quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Casal sem futuro.







O relacionamento dos dois nasceu condenado, fadado ao fracasso. Impedimentos, distâncias, impossibilidades internas, externas. Tinha dias que tudo isso parecia tanto, já em outros esse tanto não parecia fazer sentido algum. O fato é que não era possível criar expectativas ou ter esperança – Como se vive sem isso?! - Pensavam sem querer pensar muito no assunto. As coisas entre eles eram assim, estavam impedidas de crescer, apesar de crescerem. ‘Relacionamento sem futuro’ ficou decretado, não sem lutas ou discordâncias, mas desejo não é coisa de se querer por dois. E tudo isso que parecia ser seco, real e áspero e que afinal era, não impedia que estivessem próximos ou pensassem um no outro. Ausência presente, ausência permanente, solidão de dormir abraçada. Condenados que estavam, eram livres pra falar o que sentiam e assim não sentir demais. Não havia o medo da perda, já estavam perdidos, condenados a clareza de terem encontrado algo importante e ainda assim ser preciso partir.

Sabiam que dariam certo se não fosse tudo o que era. Sabiam que se tudo o que era não fosse de fato, seriam muito felizes juntos. Duas horas deles equivaliam a um mês inteiro de outro casal qualquer. Quanto tempo demorou para perceberem que fariam uma ótima dupla? Não só por fora, mas por dentro também? Daqueles casais que crescem juntos, se incentivam, trocam e admiram um ao outro? Daqueles casais que instigam a mente um do outro a ser mais? Um colorindo a criatividade e convocando a ir além? Um sendo o amor do outro para dar sentido a todo resto que sem amor não vale nada? Desconfio que demoraram muito pouco para perceberem. Entre eles a coisa tudo fluía sem jogos ou entraves, o riso era fácil, o beijo era bom, a cama uma delícia, daquelas onde o desejo amanhece aceso e a memória gosta de relembrar os detalhes. A conversa daquele casal que não seriam dois juntos apenas separados, era rica e não terminava nunca, pedra de toque, ponto de ligação.

Dobravam o dia e as horas pendurados ao telefone, à moda antiga, trocando impressões, contando novidades, amenidades, planos, projetos, temores, de antigos amores talvez presentes ainda, de vez em quando até cantavam, faziam poesia, escovavam os dentes entre uma frase e outra, discutiam a relação que não tinham, ou que tinham, mas não podiam ter. Acumulavam horas e horas de alegria compartilhada e confidências trocadas. Justo ela que não gostava de falar ao telefone. Justo ele sempre tão pé no chão. Houve uma vez em que ele dirigiu três horas pendurado na linha contando a ela sobre tudo o que tinha feito, o mundo que tinha visto, a saudade que sentia das coisas que planejava viver. Na outra ela arrumou a casa, lavou o pátio inteiro, colocou tudo em ordem enquanto segurava a mangueira numa mão e o telefone na outra só para não interromper a conversa, as horas escorriam e ela pensava que era bom ter encontrado alguém como ele, alguém que parecia se importar de verdade, que tinha os olhos claros, cheios de segurança, solidez e amor.

Esse casal que se sabia sem futuro algum, que não podia crescer ou ter esperança, tecia uma história feita de admiração, respeito, e afeto. Esses dois cheios de planos irrealizáveis, de amor desperdiçado e sonhos pela metade eram o casal fracassado mais bonito que ela conhecia. Mas ela sabia e ele também, que de alguma forma, essa dupla sem possibilidades já havia dado certo. Do casal sem futuro, esse foi o presente, a certeza de que terem se conhecido foi sorte, loteria e isso já fazia tudo valer a pena.

Andréa Beheregaray.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dezembro.






Todas as pendências agitam-se em dezembro. Todas as angustias, culpas, contas, amores mal resolvidos, conflitos de família, desejos de mudança. Todas as promessas que não foram cumpridas acordam ruidosas e ressentidas. Tudo aquilo que se deixou para trás por incapacidade, negligência ou medo perturbam o sono, não lhe deixando escapar. Todos os seus sonhos e desejos, os mais simples e os mais radicais, vem sacudir seus sonhos e atormentar seu sorriso. Seus planos, metas e programações atravessam a rua, trocam de calçada, espiam debochadas da esquina sua fantasia infantil de querer controlar o tempo e apreender a própria vida. Em dezembro as decisões pautadas pela sua razão rigorosa, estão secas e mortas, sedentas da coragem que você não teve, das emoções insensatas que você calou. Em dezembro quando as contas do correio chegam duplicadas você estende os olhos sobre os meses e conta nos dedos os dias em que foi feliz. Em dezembro então você nota que o sentido escorreu pelo ralo, que se a conta por sorte está cheia, seu coração parece bater vazio. Dezembro é um mês que não pode ser quitado a prazo, que todos correm como se o fim do ano fosse o fim do mundo. Dezembro agita as saudades, acorda os conflitos, acende a luz das nossas verdades escondidas. Dezembro é um mês que não nos deixa escapar, não nos deixa enganar sobre a vida e o fato que não temos tempo, que a hora é agora e que a felicidade não pode ser vivida no ano que vem. Felicidade não faz rima com o amanhã. Felicidade não pode ser adiada. Ano que vem é hoje.

