DISCUTINDO A RELAÇÃO in Vídeo!

Loading...

terça-feira, 7 de julho de 2015

Amor é incompreensão - O que é necessário e importante para se viver uma verdadeira e duradoura história de amor




Quando se ama, o pior inimigo não é, como dizem por aí, o costume. Ele pode ser traduzido em intimidade, à guisa de elogio. A rotina pode ser deliciosa, porto seguro da alma. A mesmice do outro não é chatice, é repouso. A repetição de seu ser nos acolhe como o café fumegante depois do almoço.
A duração de um amor não esbarra nisso. É a idealização das escolhas que a abala. Somos tolos como insetos em volta da lâmpada. Ficamos trocando de parceiro, renovando a expectativa de algo maior, relançando as apostas num encontro absoluto. Balela, amar é combater o desencontro a cada dia. Escute Clarice Lispector: “pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente”.
O convívio não destrói o mistério, pelo contrário. Viver uma vida inteira ao lado de alguém é resignar-se a jamais decifrá-lo. Não nos saciaremos um no outro. Ele nunca chegará a nos pertencer definitivamente. Um rio separa os amantes, travessias são possíveis, mas as margens não se fundirão. Gulosos, consideramos que a felicidade seria fazer-se um: queremos mais do que encaixe, o objetivo é zerar a distância, anular a diferença.
Nesse caso, melhor casar com o espelho ou seguir em busca desse par perfeito, pulando de promessa em promessa, procurando no amor o tesouro escondido da felicidade. O problema é que amor e felicidade sofrem da mesma sina.
São inflacionados, acima de tudo incompreendidos e costumam não ser reconhecidos quando estão presentes. Por natureza, eles são discretos, deixam-se estar, suaves, dispostos a um bom papo. Mas em geral são ignorados. Depois de um tempo, partem incógnitos. Os que não souberam reconhecê-los sequer têm motivo para lamentar por isso, a ignorância protege.
Já a paixão e a euforia nunca passam despercebidas, causam furor quando chegam e todos querem ser vistos a seu lado. São barulhentas e somem sem que se saiba quando foi que a ressaca tomou seu lugar. Os amantes ingênuos são mais afeitos ao estilo dessas últimas. Como num parque de diversões, ficam em longas filas, por meses, anos, na chatice da espera, para viver instantes de vertigem.
Prefiro gastar meu prazo tomando um vinho com a intimidade. Essa, vos asseguro, é mais próxima da felicidade. Acho que nunca terminarei de comemorar a permanência do amor como um presente diário. Um pacote que nunca abro. O mistério de seu conteúdo faz parte da felicidade de tê-lo em mãos.
Diana Corso é psicanalista e autora do livro Fadas no Divã. Escreve há dois anos para Vida Simples.

sábado, 27 de junho de 2015

Novos relacionamentos e as bagagens inevitáveis.



Depois de uma certa idade quem desejar ter um relacionamento terá que lidar com a história individual de seu parceiro. Todos nós temos um passado, quem não puder lidar com isso, talvez opte por se relacionar com gente jovem, bem jovem, gente a quem a vida ainda não marcou onde a bagagem teoricamente é mais leve. Nada de errado nisso, mas ainda acredito que história de vida significa experiência e trocas emocionais muito ricas, além da cumplicidade e compreensão que vem da força de quem já viveu.
Querer alguém 'zerado' e sem problemas é a fantasia emocional de quem no fundo não quer se comprometer realmente e quer alguém apenas para satisfazer suas demandas narcísicas de satisfação, estado idílico de idiotia a dois. Se amar é andar de mãos dadas, também é abraçar a história de vida do outro, não para assumi-lá, mas para apoia-lá e admirar a trajetória do nosso parceiro. Leve fica quando cada um assume a responsabilidade por sua história e caminha lado a lado com quem escolheu amar. 
                                                                                                               Andréa Beheregaray                                                                                                                                                                                                                                                       

terça-feira, 23 de junho de 2015

Existe sempre alguma coisa ausente - Caio Fernando Abreu.





Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.



Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos á2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.




Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.




Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.




Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.




Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.



Caio Fernando Abreu
O Estado de S. Paulo, 3/4/1994

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Correio Amoroso - Coração Partido.




