terça-feira, 19 de junho de 2018

Separação



.Que partir seja evolução e não destruição: sobre separações.
É verdade que as separações são inevitáveis e que teremos que enfrentá-las muitas vezes na vida . Mas existem muitas formas de partir e nem tudo deveria ser destruição. É preciso aprender a ir embora. E se é verdade que nos recuperamos dos finais cada vez mais rápido, porque já descobrimos que sobrevivemos e que, tudo cedo ou tarde passa, é verdade também que as separações são sempre dolorosas e que ninguém se separa amando ou super bem.
No entanto é necessário aprender a lidar com as separações é com menos danos, amar com mais intensidade e menos enganos, permanecer o mínimo possível naquilo que não faz bem e descobrir a hora certa de ir embora antes de corroer definitivamente os laços.
É aprendizado, que as pontes não sejam destruídas e que os afetos possam ser transformados, mesmo que o outro não esteja mais. Que o bem que um dia aquele amor nos fez nos possa permanecer pairando sobre todos os motivos que nos levaram a partir. Que nossas memórias mais bonitas não se dissolvam num mar de mágoas, tristeza e rancor.
Acho que maturidade é isso, não destruir os laços que nos fizeram avançar, nem evitar alguém que um dia se mostrou amor. Porque precisamos aprender a partir, partiremos muitas vezes ainda, que seja o mais inteiro possível.
Andréa Beheregaray
Psicóloga RS.

domingo, 3 de junho de 2018

Tinha uma pedra sobre a caixa de recordações.






Guardo tudo. Cartas, e-mails, mensagens, sms, papéis, recuerdos, imagens, fotografias. Guardo tudo, entende? Eu guardo, mas não mexo. E, às vezes, passado um tempo, que pode ser um ano ou dez, pouco importa, eu esbarro nessas recordações intencionalmente ou por acidente. Recordações cuidadosamente esquecidas. O dia então se eleva silencioso e quente, sobre a minha cabeça. O tempo suspenso é invadido por sentimentos e sensações desconhecidas, há muito descoladas de suas imagens originais.

Lentas, as palavras guardadas vão tocando a pele. Vou manejando a faca, revirando as palavras, enfrentando as linhas trocadas. Dando novos sentidos, agora, tanto tempo depois. As imagens são um choque, ou não. O passado é um mar revolto, inundado devida. Adentro cuidadosa, vou testando os limites. A memória é seletiva, caprichosa, bem elege o que se deve esquecer.  

Guardo tudo, por que, às vezes, é preciso enfiar a faca na ferida para saber se ainda sangra. Guardo para não deixar que o mar engula fragmentos desconhecidos. Guardo para aprender a ver com outros olhos. Guardo para confrontar-me. Guardo por que aquilo também sou eu. Guardo como parte da estrutura. Do que me funda. Da mulher que sou. Guardo por que aquilo também sou eu. Guardo por que é preciso.

                                               Andréa Beheregaray      

sábado, 2 de junho de 2018

Casal sem futuro




O relacionamento dos dois nasceu condenado, fadado ao fracasso. Impedimentos, distâncias, impossibilidades internas, externas. Tinha dias que tudo isso parecia tanto, já em outros esse tanto não parecia fazer sentido algum. O fato é que não era possível criar expectativas ou ter esperança – Como se vive sem isso?! - Pensavam sem querer pensar muito no assunto. As coisas entre eles eram assim, estavam impedidas de crescer, apesar de crescerem. ‘Relacionamento sem futuro’ ficou decretado, não sem lutas ou discordâncias, mas desejo não é coisa de se querer por dois. E tudo isso que parecia ser seco, real e áspero e que afinal era, não impediam que estivessem próximos ou pensassem um no outro. Ausência presente, ausência permanente, solidão de dormir abraçada. Condenados que estavam, eram livres pra falar o que sentiam e assim não sentir demais. Não havia o medo da perda, já estavam perdidos, condenados a clareza de terem encontrado algo importante e ainda assim ser preciso partir.
Sabiam que dariam certo se não fosse tudo o que era. Sabiam que se tudo o que era não fosse de fato, seriam muito felizes juntos. Duas horas deles equivaliam a um mês inteiro de outro casal qualquer. Quanto tempo demorou para perceberem que fariam uma ótima dupla? Não só por fora, mas por dentro também? Daqueles casais que crescem juntos, se incentivam, trocam, e admiram um ao outro? Daqueles casais que instigam a mente um do outro a ser mais? Um colorindo a criatividade do outro à ir além? Um sendo o amor do outro para dar sentido a todo resto que sem amor não vale nada?  Desconfio que demoraram muito pouco para perceberem. Entre eles a coisa tudo fluía sem jogos ou entraves, o riso era fácil, o beijo era bom, a cama uma delícia, daquelas onde o desejo amanhece aceso e a memória gosta de relembrar. A conversa daquele casal, que não seriam dois juntos, apenas separados, era rica e não terminava nunca, pedra de toque, ponto de ligação. Dobravam o dia e as horas pendurados ao telefone, à moda antiga, trocando impressões, contando novidades, amenidades, planos, projetos, temores, de antigos amores talvez presentes ainda, de vez em quando até cantavam, faziam poesia, escovavam os dentes entre uma frase e outra, discutiam  a relação que não tinham, ou que tinham, mas não podiam ter. Acumulavam horas e horas de alegria compartilhada e confidências trocadas. Justo ela que não gostava de falar ao telefone. Justo ele sempre tão pé no chão. Houve uma vez em que ele dirigiu três horas ao telefone contando à ela sobre tudo o que tinha feito, o mundo que tinha visto, a saudade que sentia das coisas que planejava viver. Na outra ela arrumou a casa, lavou o pátio inteiro, colocou tudo em ordem enquanto segurava a mangueira numa mão e o telefone na outra só para não interromper a conversa, as horas escorriam e ela pensava que era bom ter encontrado alguém como ele, alguém que parecia se importar de verdade, que tinha os olhos claros, cheios de segurança, solidez e amor.  
Esses casal que se sabia sem futuro algum, que não podia crescer ou ter esperança, teciam uma história feita de admiração, respeito, e afeto. Esses dois cheios de planos irrealizáveis, de amor desperdiçado e sonhos pela metade eram o casal fracassado mais bonito que ela conhecia. Mas ela sabia e ele também, que de alguma forma, essa dupla sem possibilidades já havia dado certo. Do casal sem futuro, esse foi o presente, a certeza de que terem se conhecido foi sorte, loteria e isso já fazia tudo valer à pena.  