E você, fez seu ano valer a pena ou dezembro lhe dói?

Andréa Beheregaray.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Gente protocolar.



"Educação é diferente de protocolo. Não gosto de gente protocolar. Soam falsos, rígidos, parecem cumprir uma cena com atos e falas determinados sem fluidez nenhuma. Tentam parecer educados e gentis mas não o são, são apenas vaidosos. Gente educada é diferente é gentil, fluida, natural, te deixa à vontade, não está preocupada com bons modos, mas com o prazer da convivência. Protocolo e formalidades me asfixiam, pessoas e espaços assim não me interessam."

Andréa Beheregaray.

Frida Kahlo.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Por que Te Amo.

Surpresa boa ouvir essa canção! Presente do músico Ricardo Gama do grupo Sambô que fez música da minha poesia . Sabes que adorei, obrigada! 

Por que Te Amo.

E quando fui pranto, tu foste meu alívio. 
E foste tu a segurar minha mão
quando meu coração era feito de dor.
Foste a certeza quando eu não tinha nada,
o meu abrigo nas noites de escuridão.

Te fez estrada quando perdi o rumo,
Foste o porto quando eu já não podia mais.
No teu amor é que encontro pouso
No teu abraço reencontrei a paz.

Andréa Beheregaray.

Palavras.






O que escrevo, o que diz de mim? O que conta do que sou, do que sinto? Resumo, pista, confissão? O que escrevo me reduz ou conduz a imaginação? Eu sou minha palavra ou elas me são? Escudo, ponte, brincadeira, janela, carícia, açoite ou ventania? O que seu olho pode ver? E seu coração, o que diz? 

A tradução que você faz, não diz de mim, diz de você. Se para você eu sou apenas palavras, filograma de um mundo tão particular assim, tão resumido é porque, por distração, desinteresse ou incapacidade tuas mãos tocaram apenas a superfície desse universo tão vasto e profundo que é ser uma pessoa. Não me resuma apenas por não ser capaz de me compreender. O que sou não cabe aqui e nunca caberá. Eu sou uma pessoa. 

Eu sou uma pessoa.

Andréa Beheregaray.

domingo, 10 de novembro de 2013

Luxúria.







O sujeito não valia praticamente nada, descaradamente canalha, praticamente um psicopata, mas era tão bom, tão bom no que fazia que elas o amavam. Sofriam mas amavam. Seu prato predileto? Mocinhas românticas. Devorava-as, depois cuspia os restos. e elas? Pasmem, nunca mais o esqueciam. Ele despedaçava almas porque a sua era destroçada. Vingava-se do amor, ferindo.

Andréa Beheregaray.
A história do homem que não amei In Luxúria.

Mais além.






Quem vai me amar agora além de você? Quem vai me amar embaixo das águas? Amar como quem navega em mistérios? Quem vai agora acender a lua? Quem mais vai transformar geleiras em sol? Quem? Em que corpo poderei encontrar tesouros escondidos? Em que prazer vou nascer o meu? Quem vai me levar no fundo, mais fundo de mim? E meu ar, quem há de roubar? E a fome que morre na boca, quem vai devolver? Devorar-me de amor, descobrir outras formas, estender os limites, quem vai me levar agora além de você?



Andréa Beheregaray

sábado, 9 de novembro de 2013

Quem além de você?



Quem, Além de Você?

Leoni

Foi só um sorriso e foi por amor
Nenhuma ironia, não foi por mal
Foi quase uma senha pra te tocar
Nem foi um sorriso, foi um sinal
Por trás das palavras, da raiva de tudo
Sorri pra tentar chegar em você
Foi como fugir pra nos proteger
Enquanto eu sorrir ainda posso esquecer
Porque
Quem vai te abraçar?
Me fala quem vai te socorrer
Quando chover e acabar a luz
Pra quem você vai correr?
E quem vai me levar
Entre as estrelas, quem vai fazer
Toda manhã me cobrir de luz?
Quem, além de você?
Ninguém tem razão, tenta me entender
E a gente é maior que qualquer razão
Foi só um sorriso e foi por amor
Te juro do fundo do coração
Foi como tentar parar esse trem
Com flores no trilho e acenar pra você
Parece absurdo, eu sei, mas tentei
Enquanto eu sorrir ainda posso esquecer
Quem vai te abraçar?
Me fala quem vai te socorrer
Quando chover e acabar a luz
Pra quem você vai correr?
E quem vai me levar
Entre as estrelas, quem vai fazer
Toda manhã me cobrir de luz?
Quem, além de você?
Deixa isso passar, e quando passar
Vou estar aqui te esperando
Pra te receber
E sorrir feliz dessa vez
Que esse amor é tanto
Quem vai te abraçar?
Me fala quem vai te socorrer
Quando chover e acabar a luz
Pra quem você vai correr?
E quem vai me levar
Entre as estrelas, quem vai fazer
Toda manhã me cobrir de luz?
Quem, além de você?