Coração Partido.
Da Série Correio Amoroso.

Para você que pergunta: será que a gente tem essa força depois de tanta decepção e mágoa? Será que a gente tem essa força para superar a anestesia afetiva?
Acredito sim que a dor de amor possa ser superada. Mesmo quando o corte é profundo e o amor que existia tenha se transformado em decepção e mágoa. Sabe, todos nós passamos por decepções e em algum momento entramos nessa cadeia amarga de emoções ruins. Primeiro vem a decepção, o choque, depois a mágoa e então anestesia afetiva. A anestesia afetiva é um tempo surdo, de sons agudos onde tudo que sentimos fica em silêncio. É um tempo necessário, tempo de cura. Faz parte do processo de recuperação emocional. A anestesia é um mecanismo de defesa, um curativo, um jeito que encontramos para nos proteger da dor.
O que posso te dizer é: não deixa nada, nem ninguém, roubar tua capacidade de amar. Ela é o que existe de mais valioso em cada um de nós. Amar é o que da cor, nos dá sentido. Decepções fazem parte do pacote. Entenda elas como forma de depuração. Não só das nossas expectativas, muitas vezes irreais sobre o outro, mas também sobre o que afinal desejamos viver numa relação amorosa. Como dizia o sábio Caio F. 'Depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro.'
Ninguém gosta de sofrer, mas como não podemos escapar da dor enquanto estivermos realmente vivendo, que a gente faça dela motivo de crescimento e descobertas. Que ela nos faça ver que realmente é importante.
Tá cheio de gente bacana por ai, que já descobriu o essencial e o verdadeiro, é elas que devemos buscar quando nosso coração estiver pronto e nossos sentidos apurados. Isso acontece depois de momentos assim, de decepção e mágoa.Então, aos poucos o coração volta a se abrir, entende que o risco da perda e da decepção é parte da aposta amorosa. A gente encontra, garanto que encontra um amor leal para se viver.
Não temos que lutar para reverter nada, nem querer acreditar que os outros mudarão por nós. A saída da anestesia afetiva é uma saída que só pode ser aberta por nós mesmo, quando o foco da luta e da mudança está sobre nós. Então não desiste, segue em frente, quando menos se espera, terá sol outra vez na sua janela.
Andréa Beheregaray
Da série Correio Amoroso.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A dor da separação- quando amor acaba.





Quem nunca se separou, talvez não compreenda o que vou dizer.Separar-se é um ato de coragem. Ninguém casa pensando em se separar, mas muita gente que se separa pensará duas vezes antes de casar de novo por medo de enfrentar outra vez a dor de uma separação. Chegamos ao mundo e nosso primeiro grande ato de vida, o nascimento, é marcado pelo choque da separação. Partimos da vida embalados pela mesma  força de ruptura.  

Não quero falar aqui do que vem depois da separação, nem do quanto ela é necessária para que possamos continuar vivendo. Separa-se assim como na hora do parto é, muitas vezes, o movimento necessário para que possamos encontrar um novo folego de vida. Muitos dos que não ousam, secam, perecem em vidas estereis e mornas, um tipo de morte em vida.A separação, em alguns casos,pode ser até um alívio, mas nem por isso são menos dolorosas. Mas também não é disso que quero falar, do que vem depois, dos benefícios das mudanças, da necessidade de deixar o que já não pulsa para trás. Hoje não vou dizer que tudo passa, porque cedo ou tarde passa, hoje quero falar da ruptura, do despedaçamento que antecede o 'começar de novo'. 

Separa-se é a reestruturação completa da imagem que fazemos de nós mesmo, é a construção de uma nova identidade a partir dos estilhaços deixados pela casa vazia após a partida do outro. É cortar a própria carne e reaprender a viver. Abandonar o conhecido, seguro, habitual, trilhar novos caminhos. É pensar a si mesmo mundo através de uma nova perspetiva.  