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Além do bem e do Mal.








Olho para você
e nosso amor
estrada de folhas de outono
caídas no chão
nosso amor silencioso e nobre

É engraçado como ainda hoje
não conseguimos ficar lado a lado.

Nunca conseguimos nos tornar amigos,
não é mesmo?

Eu sinto tanto calor ao teu lado
e ele queima meu rosto
e minhas mãos ansiosas

E você, sempre tão inteligente
não diz nada que preste
tem tanta graça, ver-te assim
tão sem graça.
*
Tem sempre tanto
silêncio entre nós dois
tanta imensidão
@
Você me disse
que escolheria uma canção
para traduzir
o que sou
dentro de você.

Eu te disse
que você foi a única exceção, 
o amor que valeu
*
Com amor, 
Tua.


Andréa Beheregaray

terça-feira, 15 de maio de 2018

O dedo podre, o fracasso amoroso e a terapia que você não faz.



Amar se aprende amando e os descaminhos do amor fazem parte da trajetória do aprendizado amoroso. Experiências amorosas ruins podem nos ensinar ou traumatizar, podemos evoluir com elas, regredir ou paralisar. Podemos melhorar quem somos, ou piorar infinitamente. Experiências ruins nos ensinam quais são as ciladas e as cenas que não devemos repetir, mas repetimos.O inconsciente é traiçoeiro e nos faz criar às condições para incessantes repetições. Repetimos sem perceber situações do passado na tentativa da elaboração da dor.
Então presos na repetição destruímos novos relacionamentos por causa das dores do passado. Surtamos de ciúmes porque um dia fomos traídos. Perdemos a capacidade de confiar, adoecemos, brigamos, sofremos de insegurança, viramos canalhas porque um dia alguém foi canalha com a gente. Nos desiludimos, iludimos e demoramos muito tempo para construir expectativas reais, leais e possíveis. Impomos feridas porque fomos feridos. Queremos que o relacionamento atual pague a conta dos antigos.
O psiquismo é ardiloso, mas visa a saúde mental. Não permite que dores e traumas sejam engavetados sem elaboração, resolução do conflito. Cedo ou tarde o que você colocou para baixo do tapete, vem à tona. Se a paralisia afetiva e a recusa em se relacionar for a saída, o corpo adoece a depressão acomete. A conta vem, quer queira, quer não.
Recordar, repetir para elaborar, ensinou o mestre Sigmund Freud. Mudam os atores e repetem-se as cenas traumáticas.
A sucessão de relacionamentos amorosos ruins, o dedo pobre que tantos lamentam, nada mais é que o compromisso do neurótico com a sua doença.
Eis a função da terapia, nos ensinar a conscientizar e identificar as repetições para que possamos elaborar e curar definitivamente nossas feridas escapando das repetições. Conscientizar as feridas é a delicada tarefa do processo terapêutico. Dói? Dói, mas liberta e te faz livre para ser autor de novas histórias, novos cenários, livres de emoções passadas.
E não mais sujeitos de repetição, que neuróticos, adoecidos e feridos, reescrevem cegos suas dores e angustias de um passado sobre o qual já não podem mais atuar.
Então não esqueça, o dedo não é podre, você que tem medo de assumir a responsabilidade, infelicidade também é escolha. E a verdade mais difícil é que dores pessoais são intrasferíveis. Não transfira a conta das suas dores para seus amores. Eles não podem pagar essa dívida. A conta é sua, a responsabilidade também.
A trajetória é sua e o roteiro está escrito na coragem que tens para enfrentar a si mesmo, e a mais ninguém.
Terapie-se
Andréa Beheregaray.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Teu amor é filosofia





Desculpa,desculpa,desculpa!
Não coloquei expectativas sobre nós dois
Coloquei paixão
E achei que isso bastava.

