segunda-feira, 26 de março de 2018

Sobre os 40 anos e os pôneis velhos.





Bate os 40, a memória começa a falhar, a visão a nublar; a pele se cansa, descansa e desaba; o cabelo exige dez vezes mais cuidados, muita química quebra, pintar demais, arruína, se ficamos estressadas, ele cai. A coluna já não é uma Brastemp, se forçar demais, não volta. Mudamos a alimentação para evitar qualquer coisa que se possa evitar. Nossas noitadas não podem passar da meia noite, sob pena de virarmos zumbis exauridos o resto da semana, Na vida dos novos idosos, Netflix é rei. Já nem pensamos nas malditas celulites, elas venceram afinal. Mudamos o foco, da bunda para cabeça. Agora estamos preocupadas mesmo com as manchas na pele e as rugas que brotam rasteiras. A memória se esvai lentamente a cada rosto que fingimos lembrar, sem agenda não rola, lembrar nome virou loteria. Os dentes também exigem cuidados, afinal com rugas, celulite, gagás, esquecidas, ceguetas, e desdentadas não dá!
Para completar quando a gente envelhece, encolhe. Eu comecei sutilmente a encolher e meu nariz anda crescendo, basicamente um pônei velho, só não fiquei surda ainda.
Terceira idade é o óh, ainda bem que existem as selfies e suas edições para nos salvar do naufrágio completo. Se por ai eu te encontrar e não reconhecer, perdoe, os 40 anos me atingiram em cheio.
Andréa Beheregaray

sábado, 24 de março de 2018

O tipo de gente que eu gosto.




Gosto de gente assim,
quer, quer,
não quer, não quer.
Sem disse que disse,
sem chove e não molha.
Tá incomodado, fala
Tá atrasado, corre
Tá magoado, diz
Tá interessado, vai à luta
Gosto de gente assim
Sem nhénhenhem e sem frescura
Que fala o que quer
E esta preparado para ouvir
o que não quer
Sem desmoronar
Gosto de quem
Não tenta agradar a todos
Porque sabe que todos
De fato, não importam
Ou se importam com a gente
De verdade
Que a verdade arde feito
Metiolate
E que importância a gente
Dá pra quem está na luta
ao nosso lado
Gosto de gente assim
Que não se vitimiza
E não responsabiliza
O mundo pelo que é seu
Que assume a sua parte
Gosto dos inconformados
De gente que vai a luta
E não desiste
Até a última alternativa
Que corre atrás do que
Quer e acredita
Gosto dos apaixonados
De gente
Que não economiza afetos
Que se desculpa de coração inteiro
E diz sem medo o que sente
Que não faz jogos no amor
Gosto de gente
Que não corre da raia
E não vira a casaca
Que não se acha mais que os outros
Que assume o rídiculo da vida
E a mediocridade de si mesmo
Que respeita e se faz respeitar
Gosto de gente assim
Que dá nó em pingo d`água.
Que detecta o problema
E busca solução
Não enrola,
Não faz fita, não faz manha,
que sabe bem o que quer.
Gosto de gente assim,
pão, pão, queijo, queijo
Que é ou não é
Que sabe que não vida
O problema não é ter problemas
Mas sim a condição de lutar.
Andréa Beheregaray.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Árvores Floridas



Seguidamente eu paro na rua, a pé ou de carro, e fico contemplando às árvores floridas. Eu conheço às arvores da minha cidade. Sei quando é tempo das rosas, das roxas, das vermelhas e amarelas. Todos os anos às vejo renascer e desflolharem-se para aguardar então uma nova estação. 
Amo árvores floridas.Passei muito tempo sem perceber a existência de tal beleza. Então hoje eu paro e as contemplo. Elas me lembram sempre que em meio ao caos de dias acelerados desta cidade naufragada, confusa e barulhenta, existe uma beleza invencível que se oferece gratuita. Poesia materializada em forma de flor. De uma delicadeza sólida e profunda, como são as suas raízes. 
Porque, assim como elas, é aquilo que não podemos ver que nos mantém em pé. Estão sempre lá dispostas e gratuitas lembrando que a vida é bruta e bela a um só tempo, profunda e frágil , sólida e delicada. Contraditória por excelência. 
Árvores floridas são pra mim a definição do que é a vida.

Andréa Beheregaray

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Amores mortos




Os grandes amores acabam sim. A idéia de que se for verdadeiramente grande então nunca acaba é herança do período romântico e seu ideal de alma gêmea. Ideal que nos aprisiona e nos faz desmerecer os amores vividos como se grande e verdadeiro fosse um apenas.
Sem fita métrica para o amor, por favor. Todo amor, mesmo que findo, é uma experiência transformadora que nos revela. Alguns doem para sempre, outros não. Existem aqueles que jazem adormecidos até o reencontro, mas todos, esquecidos ou não, nos fizeram vibrar um dia.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Memórias literárias.