Separação é a perda de referências, mudança de rota, de rumo de vida. É abrir mão do conforto das certezas, de tudo o que foi planejado. Separar-se é reescrever o roteiro,mudar de rotina, fazer novos caminhos. É esvaziar o carrinho do supermercado e não levar pra casa mais os produtos que antes o outro gostava, é perceber comida sobrando, diminuir a quantidade. É frequentar outros lugares, novos lugares, para não esbarrar na lembrança do outro, abrir mão de amigos de casal, é deixar de ser casal e descobrir quantos amigos de verdade você tem afinal. É perceber que depois do fim, mesmo com a cama vazia, você ainda dorme no lado de sempre, é mudar o guarda roupa e descobrir que o vazio é de outra ordem. 

Separa-se é suportar ser desamado, esquecido, deixado para trás. É perder o lugar de referência, deixar de fazer parte da família do outro.É carregar o peso dos erros tentando transformá-los mais tarde em experiência. É esperar o tempo certo para abrir o baú de lembranças e rever os bons momentos. Separar-se é abandonar a aposta, abrir mão dos planos futuros, suportar a morte dos sonhos.

Separação se faz nos detalhes. Reconstrução diária de uma vida deixada para trás. É passar pela experiência da dor e do desamparo para poder realmente começar outra vez.Atravessar a experiência do luto conscientes da dor nos faz mais fortes para seguirmos em frente sem pesos, culpas ou fantasmas. 

Os dias de sol virão certamente, pois assim como o amor é uma experiência transformadora, a separação também o é. Mas diferente do amor, a separação precisa ser atravessada sozinha e por isso se torna tão reveladora de sentido no nosso processo de autoconhecimento. A separação é um enfrentamento pessoal, um confronto diante do espelho, um teste de forças, gesto de coragem e honestidade com nós mesmos.Separar-se por mais doloroso que seja, é um gesto de vida e reencontro e descoberta com o que é afinal verdadeiro e essencial em nós.   


Andréa Beheregaray.
      


terça-feira, 16 de junho de 2015

Os caminhos do inconsciente.




Se a consciência não resolve, o inconsciente resolve por nós. Pela via do corpo, do boicote, do acidente. Pela descaminho, do engano, da doença, das situações confusas, contraditórias o inconsciente resolve de um jeito dolorido o que não pode ser resolvido de outra forma. Na maioria das vezes pela via do sofrimento, mas sempre em busca da saúde mental, o inconsciente nos impele para cura. Deixa claro a necessidade de buscar ajuda, impõe as mudanças necessárias, tantas vezes adiada. Quando a consciência não resolve, o inconsciente resolve por nós.
Andréa Beheregaray. 

sábado, 13 de junho de 2015

Amor - Jung

"O amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isso ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil.Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros." 

Carl Gustav Jung
Obras Completas 10/3; 232.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Para o meu amor, no dia dos namorados.






Emoticon heart
Era um amor bem comum, desses reais e sólidos. Amor sem alarde. Amor cotidiano, simples e intenso, feito de delicadeza e coragem, muita coragem. Tecido em gestos, detalhes. Amor de dormir abraçado, amanhecer com os pés enrolados. Amor permanente.
Era um amor bem clichê, amor que diz eu te amo muitas vezes ao dia, diz porque sim, porque gosta, diz pela consciência da sorte, da velocidade do tempo, consciência da morte. Diz porque gosta, porque cuida, porque não sente medo, porque é alegre por ser amor.
Era um amor bem real, igual a tantos outros, amor construído, diário, amor consciente dos desafios de ser amor. Amor que acorda feliz na presença do outro, onde café da manhã é evento, gesto de amor. Amor delicado, sem pesos, loucuras, palavras trancadas, afetos deixados no chão. Amor que se orgulha de não deixar o orgulho entrar, sincero, direto, sem jogos ou descaminhos. Amor que não perde tempo de se amar. Amor urgente que acontece todos os dias e não busca explicação.
Amor de andar de mãos dadas, nas horas boas e naquelas mais pesadas. Amor que resgata o encanto e cura cada pedacinho de sonho deixado pra trás. 
Amor que ensina e aprende, amor que nos faz ir além.

Obrigada por me fazer sentir tão amada. Obrigada por me ajudar a rescrever páginas tão importantes e resgatar o sentido. Obrigada pelo teu amor e pela tua imensa coragem. Obrigada por ser meu amor e por ser tanto.
Esse amor é a surpresa que a vida nos deu de presente. 
Eu amo você 
Emoticon heart
Andréa Beheregaray