Achei que tuas mãos eram delicadas
E que não me tornaria um peso para ti.
Porque meu afeto é leve

E sendo leve,
pensei que poderia levá-lo contigo.
Mas te assustou

Ao te assustar deixo cair este sentimento
delicado,que te dedico.

Não importa,
porque não pedi que o carregasse como um fardo.
Queria que te acompanhasse apenas,
como o vento.

E que nas noites de solidão
uma brisa leve pudesse te envolver.
Te esquentar.

Saberias então,
que o que te toca é meu desejo,
que nada vem cobrar.
Que apenas quer estar
ao teu lado, nas tuas noites de escuridão.

Andréa Beheregaray
Da Série, Meu amor é Filosofia



quinta-feira, 10 de maio de 2018

Só uma mãe entende outra mãe.





Tive filhos em tempos diferentes da minha trajetória. Meus primeiros 3 filhos, muito cedo e o caçula bem mais madura. Tive filhos com dois companheiros muito distintos, vivo na prática os efeitos dessas diferenças. O primeiro , infelizmente, o modelo de pai ausente, que acha que ver os filhos de 15 em 15 dias é muita coisa, que acredita que dar pensão é favor, que não cuida e nunca participou da educação dos filhos, o modelo de pai tóxico que não percebe as marcas do abandono e que deixa a mãe sozinha com os cuidados dos filhos.
O segundo me ensinou uma outra realidade sobre paternidade e ser casal. Pai afetivo e atuante, expressa diretamente o desejo de participar da educação dos filhos. Acha que ver filhos de 15 em 15 dias é muito tempo sem ver, carrega o fardo de não conviver diariamente com os filhos do primeiro casamento. Nunca cuidou do nosso filho em caráter de 'ajuda', ele cuida sem distinção de posição pai/mãe, cuida com amor e isso faz toda a diferença na vida dos filhos.
Vejo e sinto claramente a diferença da figura do pai para os filhos, da importância inegável de pais presentes e paternidade alegre, participativa e consciente, mas existe uma conta que só as mães pagam, pagam de corpo, alma, trajetória e coração.
A maternidade é linda, compensadora, feliz, mas também é uma luta e que luta! Vejo amigas e conhecidas tendo seus filhos agora, exaustas, perdidas por terem que dar uma grande parada nas suas vidas para cuidar dos filhos, as que não fazem esta parada, estão mais exaustas ainda. Às vezes se encontram muito sós, apesar de casadas. Solitárias e incompreendidas por um modelo social que confunde maternidade com sacrifício e incute a culpa nessas mães de várias formas. Já os pais, na sua maioria, salvo nobres exceções, estão perdoados pela sua ausência, pela sua precariedade, por nunca terem aberto mão de nada em nome dos filhos. Mãe não tem perdão.
Especialmente pela culpa, as mães calam seu cansaço, o estresse, seu temor de não estar sendo suficientemente boas, sua irritação com o filho por causa das noites mal dormidas, sua confusão emocional por terem que abrir mão de seus sonhos por um período longo.
Quanto cansaço! Cansaço que nos engole, que engole o corpo físico e nossa energia e vivacidade mental. Cansaço que consome nossa vontade. Cansaço que faz com que seja preciso adiar os planos profissionais, os pessoais, as relações sociais.
A maternidade, essa entrega de corpo, alma e coração, faz com que a gente se perca de si mesmo para poder acolher a prole. Nos perdemos um pouco da nossa identidade para melhor formar a personalidade de um novo ser. Aos poucos nos resgatamos, é uma batalha! Todas as pausas e adiamentos em conflito com o cansaço e o desejo de querer encontrar nosso tempo, da nossa individualidade e nossos projetos pessoais.
Só uma mãe para entender e acolher a outra, por isso costumo ser tão amorosa e empática com as novas mães, eu sei, eu sinto o que elas estão passando.
Por isso a importância dos pais e das redes de apoio, precisamos acolher quem acolhe, precisamos ser colo para quem é pura doação.E apoiarmos umas às outras nesse reencontro, pois sabemos que maternidade é a maior doação de amor de que o ser humano é capaz.
Entendo o cansaço das minhas queridas amigas, digo à elas, calma, os primeiros dois anos são delicados, mas é um investimento emocional que vale à pena, fortalece o vínculo e a criança é amor e saúde mental.
Eu garanto que a gente se reencontra e se reencontra mais forte, se reencontra mais sólida, a gente se resgata, reencontra nossa personalidade e se reencontra no amor e da felicidade dos nossos filhos.
Andréa Beheregaray.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Margens e tentativas.




Somos ilhas solitárias, semeadas no oceano, e um imenso espaço as separa. Beijos, juramentos, lágrimas; são como pequenas pontes, ridículos gravetos que atiramos, da margem, para ultrapassar abismos.

Dino Buzzati
in  Naquele exato momento