Menina, muito menina ainda, eu já era uma afixonada em histórinhas. Ouvia repetidamente, na vitrolinha vermelha, Lps das minhas fábulas prediletas. Chapeuzinho Vermelho, Os três porquinhos e a coleção completa dos discos de Roberto Carlos. 

Mas foi aos 9 anos que descobri a magia dos livros. Meu pai levou a mim e minha irmã para passear na Feira do Livro de Porto Alegre. Em frente a banca de livros, não muito maior que ela, observava aquele aquele novo universo que se abria, quando ele disse que cada uma de nós poderia escolher um livro. Ali, diante da escolha, senti pela  senti pela primeira vez o delicioso prazer de comprar um livro. O livro escolhido foi 'Férias em um orfanato'.  Com ele descobri que ler também é VER. Ler era mágico, uma aventura possível do sofá da sala. A cada página eu consegui visualizar aquelas crianças e eu estive com elas quando conheceram o mar pela primeira vez.

Mas foi através do Círculo do Livro que fui definitivamente fisgada. Minha mãe era assinate e recebia a visita da representante e seu catálogo. Novamente me foi data a oportunidade de escolher o melhor presente que poderia receber, um livro. Escolhi Monteiro Lobato. Uma coleção linda e colorida composta pelas letras do nome do autor. Acho que não chegamos a completar seu primeiro nome, ficamos em MONTE e eu já estava completamente apaixonada pela leitura. Mergulhei nas aventuras de Emília, através do livro em 'Reinações de Narizanho', meu Deus como eu amava aquelas aventuras! Quando terminei o livro senti, e me lembro claramente, um misto de orgulho por ter lido meu primeiro livro grande ( grande em todos os sentidos) e um sentimento de vazio, pois agora, por tê-lo acabado, acabei também com o prazer de lê-lo. 

Deve ser nesse momento que adquira o hábito de comprar muitos livros e não concluir a leitura, só para depois ter o prazer de retornar à eles de novo e realizar assim novas e prazerozas descobertas. 

Na 6 série descobri a poesia. Alugava livros constantemente, um deles gostei tanto que nunca devolvi, tenho ele até hoje. Eu sei, é errado, mas quem pode me condenar por roubar poesia? Foi na biblioteca da escola João XXIII que conheci Cecília Meírelles, inspirada por ela e pelo professor de português Ricardo Silvestrin comecei a escrever poesias. Lembro da aula dele sobre a composição de Haikai ou Haicai, a poesia em 3 linhas. Aqui nascia o prazer de brincar com as palavras. As aulas de crase e vírgula eu pulei, desculpe professor, mas estas, estas eu trago viva nas minha memória afetiva literária. Muito obrigada.

E com Cecília aprendei a navegar. Li, reli e declamei Naufrágio, que hoje esbarrei sem querer nas redes sociais e descandearam todas essas memórias que vos relato. 

Cecília, te sei até hoje! Cecília quanto beleza!

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,

com as mão para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul, do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe ,

a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso, 

para fazer com que o mar cresça 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas
(Cecília Meireles).



Ler para mim é puro deleite. Quanto prazer encontro nas palavras! Que sorte a minha ter
tido a oportunidade de descobrir os livros. Fonte de prazer e possibilidade de conhecimento. O livro nos aproxima de universos distantes e diversos, nos faz melhores diluindo nossa cegueira e ignorância. Ler é uma porta aberta para um mundo. Escrever é alquimia, ler é mágico. E eu sou apaixonada por magia.        

Andréa Beheregaray   

sábado, 15 de julho de 2017

Ser.




(...)
''O que escrevo, o que diz de mim? O que conta do que sou, do que sinto? Resumo, pista, confissão? O que escrevo me reduz ou conduz a imaginação? Eu sou minha palavra ou elas me são? Escudo, ponte, brincadeira, janela, carícia, açoite ou ventania? O que seu olho pode ver? E seu coração, o que diz?

A tradução que você faz, não diz de mim, diz de você. Se para você eu sou apenas palavras, filigrama de um mundo tão particular assim, tão resumido é porque, por distração, desinteresse ou incapacidade tuas mãos tocaram apenas a superfície desse universo tão vasto e profundo que é ser uma pessoa. Não me resuma apenas por não ser capaz de me compreender. O que sou não cabe aqui e nunca caberá. Eu sou uma pessoa. Eu sou uma pessoa."

quinta-feira, 13 de julho de 2017

É a vida!




Mudança, 
 1 filho, 
2 filhos, 
3 filhos, 
4 filhos. 


busca, conversa, auxília, encaminha.
É viagem. É Santa, Rio Grande, Errej, 
Jetiqui, açai, Paraná. 
De carro, de ônibus, carroça, 
patins, jetski, de barco, avião.

.
Tem frete, bagunça, pacote, 

Backyardigans, pintura, loucura. 
Tem caixa, caixote, tempero. 
Tem conta, corrida.
Te perde, te encontra 
é a vida é a vida querida.


É a vida!


Te apressa! Te apressa! 
Tira, puxa de lá, de cá, acolá.Perdeu? Procura. 

