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Árvores Floridas

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Seguidamente eu paro na rua, a pé ou de carro, e fico contemplando às árvores floridas. Eu conheço às arvores da minha cidade. Sei quando é tempo das rosas, das roxas, das vermelhas e amarelas. Todos os anos às vejo renascer e desflolharem-se para aguardar então uma nova estação.  Amo árvores floridas.Passei muito tempo sem perceber a existência de tal beleza. Então hoje eu paro e as contemplo. Elas me lembram sempre que em meio ao caos de dias acelerados desta cidade naufragada, confusa e barulhenta, existe uma beleza invencível que se oferece gratuita. Poesia materializada em forma de flor. De uma delicadeza sólida e profunda, como são as suas raízes.  Porque, assim como elas, é aquilo que não podemos ver que nos mantém em pé. Estão sempre lá dispostas e gratuitas lembrando que a vida é bruta e bela a um só tempo, profunda e frágil , sólida e delicada. Contraditória por excelência.  Árvores floridas são pra mim a definição do que é a vida.
Andréa Beheregaray

Amores mortos

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Os grandes amores acabam sim. A idéia de que se for verdadeiramente grande então nunca acaba é herança do período romântico e seu ideal de alma gêmea. Ideal que nos aprisiona e nos faz desmerecer os amores vividos como se grande e verdadeiro fosse um apenas. Sem fita métrica para o amor, por favor. Todo amor, mesmo que findo, é uma experiência transformadora que nos revela. Alguns doem para sempre, outros não. Existem aqueles que jazem adormecidos até o reencontro, mas todos, esquecidos ou não, nos fizeram vibrar um dia. Andréa Beheregaray

Memórias literárias.

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Menina, muito menina ainda, eu já era uma afixonada em histórinhas. Ouvia repetidamente, na vitrolinha vermelha, Lps das minhas fábulas prediletas. Chapeuzinho Vermelho, Os três porquinhos e a coleção completa dos discos de Roberto Carlos. 
Mas foi aos 9 anos que descobri a magia dos livros. Meu pai levou a mim e minha irmã para passear na Feira do Livro de Porto Alegre. Em frente a banca de livros, não muito maior que ela, observava aquele aquele novo universo que se abria, quando ele disse que cada uma de nós poderia escolher um livro. Ali, diante da escolha, senti pela  senti pela primeira vez o delicioso prazer de comprar um livro. O livro escolhido foi 'Férias em um orfanato'.  Com ele descobri que ler também é VER. Ler era mágico, uma aventura possível do sofá da sala. A cada página eu consegui visualizar aquelas crianças e eu estive com elas quando conheceram o mar pela primeira vez.
Mas foi através do Círculo do Livro que fui definitivamente fisgada. Minha mãe era assina…

Ser.

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(...) ''O que escrevo, o que diz de mim? O que conta do que sou, do que sinto? Resumo, pista, confissão? O que escrevo me reduz ou conduz a imaginação? Eu sou minha palavra ou elas me são? Escudo, ponte, brincadeira, janela, carícia, açoite ou ventania? O que seu olho pode ver? E seu coração, o que diz?
A tradução que você faz, não diz de mim, diz de você. Se para você eu sou apenas palavras, filigrama de um mundo tão particular assim, tão resumido é porque, por distração, desinteresse ou incapacidade tuas mãos tocaram apenas a superfície desse universo tão vasto e profundo que é ser uma pessoa. Não me resuma apenas por não ser capaz de me compreender. O que sou não cabe aqui e nunca caberá. Eu sou uma pessoa. Eu sou uma pessoa."
_______ Andréa Beheregaray.

É a vida!

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Mudança, 
 1 filho, 
2 filhos, 
3 filhos, 
4 filhos. 

busca, conversa, auxília, encaminha. É viagem. É Santa, Rio Grande, Errej, 
Jetiqui, açai, Paraná.  De carro, de ônibus, carroça,  patins, jetski, de barco, avião.
. Tem frete, bagunça, pacote, 
Backyardigans, pintura, loucura.  Tem caixa, caixote, tempero.  Tem conta, corrida. Te perde, te encontra  é a vida é a vida querida.

É a vida!

Te apressa! Te apressa!  Tira, puxa de lá, de cá, acolá.Perdeu? Procura. 
Não achou? Eu acho.  Mãe tu sempre resolve.  Verdade, resolvo, eu sempre resolvo.  Dou um jeito, me viro. 

Eu acho a saída que sempre está lá. .
Não para!  Te estica, levanta,

Opostos iguais

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Ele mar, eu asfalto.
Ele pé no chão, eu salto alto. Ele sempre a mil, eu calmaria. Ele onda, eu céu de pradaria .
Ele 7h, eu meio dia. Ele ação, eu poesia. Ele malha, eu contemplo. Ele levanta e eu sento. Ele ordeiro, eu no meu tempo.
Ele aventura, eu leitura. Eu radical, ele ponderado. Ele passional, eu também. Ele inteligência emocional, eu invocada. Ele fúria disfarçada, eu guerra declarada.
Ele simples, eu complexa. Ele intenso e eu convexa. Ele pé na África, eu na Alemanha. Eu reservada, ele simpatia. Ele preto no branco, eu colorida. Ele coragem, eu determinação. Eu pensamento e ele coração.
Ele carinho, respeito, aconchego e demonstração. Eu em dobro. Relacionamento sem jogo.
Somos a combinação perfeita, opostos sem contra-mão. O nosso encontro é no melhor lugar. Na mesma direção.
Porque ele é amor e eu também. .
Andréa Beheregaray. Da série, Poeminhas caipiras.

O caminho de volta.

Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. 

De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel. Caio Fernando Abreu

Poema incompleto.

Eu habito palavras. E elas queimam. Eu habito palavras incendiadas.
Palavras secas, palavras mortas.

E elas ecoam 
Durante a noite
Feito o uivo dos cães (...).
Andréa Beheregaray. Poema incompleto In O livro dentro do livro.