunciação. Me emociona colher as flores que depositas ao largo de nossas caminhadas. Que saibamos retribui-las reinventando a palavra amorosa. Em breve te mandarei outra narrativa via blog waratiano, quando tentarei atravessar mais uma vez a delicadeza com que teces teus pensamentos. Ciao.
    Albano

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  2. Tão bom passear pelo teu blog... Bj

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  3. Eu estava com muita saudade de te ler. Saiba que está cada vez mais difícil deixar de visitar teu blog. Este texto então...cada construção tua um presente. beijo grande

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  4. Mas que PUTARIA, heinn oh?

    :) x 10 na 23!!!

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  5. Em tempo:

    "Dhub" em gaelico significa "preto".

    Lembreido teu "CU bar", eis que tinha um whisky para vender na Escocia cujo nome era "Cu Dhub".

    Logicamente isso tudo nao pode ser lido sem que fique claro que "Cu" em gaelico significa "cachorro"

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