Não achou? Eu acho. 
Mãe tu sempre resolve. 
Verdade, resolvo, eu sempre resolvo. 
Dou um jeito, me viro. 


Eu acho a saída que sempre está lá. .

Não para! 
Te estica, levanta, 
de frente, 
em frente, 
enfrente! 




Psiu...
Agora respira e aprecia.
É a vida, é a vida. 
Não é todo dia, mas hoje, só por hoje, espia 
O dia é de paz na Lagoa.

Andréa Beheregaray

Opostos iguais






Ele mar, eu asfalto.

Ele pé no chão, eu salto alto.
Ele sempre a mil, eu calmaria.
Ele onda, eu céu de pradaria .

Ele 7h, eu meio dia.
Ele ação, eu poesia.
Ele malha, eu contemplo.
Ele levanta e eu sento.
Ele ordeiro, eu no meu tempo.

Ele aventura, eu leitura.
Eu radical, ele ponderado.
Ele passional, eu também.
Ele inteligência emocional, eu invocada.
Ele fúria disfarçada, eu guerra declarada.

Ele simples, eu complexa.
Ele intenso e eu convexa.
Ele pé na África, eu na Alemanha.
Eu reservada, ele simpatia.
Ele preto no branco, eu colorida.
Ele coragem, eu determinação.
Eu pensamento e ele coração.

Ele carinho, respeito, aconchego e demonstração. Eu em dobro. Relacionamento sem jogo.

Somos a combinação perfeita, opostos sem contra-mão. O nosso encontro é no melhor lugar. Na mesma direção.

Porque ele é amor e eu também. .

Andréa Beheregaray.
Da série, Poeminhas caipiras.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O caminho de volta.



Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. 

De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel.
Caio Fernando Abreu

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Poema incompleto.

Eu habito palavras.
E elas queimam.
Eu habito palavras incendiadas.

Palavras secas, palavras mortas.


E elas ecoam 

Durante a noite

Feito o uivo dos cães (...).

Andréa Beheregaray.
Poema incompleto
In O livro dentro do livro.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Porque ninguém merecia tão pouco.





Não foi só por que tu te foste no pior momento da minha vida quando eu havia perdido todas as referências, todas as certezas, todos os sinais. Não foi apenas por que fiquei parada no meio da rua, no meio da chuva, no meio do nada com meu coração batendo na palma da mão. Nem por que te foste sem aviso, sem olhar pra trás quando estávamos bem, apaixonados e fazendo planos ou por que tu havia me dito com todas as letras, pontos e vírgulas, que eu poderia confiar em ti. Ou ainda   por que tinhas dito que vinhas,  que querias entrar na minha vida e eu arrumei a casa, a cama, a varanda, preparei os filhos, mandei comprar tua comida preferida, a melhor bebida e te esperei, e tu não vieste. Não foi apenas por que enfrentei o mundo sozinha nessa cidade que se tornou tão estranha ao meu sorriso, por que suportei ataques vindos sabe lá de onde, por que te defendi e defendi o que estávamos escolhendo viver por que eu acreditava que isso era amor e por amor valia a pena lutar. 

Não foi apenas por que você largou minha mão ao meio dia para segurar outra mão a meia noite, ou por que na semana seguinte tu já promovias festas com tua nova companheira, ou por que o dia em que te fostes, coincidentemente foi o mesmo em que havíamos nos conhecido dois anos antes ou ainda por que me deixaste tão próximo ao dia dos namorados e foste comemorar esta data  em nova  companhia e eu guardei o presente, os sonhos e meu coração no canto da sala vazia. Não foi apenas por isso, ou por que rompeste comigo em 15 minutos de conversa virtual, por que pediste um tempo e nunca tiveste a coragem, dignidade ou sensibilidade de voltar e dizer adeus olhando nos meus olhos, ou ainda por que não foste tu, mas os outros que vieram contar que já estavas feliz e enamorado outra vez horas depois de te despedir desse amor que disseste ter sido tão ardente e bonito.



Não foi só por isso ou por que só te dei coisas boas, como tu mesmo disseste, que eu merecia um pouco mais, penso mesmo que eu merecia um pouco mais por que ninguém merece tão pouco. Mas desconfio que você não compreenda do que estou falando, dessa necessidade de cuidado e carinho mesmo quando estamos partindo, nessa necessidade de respeito e consideração, de colocar nosso desejo em segundo plano em alguns momentos da nossa vida ou de se ter responsabilidade pelos laços que construímos. 

Não foi apenas por isso tudo que eu me transformei em silêncio e não lembro mais desse amor. Por que essa devastação transformou o sim em não e não sobrou mais nada, nem o vivido nem o ausente. Todo amor foi invalidado e eu nem lembro mais que te conheci um dia. Porque ninguém merecia tão pouco.

Sobre os 40 anos e os pôneis velhos.

Bate os 40, a memória começa a falhar, a visão a nublar; a pele se cansa, descansa e desaba; o cabelo exige dez vezes mais cuida...